Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Em discurso, Bolsonaro se vende como honesto e insinua Moro ardiloso; leia íntegra comentada

Presidente usou pronunciamento na sexta (24) para atacar ex-ministro, que fez acusações ao pedir demissão

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez um pronunciamento na tarde de sexta-feira (24), horas depois de o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, anunciar seu pedido de demissão.

O ex-juiz, celebrizado pela atuação na Operação Lava Jato, fez críticas a Bolsonaro e revelações consideradas graves. O discurso de Moro, publicado na íntegra com pontos contextualizados pela reportagem da Folha, evidenciou insatisfações dele no cargo.

Como resposta, o presidente fez um pronunciamento com ataques ao ex-auxiliar. Afirmou, por exemplo, que Moro usou a disputa em torno da manutenção de Maurício Valeixo na direção-geral da Polícia Federal para negociar uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal), o que o ex-ministro nega.

Leia a íntegra da fala de Bolsonaro com comentários.

Senhores, senhoras, boa tarde. Meus ministros, imprensa, povo brasileiro que me assiste. Sabia que não seria fácil. Uma coisa é você admirar uma pessoa, a outra é conviver com ela, trabalhar com ela. Hoje pela manhã, por coincidência, tomando café com alguns parlamentares, eu lhes disse: hoje vocês conhecerão aquela pessoa que tem um compromisso consigo próprio, com seu ego, e não com o Brasil.

O que eu tenho ao meu lado e sempre tive foi o povo brasileiro. Hoje essa pessoa vai buscar uma maneira de botar uma cunha entre eu o povo brasileiro. Isso aconteceu há poucas horas. Um breve histórico. Todos nós conhecemos o senhor Sergio Moro das suas decisões lá da Vara Federal de Curitiba.

A Lava Jato já existia, mas ninguém nega o seu brilhante trabalho. Eu pessoalmente tive o primeiro contato com o senhor Sergio Moro no dia 30 março de 2017 no aeroporto de Brasília, onde ele estava parado em uma lanchonete e eu fui cumprimentá-lo. Ele praticamente me ignorou. A imprensa toda notificou isso dando descrédito à minha pessoa. Confesso que fiquei triste porque era um ídolo para mim.

Após ser convidado para o cargo, o ministro disse que, no episódio do aeroporto, não havia reconhecido Bolsonaro, mas afirmou que, posteriormente, pediu desculpas.

Eu era apenas um deputado, humilde deputado, como é ou como são a maioria dos que estão no Parlamento brasileiro. Não vou dizer que chorei porque estaria mentindo, mas fiquei muito triste. Para minha surpresa, alguns dias depois eu estava em Parnamirim e recebi um telefone dele onde. Obviamente, a sua consciência tocou e ele conversou comigo sobre o episódio.

Eu dei por encerrado o assunto. Me senti de certa forma reconfortado. O tempo passou. Eu numa pré-campanha e ele com as suas sentenças em Curitiba. Com o passar do tempo, entrei em campanha e, como no meu entendimento não tinham como deter, tentaram me assassinar. Obviamente isso marca a história de uma nação, muito mais a minha vida, a da minha família, em especial da minha filha Laura, de nove anos de idade.

Acabou o primeiro turno. Eu fui, passei para o segundo turno com o senhor Fernando Haddad, do PT. Nesse ínterim, eu baixado no Einstein, em São Paulo, recebi uma ligação de uma pessoa que queria fazer com o que o senhor Sergio Moro fosse me visitar. Eu fiquei feliz, mas declinei. Ele não esteve comigo durante a campanha. Eu não sei em quem ele votou no primeiro turno e nem quero saber.

Voto é sagrado e secreto. Mas eu exatamente evitei conversar com ele naquele momento, entre o primeiro e o segundo turno, porque com toda a certeza essa visita se tornaria pública e eu não queria aproveitar do prestígio dele para conseguir a vitória no segundo turno. Após então a nossa vitória, a vitória da democracia, da liberdade, das eleições livres, eu recebi o senhor Sergio Moro na minha casa na Barra da Tijuca. Presente ao meu lado o senhor Paulo Guedes, um homem que já havia escolhido para ser ministro da Economia.

Moro já disse que havia sido sondado para o cargo cinco dias antes do segundo turno pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O convite provocou, na época, divergências entre integrantes da Operação Lava Jato.

