Em perfil de 2010, Celso Pinto foi descrito como 'gigante do jornalismo'

Criador do jornal Valor Econômico, jornalista morreu nesta terça (3) aos 67 anos

São Paulo

Em texto publicado na Folha em 2010, quando o jornal Valor Econômico completou dez anos, Celso Pinto foi qualificado como "o jornalista econômico mais influente de sua geração" e "um "gigante do jornalismo".

Celso, que começou na profissão em 1974, na Folha, morreu nesta terça (3), aos 67 anos. Ele foi internado com pneumonia há duas semanas e não resistiu a complicações decorrentes da doença.

O perfil de 2010, de autoria do jornalista Marcio Aith, apresentou Celso como o pilar do sucesso do Valor, que havia sido lançado em 2000 pelos grupos Folha e Globo. Desde 2016, o grupo Globo controla o jornal sozinho.

O jornalista Celso Pinto, que morreu nesta terça (3)
O jornalista Celso Pinto, que morreu nesta terça (3) - Cacalos Garrastazu 3.jan.00/Valor/Ag. O Globo

Ouvidos por Aith, os ex-presidentes do Banco Central Arminio Fraga, Henrique Meirelles e Persio Arida usaram expressões como competente, talentoso e sério para se referir a Celso, além de destacar seu conhecimento e a clareza de seus textos.

Leia abaixo o perfil publicado pela Folha em 2 de maio de 2010.

Celso Pinto é "pilar" do sucesso do jornal

MARCIO AITH
DA REPORTAGEM LOCAL

O jornalista Celso Pinto foi o dínamo que determinou o sucesso do Valor Econômico, joint-venture entre o Grupo Folha e as Organizações Globo que completa dez anos.

Então colunista da Folha, foi ele quem definiu, em 2000, a equipe inicial de 160 jornalistas e as diretrizes a partir das quais construiu-se o melhor e mais qualificado conteúdo de jornalismo econômico do país.

Quando o Valor foi lançado, Celso já era o jornalista econômico mais influente de sua geração. Alguns de seus pares sabiam apurar. Outros, analisar. Um terceiro grupo, opinar. Celso conquistou seu espaço com um estilo que conciliava grande vigor da apuração, enorme capacidade de análise e fobia à opinião pessoal.

Suas colunas eram acompanhadas por banqueiros, acadêmicos, industriais, autoridades e integrantes de organizações internacionais, que o conheciam pessoalmente.

Frequentou as reuniões do FMI e do Banco Mundial por 30 anos, período no qual angariou o respeito pessoal dos diretores e do corpo técnico de ambas as instituições.

Em outubro de 1998, Stanley Fischer, segundo homem forte do Fundo, procurou Celso para conversar sobre a situação cambial brasileira, prestes a explodir. À ocasião, o FMI, pressionado pelo Tesouro americano, gestava um pacote de ajuda ao país, que fracassaria.

Quem testemunhasse a conversa veria que Fischer, a pretexto de informar Celso, tentava mesmo era tirar do jornalista o máximo de dados. Celso pouco falou e ainda saiu do encontro com a sensação de que estavam todos desorientados, de que a desvalorização do real era iminente.

Celso, 57 anos, conhece a fundo os dilemas clássicos envolvendo juros, câmbio, dívida e inflação. Ao longo dos anos 90, apontou o risco do uso da apreciação cambial para conter a inflação. Também fez alertas relevantes no sentido inverso —sobre formas artificiais de depreciar o câmbio.

"Celso Pinto é um gigante do jornalismo. Competente, sério, inteligente, fez escola e nos deixou, como legado, o Valor Econômico", disse à Folha o economista Arminio Fraga.

"Celso Pinto é um dos raros casos em que competência, conhecimento, talento e seriedade se reúnem. O jornal Valor Econômico espelha esta lista de qualidades." afirmou Henrique Meirelles, presidente do Banco Central.

"Além de sua dimensão empresarial, a clareza de seus textos é um marco do jornalismo brasileiro", disse o economista e banqueiro Pérsio Arida.

O lançamento do Valor foi a coroação de uma carreira de sucesso iniciada na própria Folha, em 1974, e solidificada na "Gazeta Mercantil", onde trabalhou em São Paulo e Brasília e como correspondente em Londres. Em 1996, voltou à Folha como colunista e, em 2000, lançou o Valor Econômico, do qual foi diretor de redação.

Em maio de 2003, a carreira de Celso foi interrompida por uma parada cardiorrespiratória da qual ele convalesce.

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