Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro é democrata, e democracia faz barulho, diz Guedes sobre ato pró-golpe

Ministro da Economia afirma que Poderes estão definindo seus espaços e que há aperfeiçoamento institucional

Brasília

Um dia após o presidente Jair Bolsonaro participar de um ato pró-golpe, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o presidente é um democrata que “sai correndo atrás” de passeata que tiver bandeira do Brasil.

De acordo com o ministro, o governo tem compromisso com a democracia, um regime “que faz barulho”. Para Guedes, o país vive um período de aperfeiçoamento institucional.

Neste domingo (19), Bolsonaro discursou em frente ao quartel-general do Exército em Brasília a um grupo de apoiadores que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, uma intervenção militar e a edição de um novo AI-5, o mais radical ato institucional da ditadura militar (1964-1985).

“O presidente é um democrata. Ele às vezes entra... Se tiver uma passeata com bandeira do Brasil, ele sai correndo atrás, entra, grita, abraça todo mundo, repete os gritos de guerra da campanha, ‘vamos acabar com isso e aquilo’, mas é um democrata, está comprometido com isso. Nós temos o compromisso com a democracia”, afirmou Guedes.

Em videoconferência com o BTG Pactual, o ministro afirmou acreditar firmemente no processo democrático brasileiro.

"Vai dar tudo certo. Tenho enorme confiança na capacidade de processamento da democracia brasileira. Ela faz barulho, empurra para cá e para la, os Poderes definindo seus espaços. Estamos assistindo a um aperfeiçoamento institucional”, disse.​

"Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil", disse Bolsonaro no domingo. "Chega da velha política. Agora é Brasil acima de tudo e Deus acima de todos."

A fala de Bolsonaro e sua participação nesse ato no Dia do Exército provocaram fortes reações no mundo jurídico e político.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse ser uma “crueldade imperdoável com as famílias das vítimas” pregar uma ruptura democrática em meio às mortes da pandemia da Covid-19.

“Não temos tempo a perder com retóricas golpistas. É urgente continuar ajudando os mais pobres, os que estão doentes esperando tratamento em UTIs e trabalhar para manter os empregos. Não há caminho fora da democracia”, afirmou.

O presidente do STF, Dias Toffoli, disse nesta segunda-feira (20) que não há solução para o país fora da democracia. "Não é possível admitir qualquer outra solução que não seja dentro da institucionalidade, do Estado Democrático de Direito, da democracia e desses objetivos que estão na Constituição."

O governador João Doria (PSDB) disse ser "lamentável" que o presidente "apoie um ato antidemocrático, que afronta a democracia e exalta o AI-5". O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também chamou de "lamentável" a participação de Bolsonaro. "É hora de união ao redor da Constituição contra toda ameaça à democracia."

Bolsonaro amenizou o tom nesta segunda-feira. "No que depender do presidente Jair Bolsonaro, democracia e liberdade acima de tudo", afirmou a jornalistas ao deixar o Palácio da Alvorada pela manhã. "O pessoal geralmente conspira para chegar ao poder. Eu já estou no poder. Eu já sou o presidente da República", disse Bolsonaro, que, em outro momento, afirmou: "Eu sou, realmente, a Constituição".

A escalada do tom de Bolsonaro ocorre em um momento de isolamento político do presidente. Reportagem da Folha mostrou que os adversários de Bolsonaro, e hoje ele os tem em todas as esferas de poder, desistiram de uma acomodação com o presidente.

A avaliação prevalente, ouvida pela reportagem nas cúpulas do Legislativo, do Judiciário e em estados, é a de um paradoxo: a fraqueza política de Bolsonaro só tende a acirrar sua agressividade no embate, o que ocorreu neste final de semana em Brasília.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.