E ali traçamos alguma coisa de como ele seria tratado caso aceitasse o nosso convite para ser ministro da Justiça. Obviamente, repito, ele não participou da minha campanha. Acertamos como fiz com todos os ministros: vai ter autonomia no seu ministério. Autonomia não é sinal de soberania.

A todos os ministros, e a ele também, falei do meu poder de veto. Os cargos-chaves têm que passar pelas minhas mãos, e eu daria o sinal verde ou não. Para todos os ministros foi feito dessa maneira. Mais de 90% desses cargos que passaram pelas minhas mãos eu dei o sinal verde. Assim foi também com o senhor Valeixo, até ontem diretor-geral da nossa honrada e gloriosa Polícia Federal.

Em junho, em encontro com empresários, o presidente disse o oposto. Ele falou que todos os seus ministros têm “carta branca” e “100% de autoridade para compor o seu ministério”.

A indicação foi do senhor Sergio Moro, apesar de a lei de 2014 dizer que a indicação para esse cargo e a nomeação é exclusiva do senhor presidente da República. Abri mão disso porque confiava no senhor Sergio Moro, e ele levou a sua equipe ou trouxe a sua equipe aqui para Brasília. Todos os cargos-chave são de Curitiba, inclusive a Polícia Rodoviária Federal. Lógico, me surpreendeu. Será que os melhores quadros da PF todos estavam em Curitiba? Mas vamos confiar, vamos dar um crédito. E assim nós começamos a trabalhar.

Os senhores da imprensa bem sabem que eu não conto com a isenção na maioria das vezes por parte de vocês nas matérias publicadas. Desde o começo já se começou a falar que eu estava dificultando operações de combate à corrupção porque as operações com muito menos intensidade apareciam, mas é óbvio que isso ia acontecer.

A Polícia Federal fez no primeiro semestre de 2019 a menor quantidade de operações desde 2014. Foram realizadas, entre janeiro e junho, 204 ações, número mais baixo que o registrado nos nove semestres anteriores.

Se as nossas indicações para ministérios, bancos oficiais e estatais não passavam por indicações partidárias, tá na cara que a fonte da corrupção não era tão abundante quanto antigamente. Isso começou a bater sobre mim como se eu tivesse contrário à Lava Jato. Isso não é verdade.

Em busca de uma base aliada, o presidente tem oferecido desde o início deste mês cargos a partidos do chamado centrão. O gesto contradiz discurso de campanha contra a “velha política”.

As grandes operações da PF no passado foram em cima de estatais ou de empreiteiros que faziam obras e arrancavam recursos via bancos oficiais, em especial o BNDES. Nós botamos um ponto final nisso. Isso foi muito caro para mim. Poderosos se levantaram contra mim. E é uma realidade, é uma verdade, eu estou lutando contra um sistema, contra o establishment. Coisas que aconteciam no Brasil praticamente não acontecem mais e, me desculpe a modéstia, em grande parte pela minha coragem de indicar um time de ministros comprometido com o futuro do Brasil.

Continua não sendo fácil, mas pode ter certeza, hoje em dia eu conto com muitos parlamentares dentro do Congresso Nacional que já comungam dessa tese, de vários partidos, exceto da extrema esquerda, porque o que eles querem no final das contas é roubar nossa liberdade. No que depender de mim, não medirei esforços para que isso não aconteça.

Dizer ao prezado ex-ministro Sergio Moro, como o senhor disse hoje em sua coletiva, por três vezes, o senhor disse que tinha uma biografia a zelar, eu digo a Vossa Senhoria que eu tenho um Brasil a zelar. Não apenas fiz um juramento nos idos de 1973, na Escola Preparatória de Cadetes do Exército de Campinas, em dar a vida pela minha pátria se preciso fosse, mais que a vida para a minha pátria eu tenho dado.

Eu tenho dado o desconforto da minha família as acusações mais torpes possíveis. Não só contra minha família, bem como aqueles que estão ao meu lado.

Falava-se em interferência minha na Polícia Federal. Oras bolas, se eu posso trocar um ministro, porque eu não posso, de acordo com a lei, trocar o diretor da PF? Eu não tenho que pedir autorização para ninguém para trocar o diretor ou qualquer um outro que esteja na pirâmide hierárquica do Poder Executivo.

Em seu discurso de demissão, Moro disse que Bolsonaro queria ter acesso a informações e relatórios confidenciais de inteligência da Polícia Federal. E elogiou a autonomia da instituição nos governos petistas.

