Família, adversários e fake news; entenda obsessão de Bolsonaro pela PF no RJ e em PE

Em despedida, Moro disse que o presidente queria trocar superintendentes da Polícia Federal no Rio e em Pernambuco

Brasília

Em seu pronunciamento de despedida do Ministério da Justiça, Sergio Moro mencionou que, além do diretor-geral, o presidente Jair Bolsonaro também queria trocar os superintendentes da Polícia Federal no Rio de Janeiro, esse pela segunda vez, e em Pernambuco.

O ex-juiz da Lava Jato não expôs quais seriam os motivos do interesse do presidente, mas afirmou que não lhe foram apresentadas razões ou causas aceitáveis para esse tipo de substituição.

A preocupação com investigações sobre sua família, desconhecimento sobre processos, síndrome de perseguição, inimigos políticos e fake news são alguns dos principais pontos elencados por pessoas ouvidas pela Folha para tentar desvendar o que há no Rio e em Pernambuco.

Entenda, a seguir, o que há em jogo pela Polícia Federal nesses dois estados.

Reduto político

Capitão reformado do Exército e defensor de pautas das forças de segurança desde o início da vida política, Bolsonaro sempre manteve contato com agentes e delegados das polícias. O filho Eduardo virou escrivão da PF, o que também estreitou laços. No Rio, onde a família mora, a aproximação foi ainda maior.

A candidatura a presidente levou ao auge das relações principalmente com integrantes da Polícia Federal, que faziam sua segurança diária, equipe que chegou a ser coordenada por Alexandre Ramagem a partir do fim de outubro de 2018 —cuja nomeação para a diretoria-geral da PF, feita pelo presidente, foi suspensa pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. Bolsonaro desistiu da indicação após revés no tribunal.

Segundo relatos, bastidores da Superintendência da PF no Rio, intrigas entre grupos e outras ocorrências passaram a chegar rapidamente a Bolsonaro desde a campanha.

Depois, as relações foram mantidas, e os assuntos viraram mais importantes, principalmente após vir à tona a investigação de seu filho Flávio e também pelo fato de seu mandato ter começado no Planalto.

A presença ou ausência do chefe da PF no edifício do órgão era motivo de perguntas por parte do presidente, por exemplo. Funções de delagados específicos também viravam alvo de reclamações de Bolsonaro.

Investigação da 'rachadinha'

A apuração no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio começou após um relatório federal apontar movimentação de R$ 1,2 milhão na conta do ex-assessor Fabrício Queiroz, de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. Queiroz é um policial militar aposentado e antigo amigo de Bolsonaro.

A suspeita do MP do Rio é a de que o dinheiro seja de um esquema de “rachadinha” —quando funcionários são coagidos a devolver parte de seus salários aos deputados.

Esse caso, especificamente, não está com a PF, mas o órgão tocava na época investigações envolvendo personagens em comum. Aliados do presidente, no entanto, divulgam por diversas vezes que a polícia possui uma série de informações deste assunto, guardadas em sigilo.

Flávio é investigado desde janeiro de 2018 sob a suspeita de recolher parte do salário de seus empregados na Assembleia de 2007 a 2018. Os crimes em apuração são peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e organização criminosa.​

A apuração contra o senador começou após relatório federal indicar movimentação financeira atípica de Queiroz, então assessor e espécie de chefe de gabinete de Flávio.

Além do volume movimentado, de R$ 1,2 milhão em um ano, chamou a atenção a forma com que as operações se davam: depósitos e saques em dinheiro vivo em datas próximas do pagamento de servidores da Assembleia.

Queiroz, que hoje mora em São Paulo para o tratamento de um câncer, afirmou que recebia parte dos valores dos salários dos colegas de gabinete. Ele diz que usava esse dinheiro para remunerar assessores informais de Flávio, sem conhecimento do então deputado estadual. A sua defesa, contudo, nunca apontou os beneficiários finais dos valores.

Queiroz era amigo do ex-policial militar e miliciano Adriano da Nóbrega, chamado de herói pelo presidente Bolsonaro e ligado ao gabinete de seu filho Flávio. Adriano esteve foragido por mais de um ano até março passado, quando foi morto durante uma operação policial na Bahia.

