Descrição de chapéu Coronavírus

Ignorar isolamento é nova obsessão de Bolsonaro; relembre outras desde o início do governo

Ao encontrar-se com apoiadores, presidente vai contra a política que defende: o isolamento do grupo de risco

São Paulo

Contrariando a Organização Mundial da Saúde (OMS), os principais infectologistas brasileiros, o seu ministro da Saúde e governadores, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem defendido o fim do isolamento social em meio à pandemia da Covid-19.

Além de falar, Bolsonaro age: no último domingo (5), ele se reuniu com grupos religiosos que estavam em frente ao Palácio da Alvorada para o dia do jejum nacional convocado por ele mesmo. O presidente abraçou, apertou as mãos e posou para fotos ao lado dos simpatizantes.

Ao encontrar-se com apoiadores, Bolsonaro vai contra até a política que defende: o isolamento apenas de pessoas vulneráveis ao vírus. Com 65 anos, o presidente está no chamado grupo de risco.

A postura na atual crise se soma a outras prioridades do presidente com pouco respaldo científico ou técnico, mas que foram insistentemente citadas até em seus 15 meses de governo.

Confira, abaixo, algumas delas:

Presidente Jair Bolsonaro em encontro com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília - Adriano Machado - 5.abr.2020/Reuters

Atropelar orientações de saúde

Em uma de suas primeiras declarações sobre a Covid-19, no início de março, Bolsonaro afirmou que o "poder de destruição" do vírus estava superdimensionado. Assim seguiram as suas falas seguintes sobre a pandemia, com raras exceções.

Em pronunciamento oficial em rádio e televisão do dia 24 de março, disse que "devemos, sim, voltar à normalidade". Contra as medidas de isolamento social, Bolsonaro já entrou em confronto com seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, governadores e antigos aliados.

O presidente vem defendendo o que ele chama de "isolamento vertical", que se aplicaria apenas a pessoas em grupo de risco, o seu caso. Ele se reuniu, neste domingo, com religiosos em frente ao Palácio da Alvorada em uma roda de orações.

Durante protesto dos seus seguidores, no dia 15 de março, Bolsonaro, que ainda faria um teste para saber se estava infectado, foi até grupo que se aglomerava em frente ao Palácio da Alvorada, e, por uma grade, esticou o braço para tocar manifestantes e manusear o celular dos presentes e fazer selfies.

No dia 25 de março, Bolsonaro afirmou, pelo Twitter, que havia atualizado o decreto 10.282 de 2020 que diz quais serviços podem ser impactados por decisões locais relacionadas à pandemia do coronavírus.

Ele incluíra as casas lotéricas na lista de serviços essenciais que não podem ser fechados, o que foi revogado pela Justiça Federal do Rio de Janeiro. Ele também foi proibido de adotar medidas contrárias ao isolamento social.

Depois de quatro dias, voltou a falar de decreto: "Eu estou com vontade, não sei se eu vou fazer, de baixar um decreto amanhã: toda e qualquer profissão legalmente existente ou aquela que é voltada para a informalidade, se for necessária para levar o sustento para os seus filhos (...) vai poder trabalhar".

Hidroxicloroquina

Na crise de saúde, Bolsonaro se agarrou à hidroxicloroquina, que ainda está em fase de teste para tratamento da Covid-19.

No dia 21 de março, o presidente anunciou que o Exército ampliaria a produção da substância. Na época, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) havia informado não recomendar sua utilização em pacientes infectados pelo novo coronavírus.

Naquele dia, ele também afirmou que não acredita que o sistema de saúde colapsará. "Estamos alargando a curva de infecção e eu estou confiando no remédio que está sendo testado aqui e fora do Brasil."

Depois de quatro dias, Bolsonaro escreveu, em sua conta no Twitter, que os remédios têm se mostrado eficazes e que "nos próximos dias, tais resultados poderão ser apresentados ao público, trazendo o necessário ambiente de tranquilidade e serenidade ao Brasil e ao mundo".

E assim seguiu, em outros episódios. Em reunião do G20, Bolsonaro deixou à mostra remédio feito com hidroxicloroquina. Em giro por Brasília, três dias depois, disse que “graças a Deus o remédio está aí”.