Será que é interferir na Polícia Federal quase que exigir, implorar a Sergio Moro, que apure quem mandou matar Jair Bolsonaro? A PF de Sergio Moro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo. Cobrei muito deles aí, não interferi. Eu acho que todas as pessoas de bem no Brasil querem saber.

A Polícia Federal investigou o atentado sofrido pelo presidente e a conclusão do inquérito foi que o agressor, Adélio Bispo, atuou sozinho e motivado por discordância política.

E entendo, me desculpa, seu ex-ministro, entre meu caso e da Marielle, o meu está muito menos difícil de solucionar, afinal de contas o autor foi preso em flagrante delito, mais pessoas testemunharam, telefones foram apreendidos, três renomados advogados em menos de 24 horas estavam lá para defender o assassino.

Isso é interferir na Polícia Federal? Será que pedir à PF, quase que implorar, via ministro, para que fosse apurado o caso Marielle no caso porteiro da minha casa, 58, na Avenida Lúcio Costa, 3100. Quase que por acaso descobrimos. Pedir ao meu filho ir na portaria e filmar a secretária eletrônica.

Talvez até hoje ficaria a dúvida para todos que eu poderia estar envolvido nisso. Isso foi numa quarta-feira de março de 2018, onde entre a ligação do porteiro para a minha casa e as minhas digitais nos painéis de presença da Câmara tinha espaço de menos de uma hora. Eu não estava lá. Depois a perícia da Polícia Civil do Rio ainda chega à conclusão que aquela voz não era a voz do porteiro em questão.

Será que é interferir na Polícia Federal exigir investigação sobre porteiro? O que aconteceu com ele? Ele foi subornado, ameaçado? Ele sofre das faculdades mentais? O que aconteceu para ele falar com tanta propriedade um fato que segundo ele existiu há praticamente um ano atrás? É exigir da Polícia Federal muito, via seu ministro, para que esse porteiro fosse investigado? Com todo respeito a todas as vidas do Brasil, acredito que a vida do presidente da República tem um significado, que, afinal de contas, é o chefe de Estado. Isso é interferir na Polícia Federal, cobrar isso da sua PF?

O caso foi investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. Em novembro, o porteiro que havia citado Bolsonaro recuou e afirmou ter lançado errado na propriedade do presidente o registro de entrada de um dos acusados de ter matado a ex-vereadora Marielle Franco.

Confesso que, ao longo do tempo, como bem vos lhes disse, uma coisa é ter uma imagem e conhecer uma pessoa, outra é conviver com ela. Nunca pedi para ele para que a PF me blindasse onde quer que fosse. Quando se fala em corrupção. Eu falo da minha vida particular. Nos últimos dois anos de parlamentar gastei menos da metade que poderia gastar com a cota parlamentar, com passagem aérea, despesa de combustível, alimentação, aluguéis.

Na vida de presidente da República eu tenho três cartões corporativos. Dois são usados para despesas, as mais variadas possíveis, afinal de contas mais de cem pessoas estão na minha segurança diariamente, despesas de casa, normal.

E um terceiro cartão que eu posso sacar R$ 24 mil por mês sem prestar contas. Eu posso sacar R$ 24 mil e gastar onde bem entender, sem prestar contas. Quanto eu gastei dessa verba desde o ano passado? Zero. Isso é obrigação. Desliguei o aquecedor da piscina olímpica do Alvorada, modificamos o cardápio, mas isso não tem nada a ver, é obrigação da minha parte.

No ano passado, o presidente prometeu mostrar aos veículos de imprensa o extrato de seu cartão corporativo, mas até hoje não o fez. Além disso, o aquecimento da piscina do Palácio da Alvorada é solar, não elétrico.

Mas só para lembrar que eu tenho preocupação com a coisa pública e busco dar exemplo. Quando se fala em interferência, tenho aqui ministro meu tão importante quanto os demais, somos uma corrente, nenhum elo é mais forte que a própria corrente, o Paulo Guedes. Quando eu vi que o Inmetro, que é um órgão parecido até, logicamente, cada uma na sua função, com a PF, PRF, com a Secretaria da Cultura do Marcelo Álvaro Antônio, entre tantas outras. Eu falei: "Paulo Guedes, eu vou implodir o Inmetro, porque o que eu descobri lá nós não podemos deixar o povo sofrer dessa maneira".

