Descrição de chapéu Coronavírus

Bolsonaro busca nova política contra coronavírus com demissão de Mandetta e entrada de Teich

Presidente defende flexibilizar medidas de isolamento social e diz que já falou com novo ministro 'abrir o emprego no Brasil'

Brasília

Após semanas de embates em torno de medidas de combate à crise do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) confirmou nesta quinta-feira (16) a demissão de Luiz Henrique Mandetta, 55, do comando do Ministério da Saúde e nomeou o oncologista Nelson Teich, 62, para o cargo.

Em pronunciamento ao lado do novo ministro, no Palácio do Planalto, Bolsonaro voltou a atacar governadores e prefeitos por ações de isolamento social, como fechamento de comércios, e indicou querer mudança no rumo das ações de combate ao vírus.

"Quem tem poder de decretar estado de defesa ou de sítio —depois de uma decisão do Parlamento— é o presidente da República, e não prefeito ou governador. O excesso não levará à solução do problema. Muito pelo contrário, [ele] se agravará", afirmou.

"Devemos tomar medidas sim para evitar a proliferação ou expansão do vírus, mas pelo convencimento e com medidas que não atinjam a liberdade e as garantias individuais de qualquer cidadão", acrescentou Bolsonaro.

O presidente Jair Bolsonaro ao lado do novo ministro da Saúde, Nelson Teich
O presidente Jair Bolsonaro ao lado do novo ministro da Saúde, Nelson Teich - Reprodução - 16.abr.20/TV Brasil

O discurso foi acompanhado de panelaços em protesto em diversas cidades. Deputados, senadores e governadores também disseram lamentar a decisão do presidente.

Em nota conjunta, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), adotaram tom contundente sobre a exoneração do correligionário.

"A maioria das brasileiras e dos brasileiros espera que o presidente Jair Bolsonaro não tenha demitido Mandetta com o intuito de insistir numa postura que prejudica a necessidade do distanciamento social e estimula um falso conflito entre saúde e economia", escreveram.

Mais tarde, Bolsonaro acusou Maia de conspirar para tirá-lo do cargo e qualificou como péssima a atuação dele.

O presidente afirmou ainda que avalia enviar um projeto de lei ao Poder Legislativo aumentando a lista de atividades consideradas essenciais durante o estado de emergência decretado por causa da pandemia do coronavírus.

A ideia da iniciativa é flexibilizar as medidas restritivas decretadas por estados e municípios, viabilizando, por exemplo, a reabertura de comércios e restaurantes. Segundo Bolsonaro, pode ser considerada essencial toda atividade que permita "levar um prato de comida para a casa".

Na quarta-feira (15), o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por unanimidade que estados e municípios têm autonomia para as medidas.

A divergência sobre iniciativas de isolamento social adotadas por estados foi um dos principais pontos de colisão entre Bolsonaro e Mandetta.

Desde o início da crise, o presidente tem ignorado orientações sanitárias ao participar de manifestações a favor de seu governo e também visitar comércios, onde costuma gerar aglomerações. Ao mesmo tempo, pressiona governadores e prefeitos a abrandar a política de isolamento social.

Em mais de uma ocasião, Bolsonaro defendeu publicamente a reabertura de estabelecimentos e pregou que o isolamento valesse somente para grupos mais vulneráveis, como idosos.

Já Mandetta é crítico da aglomeração de pessoas e defensor do isolamento horizontal, em linhas com a OMS (Organização Mundial da Saúde), para evitar o contágio.

Para o presidente, essas ações prejudicam a economia e podem gerar danos tão graves quanto a ameaça à saúde representada pela Covid-19.

Em nova investida contra governadores, em especial contra João Doria (PSDB), de São Paulo, a quem considera um adversário para 2022, o presidente falou que jamais mandaria prender quem estivesse nas ruas em desrespeito a regras de quarentena.

Doria chegou afirmar que as pessoas que violarem as regras da quarentena em São Paulo serão advertidas e orientadas, mas que, se insistirem, poderão ser presas.

"Os excessos que alguns cometeram, que se responsabilizem por eles. Eu jamais mandaria as minhas Forças Armadas prenderem quem estivesse nas ruas", disse Bolsonaro.

Ele defendeu a flexibilização de medidas de isolamento social, mas, em tom mais moderado do que costuma adotar, afirmou que esse processo precisa ser "gradual". Para o mandatário, o coronavírus trouxe uma "máquina de moer empregos", expondo principalmente as pessoas mais humildes, que "não podem ficar em casa por muito tempo".

"Conversei com o Nelson [Teich] que gradativamente nós temos que abrir o emprego no Brasil. Essa grande massa de humildes não tem como ficar presa dentro de casa. E o que é pior, quando voltar não ter emprego. O governo não tem como manter esse auxílio emergencial [de R$ 600 para informais] ou outras ações por muito tempo", disse.