Neste sábado (4), publicou em redes socias que, em contato com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, solicitou apoio "na continuidade do fornecimento de insumos farmacêuticos para a produção da hidroxicloroquina".

CNH e radares

Em meados do ano passado, Bolsonaro encaminhou ao Congresso Nacional projeto de lei que dobra o limite de pontuação da CNH (Carteira Nacional de Habilitação), estende a validade da carteira de motorista e elimina multa para condutores que transportarem crianças fora de cadeirinhas de retenção.

A ação gerou grande alvoroço. Ao reagir às críticas, Bolsonaro manteve a sua posição: "Está mexendo com o seu filho. Precisa estar na lei algo para o seu filho ser protegido? Nem precisava de lei. Quem tem responsabilidade sabe disso, vai lá e bota a cadeirinha atrás e leva o bebê ali atrás."

Não foi a primeira vez que o presidente depositou confiança no senso de responsabilidade do motorista.

Em transmissão ao vivo, afirmou que não existe local de risco nas estradas. "Ninguém é otário de ter uma curva na frente, uma ribanceira, o cara entrar a 80 km/h, 90 km/h, a 100 km/h. Não é otário, não faz isso aí."

Também em 2019, aFolha revelou que o presidente, três de seus filhos e sua mulher, Michelle, receberam ao menos 44 multas de trânsito nos últimos cinco anos, segundo registros do Detran-RJ (Departamento de Trânsito do Rio de Janeiro).

Sexualidade

No Carnaval de 2019, após ser alvo de protestos de foliões, Bolsonaro publicou em sua conta do Twitter um vídeo em que um homem enfia o dedo no próprio ânus e recebe um jato de urina na nuca.

No dia seguinte, após repercussão negativa, fez uma nova postagem, dessa vez perguntando: “O que é golden shower?”, nome da prática que divulgou.

Em maio de 2019, Bolsonaro perguntou a um homem de feições asiáticas que o abordou no aeroporto de Manaus: “Tudo pequenininho aí?”, entre sorrisos dos assessores. Isso foi um mês depois de afirmar, em uma entrevista ao Silvio Santos que está "na ativa, sem aditivos”, referindo-se a medicamentos contra impotência sexual.

Bananas do Vale do Ribeira

Barrar as bananas do Equador, na contramão das medidas liberais do ministro Paulo Guedes (Economia), parece ter sido outra prioridade de Bolsonaro.

Em transmissão ao vivo em uma rede social, em março do ano passado, ele disse que iria "acabar com o fantasma" da importação da fruta, cultivada no Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, onde foi criado.

"Gostaria de pedir desculpas para o pessoal do Vale do Ribeira. Acho que estão nos finalmentes os estudos da [ministra da Agricultura] Tereza Cristina para que esta instrução normativa seja revogada."

Nova Cancún

Em maio de 2019, Bolsonaro afirmou que revogaria decreto de preservação da Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis. Durante um evento em Brasília, repetiu o argumento do potencial turístico da região: "Nós podemos ser protagonistas de fazer com que a baía de Angra seja uma nova Cancún".

Em outubro, disse que defendeu investimentos no local, durante encontro com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

"Eu propus ao príncipe herdeiro investimento na baía de Angra para nós a transformarmos numa Cancún. Depois de uma explanação, ele falou que está pronto para investir na baía de Angra. Mas isso passa por um projeto para revogar um decreto ambiental", afirmou.

É o mesmo local em que o presidente tem uma casa e onde foi autuado por pesca ilegal. A multa de R$ 10 mil, confirmada em duas instâncias no Ibama, foi anulada pela Advocacia-Geral da União no ano passado.

Bolsonaro alegou, durante o processo, que não estava no local, apesar das fotos tiradas pelo agente do instituto.​

Um ano depois do episódio, ainda como deputado, ele apresentou um projeto de lei que determinava o desarmamento de todos os fiscais do Ibama e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em ações de campo.

Ainda em 2013, Bolsonaro tentou uma autorização para a pesca amadora na região por meio de um mandado de segurança na Justiça Federal.