Queriam trocar 1,6 milhão de tacógrafos de motoristas de viaturas, cada tacógrafo custando R$ 1.900. Quem ia pagar a conta era o motorista de caminhão, o motorista de van, ônibus. Queriam trocar todos os taxímetros do país, só meu estado, Rio de Janeiro, 40 mil taxistas iam ter que comprar um novo taxímetro. Queriam um chip em cada bomba de combustível no Brasil, onde ficamos sabendo que não teria a devida eficácia, não tem. Essa conta não foi para o povo pagar.

A obrigação do Inmetro é obviamente atestar a qualidade de muita coisa, e de preferência obviamente evitar onerar o nosso já sofrido povo brasileiro da carga de impostos que tem. Implodimos o Inmetro.

E a PF? Como publicado por vocês ontem, mas esqueçam a imprensa, ontem numa videoconferência o senhor Valeixo se dirigiu a todos os seus 27 superintendentes e disse que desde janeiro vinha falando com Moro que iria deixar a PF. Superintendentes são a prova disso.

E algumas vezes eu falei com Sergio Moro sobre a Polícia Federal. Quando eu me elegi, havia uma ideia por parte de policiais, muitos trabalhavam comigo, em torno de 60 em rodízio, eu tinha direito a isso pela legislação, e, mesmo assim, apesar de todo o trabalho da PF, não conseguiu evitar a tentativa de homicídio. Mas eu digo, foi a PF, com seu trabalho técnico, preventivo, que também foi um elo na salvação da minha vida.

A cada esquina que eu passava, eles tinham um plano da minha evacuação caso eu sofresse alguma coisa. Então, a PF, em primeiro lugar, eu devo a minha vida a esses homens, bem como a alguns policiais militares de Brasília e Rio que voluntariamente estavam lá em Juiz de Fora.

E o que eu quero e nós queremos da Polícia Federal: que ela seja usada em sua plenitude, que as suas operações sejam, no mínimo, mantidas. No que depender de mim, potencializadas, porque é com o trabalho dela que nós damos esperança, num primeiro momento, à população brasileira, ao combate à corrupção, ao combate ao crime organizado. E, como mesmo o senhor Valeixo disse que estava cansado, eu comecei a fazer gestões junto ao ministro para trocarmos o diretor-geral da Polícia Federal. Era intenção dele, como ele declarou ontem, que desde janeiro queria sair. Nós cansamos, nós não somos máquinas.

Moro disse que Valeixo não fez nenhum pedido de demissão. Desde o início do mandato, o presidente já pretendia indicar o amigo Alexandre Ramagem para a Polícia Federal. Com a resistência de Moro, Bolsonaro o nomeou para o posto de diretor-geral da Abin.

No dia de ontem, eu conversei com o senhor Sergio Moro. Só eu e ele, como na maioria das vezes em nossas conversas. Eu sempre abri o coração para ele. Eu já duvido se ele sempre abriu o coração para mim. Eu sempre disse aos meus ministros: a confiança tem que ter dupla mão. Ministro quer que eu confie nele, quer e tem razão, mas eu também quero que o ministro confie em mim.

Sempre falei para ele: "Moro, não tenho informações da Polícia Federal. Eu tenho que todo dia ter um relatório do que aconteceu, em especial nas últimas 24 horas, para poder bem decidir o futuro dessa nação". Eu nunca pedi para ele o andamento de qualquer processo, até porque a inteligência com ele perdeu espaço na Justiça. Quase que implorando informações. E assim eu sempre cobrei informações dos demais órgãos de inteligência oficiais do governo, como a Abin, que tem à frente um delegado da Polícia Federal, uma pessoa que eu conheci durante a minha campanha e tem um nome e é respeitado pelos seus companheiros.

Moro afirmou que Bolsonaro queria trocar o comando da Polícia Federal para ter acesso a relatórios da inteligência, sobretudo aqueles que citam seus filhos, como o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

E, conversando ontem com o Moro, entre muitas coisas, até que chegou na questão Valeixo, e eu falei: ‘Tá na hora de botar um ponto final nisso’. Ele tá cansado, tá fazendo como pode o seu trabalho, pessoalmente não tenho nada contra ele. Conversei poucas vezes com ele durante um ano e quatro meses, sim, poucas vezes, mas conversei com ele, e na maioria das vezes estava o Sergio Moro do lado. Então, eu falei que amanhã, dia de hoje, o Diário Oficial da União publicaria a exoneração do senhor Valeixo.

