Governo que anistiou amotinados no Espírito Santo propõe reajuste de 40% a policiais

Associações de policiais rejeitaram proposta da administração estadual, apresentada na última quinta (27)

Curitiba

​Em negociação com o governo desde o início do ano, as polícias do Espírito Santo ainda não estão satisfeitas com a nova proposta de reajustes e gratificações apresentada na quinta-feira (27) pela gestão de Renato Casagrande (PSB).

Governo e associações tentam negociar sob a sombra da paralisação da categoria no estado em 2017, que durou cerca de 20 dias e registrou 225 homicídios no período.

Casagrande sucedeu Paulo Hartung, do MDB, que teve na crise de 2017 um de seus momentos mais problemáticos no cargo.

Quando o pessebista assumiu, os cerca de 3.000 militares estaduais que receberam sanções por participarem do motim foram anistiados administrativamente.

De acordo com o secretário de Governo, Tyago Hoffmann, a nova proposta de reajuste faz com que a o salário de soldado da Polícia Militar saia da última colocação do Brasil para uma posição mediana: passaria de R$ 2.750 em janeiro de 2019 (na entrada do governo) para R$ 3.950 ao final de 2022. O percentual de reajuste seria, neste caso, de pouco mais de 40%.

Já para os militares de patentes medianas, de cabo a tenente, a proposta é de variação de 35% no salário, escalonado em três anos. Entre as demais patentes da PM, policiais civis, inspetores penitenciários e agentes socioeducativos, o aumento é de 30% até o final da gestão.

A Frente Unificada de Valorização Salarial, grupo criado no início do governo e que reúne diversas associações de policiais militares e civis, ressalta, no entanto, que esses percentuais resultam de um cálculo de juros sobre juros e que o índice real de reajuste, na verdade, gira em torno de 12%, na soma de todos os anos. A contraproposta da frente é de que se atinja ao menos 17%.

“Não queremos agir de forma irresponsável para quebrar o estado, mas fizemos um trabalho com economista e dados para chegar num mínimo aceitável de valorização e ainda não conseguimos avançar numa proposta que seja a mínima necessária”, afirma cabo Jackson Eugênio Silote, da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar.

Hoffmann argumenta, de outro lado, que a nova proposta cobre todas as perdas inflacionárias que a classe teve entre 2011 e 2018 e ainda gera ganho real.

Parcelas do reajuste também foram antecipadas em alguns meses na nova proposta do governo. A administração não apoia, no entanto, a ideia das associações de incorporação de todas as escalas especiais nos salários dos policiais, alegando problemas operacionais.

O governo marcou uma nova reunião para a próxima segunda-feira (2) e deve levar uma nova proposta. Hoffmann diz não acreditar que haja uma paralisação como a de 2017.

“Há um trauma muito grande em relação ao que aconteceu em 2017, mas a situação agora é diferente”, diz o secretário de Governo. Para ele, diferentemente do que ocorreu naquela crise, há atualmente um diálogo aberto com a categoria, além da apresentação de propostas.

Já na semana passada o Ministério Público estadual emitiu uma recomendação aos sindicatos e associações para que a categoria não realize atos que possam comprometer a ordem pública, como diminuição de policiais nas ruas ou mesmo greve.

Entre as associações, também há consenso de que não cabe outra mobilização como a de três anos atrás. “Ninguém quer um novo 2017 porque foi um episódio muito traumático, de lá para cá passamos por alguns percalços que ninguém quer mais”, afirma Silote.

Ele diz que não há aspectos ideológicos envolvidos na atual negociação com o governo. “Estamos tendo um cuidado muito grande para não politizar essa discussão, essa movimentação não é política ou por questões ideológicas, mas por valorização”, aponta.

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