De 2007 até Flávio se mudar para o Senado, Adriano teve parentes nomeados no antigo gabinete na Assembleia. Primeiro foi a então mulher e, em 2016, a mãe. Queiroz disse ser o responsável pela indicação das duas.

Declaração de bens de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro era alvo de um procedimento sobre falsidade ideológica eleitoral por suposta ocultação de patrimônio na declaração de bens à Justiça eleitoral em 2014. A PF investigava se ele teria declarado um imóvel pelo valor abaixo do real.

Ao concluir o inquérito, no início deste ano, o delegado Erick Blatt apontou que não havia indícios do crime eleitoral e também de lavagem de dinheiro. Segundo pessoas que acompanharam o caso, havia uma expectativa que ele aprofundasse e esgostasse as possibilidades para terminar sua apuração.

Como a investigação havia se ampliado desde quando ela começou, a avaliação interna na polícia é a de que havia possibilidade legal de que ele avançasse em outros pontos, o que ele não fez. A conclusão de Blatt não afetou a apuração sobre "rachadinha”, que está no Ministério Público do Rio.

Queiroz é citado

A Superintendência da PF no Rio tem aberto inquérito com base em relatório federal de inteligência financeira em que o nome Queiroz é mencionado. Ele não é alvo da apuração, mas seu antigo advogado, Paulo Klein, protocolou pedido para ter acesso aos autos em setembro do ano passado.

Funcionários fantasma Carlos Bolsonaro

O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu em setembro do ano passado dois procedimentos para investigar o vereador Carlos Bolsonaro (PSC) pela suspeita do uso de funcionários fantasmas em seu gabinete e da prática de "rachadinha" —quando o servidor devolve parte do salário para o parlamentar. A informação sobre a abertura dos procedimentos foi divulgada pela revista Época e confirmada pela Folha.

Da mesma maneira que ocorre com outros casos, aliados de Bolsonaro também por vezes afirmam que a investigação está com a Polícia Federal.

Episódio Hélio Negão

A primeira crise que atingiu a PF teve como um dos panos de fundo uma investigação de crimes previdenciários que supostamente envolvia um dos grandes aliados de Bolsonaro, o deputado federal Hélio Negão (PSL-RJ).

Como mostrou a Folha, um despacho de um delegado responsável pelo inquérito causou confusão e virou alvo de apuração, a pedido, na época, de Sergio Moro, pressionado pelo presidente.

O documento recuperava casos de anos anteriores para levantar a possibilidade de um homem citado no inquérito ser, na verdade, o parlamentar. Em seguida, no entanto, dizia que não era, mas mandara o caso para os órgãos de inteligência e também decretara sigilo —dois procedimentos considerados fora do padrão para o tipo de investigação.

A desconfiança da cúpula da polícia era que se tratava de uma fraude, com o objetivo de gerar desconfiança na PF do Rio.

Segundo integrantes da polícia, esse não foi o único, mas ajudou a derrubar Ricardo Saadi, demissão anunciada por Bolsonaro em entrevista na frente do Palácio da Alvorada, em Brasília, em agosto do ano passado.

Antes de vir à tona, o presidente chegou a dizer à imprensa que estavam tentando prejudicá-lo, mostrando ter informações de bastidores do que ocorria no órgão.

Depoimento do porteiro

Também está com a PF do Rio investigação sobre denunciação caluniosa contra Bolsonaro envolvendo o porteiro do condomínio em que o presidente morava.

O funcionário afirmou, em depoimento no inquérito que apura as mortes da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes, que foi o hoje presidente (à época deputado) quem autorizou a entrada de um dos acusados pelo assassinato a entrar no condomínio para encontrar o PM aposentado Ronnie Lessa, também réu na ação penal de homicídio, no dia do crime.

Gravação do sistema de interfone do condomínio e a presença registrada de Bolsonaro na Câmara dos Deputados naquele dia contradisseram o porteiro. Confrontado com as informações, ele afirmou à PF ter se equivocado no depoimento para a Polícia Civil. O inquérito ainda não foi concluído.

