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Convocado por Bolsonaro contra vírus, jejum tem conotação de penitência

Na tradição judaico-cristã, ato também é lembrado como invocação à misericórdia divina

São Carlos (SP)

Ao anunciar a intenção de convocar um dia de jejum religioso “para que o país fique livre desse mal [do novo coronavírus]”, o presidente Jair Bolsonaro busca se inserir numa tradição presente em todas as grandes religiões do mundo, mas que tem uma associação mais forte com os relatos bíblicos do Antigo Testamento.

Considerando a relação próxima do presidente com grupos evangélicos, para os quais a Bíblia é a grande fonte de autoridade religiosa, é possível interpretar a convocação como forma de reforçar a identidade comum que une Bolsonaro e seus principais apoiadores.

A relação entre o jejum e diferentes formas de aprimoramento espiritual aparece tanto nas grandes fés monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) quanto nas tradições indianas, do Extremo Oriente e de povos com organização social tribal.

Bolsonaro fala com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada nesta sexta (3)
Bolsonaro fala com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada nesta sexta (3) - Pedro Ladeira/Folhapress

Em sociedades menos complexas e em épocas mais antigas, era comum que o hábito de jejuar fosse usado para provocar estados alterados de consciência e certas formas de êxtase religioso, nas quais quem se submetia a essa disciplina acreditava obter acesso direto ao mundo espiritual.

Em religiões mais institucionalizadas, no entanto, a prática do jejum costuma ter outras conotações, embora os estados alterados de consciência também possam estar associados ao procedimento.

As principais funções do ato de jejuar nessas tradições são as de técnica de autodomínio e de purificação pessoal (tema que é predominante nas tradições do hinduísmo e do budismo, por exemplo), de demonstração de penitência pelos pecados e de invocação da misericórdia divina.

Esse segundo significado da prática é o mais importante nas Escrituras hebraicas, cuja autoridade vale tanto para o judaísmo quanto para as diversas igrejas cristãs.

No Antigo Testamento, por exemplo, o livro de Jonas conta como o profeta israelita que empresta seu nome à narrativa foi enviado por Deus à metrópole de Nínive (capital do Império Assírio, um dos principais inimigos do povo de Israel).

A mensagem de Jonas aos habitantes de Nínive era duríssima: por causa da maldade dos assírios, a cidade seria destruída dentro de 40 dias. “Os ninivitas creram nessa mensagem de Deus e proclamaram um jejum, vestindo-se de sacos desde o maior até o menor”, incluindo o rei, relata o livro em seu terceiro capítulo. Com isso, diz a Bíblia, o Criador desistiu do intento de punir a capital assíria.

O Segundo Livro de Samuel traz um relato parecido, mas com final bem menos auspicioso, acerca do rei Davi, ancestral de Jesus.

Depois de fazer sexo com a mulher de um de seus generais, que engravidou do rei, Davi armou para que o soldado fosse morto em batalha. Para punir o pecado do monarca, Deus fez com que a criança gerada por ele adoecesse. Davi jejuou e se prostrou no chão, implorando pela vida do menino, mas ele acabou morrendo mesmo assim.

O tema do jejum aparece ainda nas pregações do próprio Jesus registradas no Novo Testamento (sagrado apenas para os cristãos). Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, por exemplo, dizem que os discípulos de Cristo não tinham o hábito de jejuar. Conta-se que tanto eles quanto Jesus, em geral, comiam e bebiam à vontade, como forma de celebrar a alegria da presença do Filho de Deus entre eles.

Jesus, porém, não condena a prática em si, mas apenas o uso dela como sinal externo de devoção, típico de hipócritas, segundo ele. “Tu, porém, quando jejuares, unge tua cabeça e lava teu rosto, para que os homens não percebam que estás jejuando, mas apenas teu Pai, que te recompensará”, diz Cristo, segundo o Evangelho de Mateus.

Nas diferentes tradições religiosas judaico-cristãs, assim como no islamismo, é raro que o jejum corresponda a uma abstinência total de comida e bebida.

Em geral, ele corresponde a uma grande redução da ingestão de alimentos (uma única refeição diária, digamos), ou ao consumo exclusivo de pão e água ao longo de um dia. Os alimentos que quase nunca são consumidos nesses contextos são os de origem animal, principalmente carnes e laticínios.

Entre os muçulmanos, o mês sagrado do Ramadã é marcado por um jejum que vai do nascer ao pôr do sol (o fiel pode se alimentar à noite). Em todas essas tradições, é comum que idosos, mulheres grávidas e crianças, entre outros grupos, fiquem livres da obrigação de jejuar.

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