Bolsonaro afirmou que conversou com o novo ministro sobre a flexibilização das regras de restrição social.

"Sei e reitero que a vida não tem preço, mas a economia e o emprego têm que voltar à normalidade. Não o mais rápido possível, como conversado com o dr. Nelson, mas ele tem que começar a ser flexibilizado, para que exatamente não venhamos a sofrer mais com isso."

O presidente avaliava demitir Mandetta desde a semana passada. Ministros considerados moderados, principalmente da ala militar, o convenceram a adiar a decisão.

Um dos objetivos era evitar maiores desgastes para o presidente junto à opinião pública. Pela última pesquisa Datafolha, sob Mandetta, o Ministério da Saúde tinha mais que o dobro da aprovação do presidente. Enquanto 76% disseram aprovar os atos da pasta na pandemia, apenas 33% concordavam com Bolsonaro.

A situação, porém, passou a ser considerada incontornável esta semana após Mandetta conceder uma entrevista à Rede Globo, na qual ele fez críticas indiretas ao presidente.

Bolsonaro e sua equipe intensificaram a busca por substituto. Inicialmente, o mandatário procurou um nome alinhado às políticas que pretende adotar, como o afrouxamento da quarentena.

O presidente também queria alguém que defendesse o uso da cloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19, outro ponto central do choque com o ex-ministro.

Bolsonaro é um entusiasta do medicamento e quer que ele seja administrado inclusive para pacientes em estágio inicial. Mandetta, por sua vez, tem repetido que ainda não há estudos científicos provando a eficácia da droga. O presidente, porém, teve dificuldade de encontrar alguém com respaldo na classe médica com essas características.

Por isso, passou a adotar como condição um nome que, apesar de ter posições diferentes da dele, fosse respeitado no meio e não protagonizasse embates públicos com ele.

O oncologista, que chegou a ser cogitado para o posto durante a campanha eleitoral de 2018, tinha o respaldo do secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, da equipe econômica e da cúpula militar.

O nome do médico também é apoiado pelo empresário Meyer Nigri, presidente da Tecnisa. Além disso, nesta quinta, Teich recebeu o apoio formal da AMB (Associação Médica Brasileira).

Após ser anunciado ministro, Teich disse que "tudo vai ser tratado absolutamente de uma forma técnica e científica".

Afirmou que não haverá nenhuma definição brusca sobre isolamento social. Ressaltando estar alinhado ao presidente, o ministro também disse que economia e saúde "não competem entre si".

Antes de ser convidado a assumir o ministério, à tarde, Teich teve um encontro com o presidente pela manhã. Contou a favor da Teich a formação econômica e a experiência em gestão empresarial. O médico é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

A aposta do presidente é a de que o médico possa equilibrar as ações da pasta entre medidas voltadas para evitar mortes por coronavírus, mas que minimizem o impacto econômico das restrições.

Após a reunião com o médico, Bolsonaro bateu o martelo e chamou Mandetta para uma conversa em que consolidou sua demissão.

Logo após sair do Planalto, demonstrando estar emocionado, Mandetta fez uma fala com recados indiretos ao presidente.

"Esse problema [demissão] é insignificante. Nada tem significado que não seja uma defesa da vida, do SUS e da ciência. Fiquem nesses três pilares que deles vocês conquistarão tudo. A ciência é a luz, é o iluminismo. Apostem todas as suas energias através da ciência. Não tenham uma visão única e pensem dentro de uma caixinha", afirmou a servidores da pasta.

Mandetta pontuou ainda que o pior da crise do novo coronavírus está por vir.

"Não pensem que estamos livres de um pico dessa doença. O sistema de saúde ainda não está preparado para uma marcha acelerada."

O Brasil registrou, até esta quinta, 1.924 óbitos pela Covid-19 e 30.425 casos confirmados da doença.

Mandetta fez questão de pontuar sua defesa a medidas restritivas adotadas por prefeitos e governadores e criticadas por Bolsonaro.

"Sigam as orientações das pessoas mais próximas que estão em contato com o sistema de saúde, como prefeitos e governadores. O momento é de darmos as mãos e vamos juntos porque vai ser dura a tomada de decisão que vamos ter que tomar nos próximos meses."

A demissão foi criticada por diversas alas de políticos. Wilson Witzel (PSC-RJ) afirmou que, "entre a saúde dos brasileiros e a política", o presidente "preferiu a política".

O tucano João Doria afirmou que a saída de Mandetta "é uma perda para o Brasil".

O vice-presidente do Senado, Antonio Anastasia (PSD-MG), afirmou que o presidente responderá por seus atos.

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