Huck destoa de outros presidenciáveis e silencia sobre polêmicas do coronavírus

Apresentador se mantém alheio a declarações de Bolsonaro e evita criticar sócio

São Paulo

Na última segunda-feira (30), dia em que pré-candidatos de esquerda divulgaram uma carta pedindo a renúncia de Jair Bolsonaro e o tucano João Doria conclamou a população a não seguir as orientações do presidente, o apresentador Luciano Huck silenciava sobre o tiroteio político envolvendo o combate ao coronavírus.

Na véspera, havia tuitado: "A solidariedade deve ser mais contagiosa que o vírus".

O apresentador de TV Luciano Huck, durante participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro - World Economic Forum - 23.jan.2020/Ciaran McCrickard

O apresentador de TV e virtual candidato à sucessão de Bolsonaro em 2022 tem se mantido alheio aos debates políticos, cuja temperatura cresce junto com a curva de mortos e contaminados pelo Covid-19.

Evita manifestar-se diretamente sobre as polêmicas declarações e ações de Bolsonaro. Não contestou a avaliação do presidente de que haveria uma histeria exagerada da população, tampouco a caracterização da doença como uma "gripezinha".

Huck também evitou menção aos panelaços, ao bate-boca entre presidente e governadores, à visita de Bolsonaro a cidades-satélite de Brasília e à sua defesa do fim do isolamento social para todos.

Também optou por não repreender seu sócio Junior Durski, da rede de restaurantes Madero, que em vídeo afirmou que o Brasil não pode parar por causa de 5.000 a 7.000 pessoas que morrerão durante a pandemia.

"Ao longo da vida tive um número expressivo de sócios. Não seria razoável imaginar que todos pensassem da mesma forma sobre tudo", contemporizou o apresentador.

Seguindo o que tem sido seu padrão de comunicação já há algum tempo, Huck vem procurando tratar da crise pelo ângulo da solidariedade e da união de todos os brasileiros neste momento de polarização extremada.

Nas redes sociais e em artigos como o que publicou na Folha nesta quarta (1), tem dado exemplos de como ajudar as pessoas e como enfrentar a crise em favelas. Em 17 de março, Huck escreveu que "ideologia não combate vírus". "É necessária uma articulação dos diversos níveis de governo, Poderes e sociedade. Isso só acontece com diálogo", pediu.

Sobre o debate entre manter a economia funcionando e salvar vidas, o apresentador também tem sido genérico. "A fome está chegando antes da doença. Não é hora de guerra política. Isso não é um tuíte com qualquer verniz ideológico. É fato", escreveu, na rede social, em 26 de março.

Quando mais se aproximou de alguma crítica a Bolsonaro, foi para pedir pressa do governo na distribuição de dinheiro para os afetados pela crise. De novo, sem citar o presidente. "O governo tem de mostrar agora sua capacidade de execução. É urgente distribuir cestas básicas e transferir dinheiro para o bolso de quem precisa. Tudo isso para ontem", escreveu.

Huck deixa claro que acredita que o melhor caminho neste momento para combater o vírus é o isolamento social total, como vem acontecendo.

Mas também não se manifestou diretamente sobre a defesa feita por Bolsonaro, inclusive em pronunciamento de TV, do chamado isolamento vertical, apenas para idosos e pessoas vulneráveis.

"O isolamento social nessa pandemia não é uma opção que está para jogo. É uma necessidade fundamentada na orientação científica mais séria e rigorosa", escreveu, em 24 de março.

A cautela de Huck é em parte influenciada pelo calendário e por sua ligação com a Rede Globo.

Caso realmente decida se candidatar a presidente, ele deve postergar ao máximo a entrada na arena política, para algum momento entre o final de 2021 e o início de 2022.

Hoje, a legenda mais provável para abrigá-lo é o Cidadania, antigo PPS. "O Luciano está certo. Ele não é dirigente político para estar discutindo a política do dia a dia. Isso nós, dirigentes políticos, fazemos por ele", afirma o presidente do Cidadania, Roberto Freire, um dos principais interlocutores do apresentador na política.

Segundo Freire, Huck está atuando como influente cidadão que é. "Está indo muito bem. Está tendo a capacidade de mostrar como ajudar e se solidarizar", afirmou.

Enquanto não deslancha sua carreira política, Huck vem se cercando de pessoas de confiança que seriam o embrião de uma futura campanha e, eventualmente, governo.

Além de Freire, são aliados próximos o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung. Também se aconselha muito com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"Ele [Huck] é um comunicador, está usando o seu talento pessoal para levar bons recados para a população, para a turma das favelas. Está militando o tempo inteiro dentro da visão dele, que é contribuir com boas causas, o bom debate, ajudar a formar lideranças", afirma Hartung. "Ele, como eu, entende que não é hora de fazer disputa política."

No próximo ano e meio pelo menos, Huck deve seguir tentando se equilibrar entre ser visto como candidato e parecer que não é.

A visibilidade que a Rede Globo lhe dá, em um programa em que mistura histórias de superação com assistencialismo, é um ativo precioso que nenhum potencial competidor tem.

Por meio de sua assessoria, Huck indicou à Folha que não pretende mudar de rota. "Não é hora de disputa política, é hora de unir, não separar. E nem de jogos de poder, botando vidas em risco. Tal atitude, além de improdutiva, seria imperdoável. Desumana", afirmou.

Segundo Huck, seu papel neste momento é de ser um cidadão ativo, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde, já que, para ele, a solidariedade terá "um enorme papel, diante da morosidade e pouca capacidade de execução do governo central".

O apresentador também diz que pretende continuar não participando da troca de farpas políticas. "Sobre quem disse o quê, se concordo ou não, vou manter minha narrativa ancorada na ciência", afirma.

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