Sob pressão de aliados, opositores e policiais, Zema enfrenta sua pior crise em MG

Após alerta do governo federal, governador voltou atrás em proposta de reajuste de 40% para policiais

Belo Horizonte

Com pouco mais de um ano de gestão, o governador Romeu Zema (Novo) viu se abrir nesta quarta-feira (11) sua pior crise, depois da decisão de sancionar parcialmente o próprio projeto de reajuste a policiais.

Criticado pela própria legenda e convocado a Brasília para uma reunião no ministério da Economia, Zema se viu encurralado entre cumprir o acordo que havia firmado com servidores e deputados e garantir a assinatura do regime de recuperação fiscal com a União.

Minas Gerais passa por grave crise financeira, com salários de funcionários parcelados desde 2016.

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema - Alexandre Rezende/Folhapress

A hipótese de que a liminar que suspende o pagamento da dívida mineira pudesse cair, caso o reajuste fosse sancionado, foi colocada na mesa pelo governo federal.

A saída foi sancionar apenas o artigo que prevê reajuste de 13% para 2020 —o projeto original concedia aumento de 41,7%.

O preço do recuo foi a abertura da crise política mais grave até aqui. A saída do secretário de governo, Bilac Pinto (DEM), o segundo da gestão, estremeceu a relação de Zema com sua base. O líder do bloco governista, Gustavo Valadares (PSDB), chegou a publicar em uma rede social que era “o início do fim”.

No mesmo dia, o vice-governador, Paulo Brant, se desfiliou do Novo, fazendo críticas duras à legenda. Brant disse em nota que o partido prefere zelar por seu programa e deixa em segundo plano a responsabilidade política e que, para passar reformas no estado, o governo precisa de coalizão.

Na contramão, assumiu o lugar de Bilac na Secretaria de Governo, pasta da articulação política, Igor Eto (Novo), então secretário-geral de governadoria.

O vereador de Belo Horizonte, Mateus Simões, primeiro eleito do Novo em Minas, que coordenou a transição de governo em 2018, ficou com a vaga de Eto. Os dois são vistos como "Novo raiz" no meio político.

“A sinalização é que a gente deseja uma interlocução mais próxima, mais ágil com a Assembleia e com os demais Poderes”, afirma o vice-líder de governo, Guilherme da Cunha (Novo).

“Essa interlocução é sinalizada através da nomeação da pessoa [Eto] que, desde o primeiro dia de governo, foi o assessor direto e mais próximo do governador”.

Eto é o terceiro secretário de Governo de Zema. Custódio Mattos, ligado ao PSDB e ex-prefeito de Juiz de Fora, ficou oito meses no cargo. Bilac Pinto, ex-deputado e secretário de governos tucanos, cinco meses e meio.

À Folha Bilac Pinto disse, no ano passado, que não tinha afinidade com o Novo. Na época, ele afirmou que achava os conceitos da legenda meritórios, mas que parlamentares "eleitos pelas redes sociais" tinham uma visão diferente de nomes "eleitos por voto político", como ele.

A decisão de sancionar parcialmente o projeto de reajuste para policiais desagradou deputados representantes da categoria.

“O governador se fechou no seu mundinho, com um grupo de pessoas que não conhecem a vida pública, que não têm experiência na política. As decisões tomadas pelo governador fecham as últimas brechas na articulação política”, diz o deputado Sargento Rodrigues (PTB).

Rodrigues é parte do grupo de cinco deputados que fizeram o acordo inicial entre governo e policiais e costumam votar com o governo, apesar de serem de blocos independentes.

Entidades ligadas à segurança, que participaram da reunião com os deputados, pediram calma aos servidores e afirmaram que o foco agora seria trabalhar para derrubar o veto na Assembleia. O reajuste parcial não satisfez.

Para o líder da oposição, André Quintão (PT), a rotatividade dos interlocutores do governo pode afetar o andamento dos projetos que Zema pretende mandar.

"O governador não pode ficar refém do partido Novo, do programa ideológico dele. Isso tem trazido insatisfações inclusive na própria base", avalia.

Vitrine para o Novo por ser o primeiro governador eleito pela legenda, Zema já havia enfrentado tensão na sua base no decorrer de 2019.

Dos três deputados do Novo, um deles, Bartô, costuma votar contra o governador e diz que não é recebido por Zema.

Na Assembleia Legislativa, as lideranças do governo e do bloco governista ficaram com o PSDB. O partido, porém, sempre sinalizou que não era parte do governo.

Projetos maiores da gestão, que poderiam gerar mais embate, como reforma da Previdência ou privatizações de empresas como a Cemig (energia elétrica) e Copasa (saneamento e água), ainda não foram apresentados.

Bilac disse na terça que a reforma da Previdência seria enviada nas próximas semanas ao Legislativo. Com sua saída, não há certeza se a previsão se mantém.

Com servidores de três categorias em greve —educação, saúde e meio ambiente— e sem o reajuste, deputados dizem que pode ser difícil passar o aumento da contribuição previdenciária. Até o momento, 17% dos servidores não receberam o 13º salário de 2019.

Dos 77 deputados da Assembleia, 17 são base de Zema —seis deles são do PSDB. Na próxima semana, uma reunião do bloco vai reavaliar a posição dos partidos junto ao governo.

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