Descrição de chapéu Coronavírus

Afago entre Lula e Doria é sinal para fora da bolha e expõe isolamento de Bolsonaro

Políticos, porém, veem apenas gesto de civilidade e não construção política conjunta

São Paulo

A troca de afagos entre o ex-presidente Lula (PT) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em uma rede social em meio à crise do coronavírus, representou um aceno para fora de suas bolhas e evidenciou o isolamento político do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o ex-presidente Lula (PT) - Zanone Fraissat/Folhapress e Diego Padilha/Divulgacao Agencia PT

Tucano e petista, adversários históricos e ferrenhos, colocaram as diferenças de lado nesta quinta-feira (2).

"Nossa obsessão agora tem que ser vencer o coronavírus. Chegamos ao ponto do Doria ter que mandar a PM invadir fábrica pra pegar máscara. A gente tem que reconhecer que quem tá fazendo o trabalho mais sério nessa crise são os governadores e os prefeitos", escreveu Lula em sua conta no Twitter.

No último sábado (28), o governador recolheu 500 mil máscaras para profissionais de saúde da empresa 3M. Ele usou uma lei federal de fevereiro deste ano que tipifica uma série de medidas em emergências de saúde pública.

Doria respondeu ao ex-presidente: "Temos muitas diferenças. Mas agora não é hora de expor discordâncias. O vírus não escolhe ideologia nem partidos. O momento é de foco, serenidade e trabalho para ajudar a salvar o Brasil e os brasileiros".​

Ao exaltar governadores e prefeitos, Lula faz uma crítica a Bolsonaro, que vem se opondo ao isolamento pregado determinado gestores locais e recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Doria, por sua vez, também tornou-se símbolo de oposição a Bolsonaro após travar embates com o presidente em torno da gestão da crise. A pandemia antecipou os planos do tucano, que pretende ser candidato à Presidência em 2022, de fazer frente a Bolsonaro —em quem pegou carona para eleger-se em 2018.

A união dos opostos num momento de gravidade sem precedentes foi lida por ​bolsonaristas como sinal de acerto para a derrubada do presidente. A reação nas redes foi imediata, com as hashtags LulaDoria e DoriaPiorQueLula.

O próprio Bolsonaro reagiu. Após pedir um pacto nacional no pronunciamento de terça (31), colocou limites ao entendimento entre Lula e Doria.

"Quando falamos em união, nos referimos aos que querem o melhor para o Brasil e para os brasileiros, não uma aliança com quem quase o destruiu por completo. Discordâncias temos entre meras posições. Superar divergência não é abandonar a própria honra nem a verdade", escreveu.

Mais tarde, em entrevista à rádio Jovem Pan, Bolsonaro afirmou ainda estar "com vergonha dessa aproximação" entre Lula e Doria e que "caiu a máscara" do tucano.

O vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente, tuitou: "Ainda precisa desenhar? Eis as duas bandas que formam a bunda".

Outro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) escreveu que "o recado de Lula não é de união, é político: neste momento vale a pena PT estar junto do PSDB contra Bolsonaro". "Antigamente PT e PSDB se fingiam de opositores, o que era conhecido como estratégia das tesouras. Hoje eles não tem mais esse pudor."

Para petistas e tucanos ouvidos pela reportagem, porém, o gesto foi apenas simbólico e, apesar de sinalizar uma abertura ao diálogo e a fragilidade de Bolsonaro, não significa necessariamente construção política conjunta entre os partidos.

A troca de tuítes, na opinião desses políticos, foi feita no calor do momento, numa demonstração de civilidade e trégua humanitária dos dois lados.

Lula e Doria, assim como seus respectivos partidos, têm falado em evitar a disputa política aberta e concentrar as energias em soluções de saúde para enfrentamento da pandemia.

Num cenário em que a crise política e a sanitária caminham grudadas, porém, os líderes não têm poupado ataques a Bolsonaro.

Em entrevistas nesta semana, Lula cobrou que o governo dê orientação às pessoas, coordene ações de estados e municípios e, sobretudo, que pague o auxílio emergencial para que os mais pobres possam cumprir o isolamento.

"A prioridade do Lula e do PT é orientar a população e cobrar o governo. Que Bolsonaro pague as pessoas", diz o ex-deputado Jilmar Tatto, secretário de comunicação do PT.

Da mesma forma em que buscou ser propositivo, Lula também reverberou o pensamento da esquerda de que Bolsonaro não tem mais condições de ocupar o cargo de presidente. Falou em renúncia e em impeachment.

A jornalistas de veículos de esquerda o petista explicou, porém, que não endossa o "fora, Bolsonaro" por ter dúvidas se há crime de responsabilidade e diz ter pedido ao PT um estudo sobre isso. Lula afirmou que uma nova avaliação pode fazer o partido adotar essa bandeira.

Uma ala do PT, diante da avaliação de que o impeachment não conta com maioria no Congresso nem mobilização popular suficiente, prefere não entrar nessa briga em meio à pandemia. Outra vertente acredita que passou da hora de articular a saída de Bolsonaro.

Lula tem mantido o pé no freio —ficou de fora de ação da esquerda nesta semana. Na segunda (30), políticos da oposição, incluindo os ex-candidatos à presidência Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), assinaram carta que pede a renúncia de Bolsonaro.

O ex-presidente não está entre os signatários.​ Ele disse que considerou não ser necessário assinar por não ter sido candidato em 2018 e nem ser presidente de partido.

O aceno a Doria e a hesitação em embarcar no impeachment de Bolsonaro se encaixam na versão tida como conciliadora e mais ponderada do ex-presidente, que foi eclipsada pelo tom raivoso adotado logo ao sair da prisão, em novembro passado.

Depois de 580 dias preso pela Lava Jato, Lula deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba exaltando a polarização. "Um pouco de radicalismo faz bem a nossa alma. […] Não estou mais radical, estou mais consciente", chegou a dizer.

Sempre com críticas à imprensa na ponta da língua, Lula também elogiou o trabalho dos jornalistas ​na pandemia do coronavírus em suas falas nos últimos dias.

Afirmou ainda que vem se reunindo com economistas, especialistas e com entidades de esquerda, como o MST e CUT. Sinalizou estar aberto ao diálogo com Ciro Gomes, que se afastou do PT.

Ao mesmo tempo, Lula desferiu os ataques costumeiros a veículos da grande mídia e ao ex-juiz Sergio Moro. Ainda recusou aproximação com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Michel Temer (MDB). "​São pessoas que eu não me vejo conversando", declarou.

Lula foi condenado em primeira, segunda e terceira instâncias sob a acusação de aceitar reformas e a propriedade de um tríplex, em Guarujá, como propina paga pela empreiteira OAS em troca de contrato com a Petrobras, o que ele sempre negou. Depois, foi condenado também em primeira e segunda instâncias no caso do sítio de Atibaia (SP).

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