A demissão de Valeixo foi publicada com a assinatura de Moro, mesmo ele não tendo dado autorização. Com a polêmica, o governo federal publicou uma nova versão, retirando o nome do ex-ministro.

E, pelo que tudo indicava, a exoneração a pedido. Bem, ele relutou, o senhor Sergio Moro, e falou: "Mas o nome tem que ser o meu". Falei: "Vamos conversar, por que tem que ser o seu, e não o meu? Ou então vamos pegar e, já que não tem interferência política, técnica ou humana, pegar os que têm condições e fazer um sorteio".

Por que tem que ser o dele e não um possivelmente meu, ou então um de consenso entre nós dois? E eu lembrei da lei de 2014, que a indicação é minha, é prerrogativa minha, e o dia em que eu tiver de me submeter a qualquer um subordinado meu eu deixo de ser presidente da República. Jamais pecarei por omissão. Falei para ele: "Quero um delegado, que pode não ser o seu, que pode não ser o meu, mas que eu sinta, além da competência óbvia, se bem que isso é uma coisa comum entre os delegados da Polícia Federal, que eu possa interagir com ele".

O presidente nomeará para o cargo Alexandre Ramagem, que é amigo de sua família e com quem tem uma relação de intimidade.

Por que não? Eu interajo com os homens de inteligência das Forças Armadas, se preciso for, eu interajo com a Abin, interajo com qualquer um do governo.

Sempre procuro o ministro, mas, numa necessidade, eu falo diretamente com o primeiro escalão daquele ministro. Como ontem, ou anteontem, eu tinha que decidir uma coisa e tinha que ver com a Marinha. Mas, como era exclusivamente com a Marinha, eu resolvi naquele momento não falar com o ministro da Defesa, falei diretamente com o Comando da Marinha e foi resolvido de acordo com o interesse dele. Depois participei o ministro da Defesa. Isso não é quebra de hierarquia, é necessidade. Não posso abrir mão disso, assim como o ministro da Defesa pode ligar diretamente para um comandante de Batalhão sem passar pelo comandante da Brigada, se preciso for. Depois ele participa, para evitarmos que venhamos a ferir o princípio da hierarquia.

E mais, já que ele falou em algumas particularidades, mais de uma vez o senhor Sergio Moro disse pra mim: você pode trocar o Valeixo, sim, mas em novembro, depois que o senhor me indicar para o Supremo Tribunal Federal (STF). Me desculpe, mas não é por aí. Reconheço as suas qualidades em chegando lá, se um dia chegar, pode fazer um bom trabalho, mas eu não troco. E outra coisa, é desmoralizante para um presidente ouvir isso, mais ainda externar, ou não trocar, porque não foi trocado, sugerir a troca de dois superintendentes entre 27.

Mais de uma vez Bolsonaro sinalizou que indicaria Moro para o STF. Em setembro, em uma conversa reservada, ele garantiu ao ministro que a vaga que será aberta em novembro, com a aposentadoria de Celso de Mello, seria dele.

O do Rio, a questão do porteiro, a questão do meu filho 04, Renan, que agora tem 20, 21 anos de idade. Quando, no clamor da questão do porteiro, do caso Adélio, que os dois ex-policiais teriam ido falar comigo, também apareceu que o meu filho 04 teria namorado a filha desse ex-sargento. Eu comecei a correr atrás. Primeiro eu chamei meu filho: "Abre o jogo". "Pai, eu saí com metade do condomínio, nem lembro quem é essa menina, se é que eu estive com ela". Hoje a vida é assim. A intenção de dizer que o meu filho namorava a filha do ex-sargento era que nós tínhamos um relacionamento familiar.

O suposto namoro é irrelevante para a apuração sobre a morte da vereadora Marielle Franco. Não há notícia sobre outro inquérito em que o relacionamento tenha relevância criminal.

Eu não me lembro dele, pode ser até que tenha tirado foto com ele. Durante pré-campanha e campanha era comum eu tirar em média 500 fotografias por dia, porque essa era a minha imprensa. E daí eu fiz um pedido para a Polícia Federal, quase como um “por favor, cheguem em Mossoró e interrogue o ex-sargento”.