Em fevereiro deste ano foi concluído um laudo do ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli), da Polícia Civil do Rio, realizado em cinco HDs apreendidos no condomínio, onde moravam tanto Bolsonaro como o policial militar aposentado Ronnie Lessa, um dos acusados e preso pelo homicídio. O laudo aponta que o porteiro que interfonou para Lessa não é o mesmo que prestou depoimento apontando o envolvimento de Bolsonaro.

Governo Witzel

No episódio envolvendo o porteiro, o presidente chegou a insinuar que o ocorrido era parte de um plano do governador Wilson Witzel (PSC-RJ). Antes aliados, os dois viraram inimigos políticos desde o final do ano passado.

A partir disso, nos bastidores, Bolsonaro reclamava de que o adversário não virava alvo de investigações. Seus contatos na PF também inflamavam a irritação, dizendo que tipo de apuração poderia vir a ser feita para atender os anseios do presidente e espalhavam que os trabalhos não andavam como deveriam.

Política em Pernambuco

A delegada Carla Patrícia Cintra Barros da Cunha tomou posse como chefe da PF no dia 13 de dezembro do ano passado. Sua indicação é um dos raros casos de ruptura de forte tradição da polícia: comandar uma superintendência no estado em que nasceu como primeira experiência de chefia regional.

Carla começou como estagiária, virou escrivã da PF e depois assumiu chefias diversas, como a Executiva e de Combate ao Crime Organizado. Antes de tomar posse, no entanto, ela estava fora do órgão, em um cargo de confiança do governo Paulo Câmara (PSB).

O governador participou da cerimônia e tirou fotos. O fato e as imagens deste dia são usados por bolsonaristas em redes sociais para acusar a PF de não investigar a gestão estadual.

Câmara, que é da oposição, e Bolsonaro já tiveram desavenças públicas diversas vezes desde o início do governo. Para policiais federais, o interesse pela cadeira da chefia regional faz com que adversários usem a questão política para convencer o presidente de que uma substituição é necessária.

Caso da família Bezerra

Dias antes de Carla assumir, a PF realizou uma grande operação contra desvios de recursos públicos de obras do Nordeste. O senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) e seu filho, o deputado Fernando Coelho Filho (DEM-PE) foram alvos de busca e apreensão.

Bezerra já era na época líder do governo Jair Bolsonaro no Senado. A PF conseguiu autorização do STF para entrar no Congresso e vasculhar os gabinetes dos dois parlamentares.

Os celulares de ambos foram recolhidos na operação. Eles deram as senhas.

Na época, comentava-se que os dois faziam parte de grupos com demais deputados e senadores, o que causou apreensão em um primeiro momento. Falava-se no Congresso também que Bezerra trocava mensagens com frequência com os filhos do presidente.

Tempos depois, no entanto, reportagem da Veja revelou materiais colhidos na busca fizeram a PF passar a suspeitar de algum vazamento da ação. A perícia encontrou uma nota oficial enviada pelo advogado de Bezerra na noite anterior ao mandado ser cumprido —a defesa nega irregularidade e diz que sempre faz isso para “caso ocorra alguma coisa”.

A investigação está nas mãos do grupo de delegados que cuida de inquéritos que estão no Supremo Tribunal Federal. O início do caso, porém, foi em Pernambuco, com uma delação premiada de um empresário no meio de outra apuração, envolvendo o ex-governador Eduardo Campos, que morreu em um acidente de avião.

Laranjas

Pernambuco é um dos focos das candidaturas de laranjas do PSL, partido pelo qual o presidente Bolsonaro foi eleito.

Em novembro passado, a Polícia Federal indiciou o deputado federal Luciano Bivar (PSL-PE) e três mulheres de Pernambuco por suposta participação em esquema de candidaturas de laranjas para desviar verba pública do partido.

Os quatro foram indiciados sob suspeita dos crimes de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa —com penas de 5, 6 e 3 anos de prisão, respectivamente.

A investigação sobre as candidaturas de laranjas da legenda teve início depois de a Folha revelar a existência do esquema em Pernambuco, em uma série de reportagens publicadas desde fevereiro. O jornal também mostrou que a mesma articulação ocorreu em Minas Gerais.

A PF apurou se o partido cometeu irregularidades na campanha de 2018 ao apresentar candidaturas de mulheres apenas para cumprir a cota mínima obrigatória de 30%.

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