Foram lá, a PF fez até o trabalho, interrogou e está comigo a cópia do interrogatório, onde ele diz simplesmente o seguinte: "A minha filha nunca namorou a filha do presidente Jair Bolsonaro, porque a minha filha sempre morou nos Estados Unidos". Mas eu é que tenho que correr atrás disso? Ou é o ministro, ou é a Polícia Federal que tem que se interessar? Não é para me blindar, porque eu não estou incurso em nenhum crime.

A mídia, outras instituições, já me botaram de cabeça para baixo, chacoalharam tudo, levantaram até que, com cinco anos de idade, revista Época, eu chamava uma mulher de gorda em Eldorado Paulista. Descobriram, eu nem sabia, que a avó da minha esposa já foi presa por três anos por tráfico de drogas. Confesso que não sabia, e, se soubesse, teria casado com a senhora Michelle assim mesmo.

Fiquei sabendo através de vocês também que a mãe da senhora Michelle cometeu crime de falsidade ideológica. Na sua inocência, em vez de fazer uma cirurgia plástica para ficar mais jovem, né, mais bonita, ela resolveu fazer uma cirurgia na certidão de nascimento, diminuindo dez anos da sua idade. Esse foi o crime dela. Se coloca em público isso daí, para escrotizar, para dizer que ela não tem caráter.

O caso Queiroz, eu conheço o Queiroz desde 1984, no 8º Grupo de Campanha Paraquedista, foi para a Polícia Militar, depois de um tempo fizemos amizade. Veio trabalhar comigo e com meu filho. O que porventura ele faz ele responde pelos seus atos. Não foi por uma, foi por duas vezes que o Queiroz teve dívida comigo, me pagou com cheques. E não veio para minha conta esse cheque porque simplesmente eu deixei no Rio de Janeiro. Estaria na minha conta.

E não foram R$ 24 mil. Foi R$ 40 mil. Desde o primeiro momento. Não é porque uma pessoa porventura faz algo de errado, está do nosso lado, você tem que ser responsabilizado e o tempo todo ser cobrado por isso.

Nunca pediu para blindar ninguém da minha família. Jamais faria isso. Agora, eu lamento que aquela pessoa que mais tinha que defender dentro de uma legalidade não faz. Teve um clima, sim, pesado com o senhor ministro na última reunião de ministros, onde eu cobrei dele na frente de todos os ministros que ele tomasse uma posição sobre a prisão e algemas usada contra mulheres na praia.

Mulheres em praça pública como de Araraquara, um pobre, um humilde trabalhador do comércio do Piauí, entre tantos outros, que ele tinha que mostrar sua cara. Ele tem amparo na lei do abuso de autoridade. Essa lei que, por ser lei, não tem que ser questionada e discutida, tem que ser cumprida.

Quem é contra ela que apresente uma Adin junto ao órgão competente para que ele ajuíze junto ao Supremo Tribunal Federal. Resposta dele foi o silêncio. Boas matérias, ele aparece. Mas, se omite.

A minha vida, as minhas ações, muitas vezes elas são num arrebento de explosão. Eu não posso admitir cercear o direito de ir e vir de quem quer que seja. E a lei que fala sobre isso no caso de pandemias é alguém comprovadamente infectado.

A decisão dessas medidas coercitivas cabe aos respectivos governadores e prefeitos. Assim decidiu o Supremo Tribunal Federal, e, uma vez decidido, não cabe a mim questionar mais. Prefeitos alguns, alguns governadores, em cima disso estão fazendo, cometendo tremendos absurdos. E o governo federal tem que se posicionar, tem que pressionar o Supremo Tribunal Federal, entrar com ações. E quem tem que fazer isso? O presidente ou o ministro da pasta responsável? Isso incomodou ele.

É um ministro lamentavelmente desarmamentista. Dificuldades enormes com decretos para facilitar e para os CACs ou para aqueles que têm uma arma a compra de armamento, de munição. Aquilo que eu defendi durante a campanha e pré-campanha os ministros têm obrigação de estar junto comigo. Caso contrário, não estão no governo certo.

Bolsonaro fazia referência à derrota que sofreu do Congresso em seu projeto de flexibilização do porte e posse de armas. Contrariando a intenção inicial do presidente, o Legislativo regulamentou o uso de armas para colecionadores, atiradores e caçadores, mas barrou para outras categorias, como guardas municipais e outros agentes de segurança.

Não tenho mágoa do senhor Sergio Moro. Hoje pela manhã, eu acredito que sete ou oito deputados ou meia dúzia tomaram café comigo. Estão à vontade se quiserem falar ou não. Eu lhes disse: hoje vocês vão conhecer quem realmente não me quer na cadeira presidencial. Esse alguém não está no Poder Judiciário e nem está no Parlamento brasileiro. Não lhes disse o nome. Falei: vocês vão conhecê-lo às 11 horas da manhã.

Repetindo a vocês: veio com a cunha. Se ele quer ter independência como eu tenho, autoridade, ou se quisesse poderia ser candidato em 2018. Agora, eu não posso conviver, fica difícil a convivência com uma pessoa que pensa bastante diferente de você.

Em novembro de 2018, ao anunciar Moro no “superministério da Justiça”, Bolsonaro prometeu não interferir no combate à corrupção mesmo “que viesse a mexer com alguém da minha família no futuro”.

Um fato que foi noticiado muito no início do ano passado. Ele não nomeou a senhora Ilona Szabó como suplente de um conselho, e nós sabemos que essa senhora, ou senhorita, tem publicações, as mais variadas possíveis, defendendo o aborto, ideologia de gênero, entre tantas outras coisas que são em completo desacordo com as bandeiras que eu defendi, que os cristãos brasileiros também defendiam e até os ateus defendiam também. Não foi fácil conseguir exoneração dessa pessoa porque o tempo todo "você me deu carta branca e porteira fechada", mas quase sempre se lembrava do poder de veto.

Moro, na verdade, demitiu Ilona Szabó a pedido do próprio Bolsonaro, que justificou as críticas ao fato de a cientista política ter posições “incompatíveis com o governo”, como a legalização do aborto.

Torci muito para dar certo, muito. Mas, infelizmente, ou felizmente no dia de hoje, após nossa conversa no dia de ontem, até foi sinalizado que ele compareceria à Presidência e seria bem recebido como foi o senhor Mandetta há poucos dias para comunicar seu afastamento ou para tentar a última cartada. "Tem mais esses nomes aqui para o DG. O senhor concorda com alguns desses ou não?". E daí tomar uma providência. Eu sempre fui do diálogo. Vocês não vão encontrar nenhum ministro meu que vai ver que o impus qualquer coisa para ele. Ele resolveu marcar uma coletiva e fez acusações infundadas que eu lamento.

Na noite anterior ao pedido de demissão, Moro procurou Bolsonaro, mas o presidente não quis falar com o ministro. Na manhã seguinte, os ministros da Casa Civil e da Economia fizeram um último esforço de diálogo, mas Bolsonaro foi irredutível.

Para muitos vai deslustrar a sua tão defendida biografia. Nós que estamos na linha de frente, nós, ministros, tem algo mais importante que a nossa biografia. É o bem-estar do seu povo, é o futuro desta nação. Vamos levar, no sentido figurado, muito tiro na cara, mas vamos cumprir a missão.

Aqui tem ministros que apanha todo dia, como Abraham Weintraub, por exemplo. Outros apanham também, mas este é um exemplo. Luta contra uma doutrinação de décadas, onde vem demonstrando que a educação do Brasil nunca esteve tão mal. Não só as provas do Pisa bem demonstram que estamos em várias matérias em último na América do Sul, em último no mundo. Isso tem que ser mudado.

Em um ano à frente do MEC, Weintraub enfrentou investigações no Conselho de Ética da Presidência, processos judiciais e precisou ir ao Congresso para se explicar por ataques a adversários do governo, enquanto o ministério enfrenta uma situação próxima à de paralisia.

Ele tenta e vem demonstrando com muito trabalho que não vale, senhores pais, senhoras mães, que seu filho tem um pedaço de papel escrito "diploma". Ele tem que exercer aquele ofício. O diploma hoje em dia passou a ser apenas uma figura decorativa para alunos. Ele tem que ser um bom profissional, e não um bom militante. Três páginas bem curtas apenas aqui eu vou ler, bom, e dar o encerramento a essa coletiva.

Meu compromisso é com o Brasil e com a democracia. Sempre dei plena liberdade aos meus ministros, sem abrir mão do meu poder de veto e da minha autoridade como presidente da República. Sempre mantive diálogos republicanos com todos os meus ministros. Temos discordâncias e convergências, mas em qualquer situação mantive o respeito à opinião de todos, sempre fui leal a eles.

Ao longo do mandato, o presidente acumula episódios em que contrariou a opinião de ministros e impôs a sua vontade. Entrou em atrito com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta por divergir da necessidade de isolamento social e das orientações internacionais de combate ao coronavírus. Também barrou a tentativa do Ministério da Economia de recriar a CPMF, como queria o ministro Paulo Guedes, para ajudar a recompor a receita da União.

Ontem, mais uma vez conversamos com o senhor ministro Sergio Moro sobre a substituição na Polícia Federal. Esperava, em conjunto com o senhor ministro, definir um nome para dirigir a instituição, ainda que pela lei essa seja uma prerrogativa exclusiva do presidente da República. Estou decepcionado e surpreso com o seu comportamento. Não se dignou a me procurar e preferiu uma coletiva de imprensa para comunicar sua decisão. Meu compromisso é com a verdade, sem distorções.

Não são verdadeiras as insinuações de que eu desejaria saber sobre investigações em andamento. Nos quase 16 meses em que esteve à frente do Ministério da Justiça, o senhor Sergio Moro sabe que jamais lhe procurei para interferir nas investigações que estavam sendo realizadas, a não ser aquelas, não via interferência, mas quase como uma súplica sobre o Adélio, o porteiro e meu filho 04.

Sobre a exoneração do doutor Valeixo, diretor geral da PF, pela lei 1.397 de 2014 é prerrogativa do presidente da República a nomeação e exoneração do diretor-geral. Bem como de vários outros cargos da administração direta. A exoneração ocorreu após uma conversa minha com o ministro da Justiça, pela manhã de ontem. À noite, eu e o doutor Valeixo conversamos por telefone, e ele concordou com a exoneração a pedido. Desculpe, senhor ministro. O senhor não vai me chamar de mentiroso. Não existe uma acusação mais grave para um homem como eu, militar, cristão e presidente da República, do que ser acusado disso.

Em seu discurso de despedida, Moro negou ser “totalmente verdadeiro” que Valeixo quisesse sair da Polícia Federal. O ex-ministro afirmou ainda não ter assinado o decreto inicial que dispunha sobre a exoneração do ex-diretor geral da PF —posteriormente, Bolsonaro retirou o nome de Moro da assinatura da medida de exoneração de Valeixo.

Essa foi a minha conversa com doutor Valeixo. E, mais ainda, não só a imprensa publicou no dia de ontem e de hoje, bem como, entre aspas, o doutor Valeixo, em contato com a superintendência do Brasil, comunicando que estava cansado, que desde janeiro queria sair. Então não foi uma demissão que causasse surpresa a quem quer que fosse. A Polícia Federal é uma instituição de Estado. Ela deve se conduzir de acordo com a Constituição Federal e as leis do país, não importa quem as conduza.

Não abro mão disso. Não existe possibilidade de interferência na PF. Sua própria estrutura e seus profissionais garantem autonomia de suas investigações. Essa autonomia é inerente à instituição e independente de governos. Não posso aceitar minha autoridade confrontada por qualquer ministro. Assim como respeito a todos, espero o mesmo comportamento. Confiança é uma via de mão dupla. Continuarei fiel a todos os brasileiros, seguirei no combate à corrupção, organizações criminosas e no trabalho para redução da criminalidade.

Apesar de negar ingerência na PF, Bolsonaro pretende nomear o diretor da Abin, Alexandre Ramagem, amigo de seu filho 02, Carlos Bolsonaro. Neste domingo, questionado sobre a indicação, o presidente respondeu: "E daí?". A intenção de Bolsonaro é colocar alguém de sua confiança para que possa fazer pedidos e repassar ordens. Vale lembrar que investigação da PF apontou Carlos como um dos articuladores de um esquema criminoso de divulgação de fake news.

O governo continua. O governo não pode perder a sua autoridade por questões pessoais de alguém que se antecipa a projetos outros. Travo o bom combate. A minha preocupação é entregar o Brasil, para quem vier me suceder no futuro, bem melhor do que recebi, em janeiro do ano passado. Confio nos meus ministros, nos servidores públicos que têm nos ajudado a vencer estes obstáculos.

O Brasil é maior do que qualquer um de nós. Esse é o nosso compromisso, esse é nosso dever de servir a pátria. A pátria vai ter de cada um de nós o seu empenho, o seu sacrifício e, se possível, se for necessário, o teu sangue, para defender a democracia e liberdade. Meu muito obrigado a todos senhores.

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