Em março de 2019, José Augusto Morelli, que flagrou Bolsonaro pescando ilegalmente, foi exonerado. A ação foi considerada uma retaliação pelo servidor.

Tomada de três pinos

Na esteira do decreto que acabou com o horário de verão, no início de 2019, veio o anúncio da cruzada contra a tomada padronizada no Brasil, em um pronunciamento que revelou outras duas preocupações do governo.

"Temos que nos livrar da tomada de três pinos, das urnas eletrônicas inauditáveis e do acordo ortográfico", afirmou Filipe Garcia Martins, assessor internacional de Bolsonaro, em uma rede social, no dia 6 de abril de 2019.

Esse tipo de tomada passou a ser obrigatória em 2011, sob a justificativa de ser mais segura. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o secretário especial de Produtividade e Competitividade, Carlos Alexandre da Costa, afirmou que o assunto não deve ser visto como algo "folclórico". "É um tema que afeta a segurança, a concorrência e a produtividade."

F-1 no Rio

Não é mais novidade o conflito entre o governador de São Paulo João Doria (PSDB) e Bolsonaro. O atrito entre os dois, porém, teve início em junho de 2019.

​Na época, o presidente afirmou que havia 99% de chance de a F-1 ser transferida de São Paulo para o Rio de Janeiro a partir de 2021. O anúncio ocorreu em uma reunião com diretores da categoria e o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, no Palácio do Planalto.

No início, a intenção era mudar o local das provas já em 2020. "O autódromo [no Rio de Janeiro] será construído em seis, sete meses após o início das obras. De modo que, por ocasião da F-1 do ano que vem, ela será no Rio”, afirmou no dia 8 de maio de 2019, mesma data em que assinou um termo de cooperação para a mudança do local.

No dia 25 de junho, Doria reagiu: "Não quero desmerecer, mas recomendo de uma maneira sutil: visitem Deodoro. Sobrevoem a área, vocês não vão conseguir chegar lá. Não tem estrada, só a cavalo", afirmou, em uma entrevista coletiva. Ao que Bolsonaro retrucou: "A imprensa diz que ele [Doria] será candidato a presidente em 2022. Então, tem que pensar no Brasil, e não no seu estado."

Nióbio

Em visita ao Japão para a Cúpula do G20 em 2019, o presidente quis atestar uma ideia que prega desde que era pré-candidato à Presidência, em 2017, ainda filiado ao PSC.

Para Bolsonaro, o Brasil tem um subaproveitamento do nióbio. O metal pode ser utilizado em gasodutos, turbinas e até em foguetes espaciais e reatores nucleares.

Na defesa do aproveitamento do recurso, ele também ataca outra de suas obsessões, a demarcação de terras indígenas. Bolsonaro costuma dizer que o país deveria ter maior controle sobre suas reservas de nióbio e que há jazidas gigantes do produto ainda inexploradas por estarem em terras indígenas.

Foi na Câmara dos Deputados, em 2016, que ele tomou essa missão para si, evocando a figura do fundador do Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona): "Quero seguir a linha do saudoso Enéas Carneiro, não obviamente com o conhecimento que ele tinha sobre o assunto. Foi uma pessoa ímpar, que infelizmente o Brasil perdeu muito cedo. Falarei sobre a questão do nióbio."

Em transmissão ao vivo, destacou a utilização do metal em joias.

“Tem de várias cores. A vantagem em relação ao ouro são as cores, e ninguém tem relação alérgica ao nióbio. Alguns têm ao ouro. Às vezes a mãe bota um brinquinho na orelha da menina —menina, deixar bem claro— e tem reação, e isso aqui [nióbio] não tem."

Armas

Flexibilizar o armamento é uma das bandeiras mais antigas de Bolsonaro, especialmente no campo. Um de seus bordões enquanto deputado e candidato à Presidência era: "Cartão de visita para marginal do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] é cartucho 762."

Desde que assumiu a Presidência, tenta aprovar a medida. Em janeiro do ano passado, assinou decreto em que facilita posse de armas. Com recuos e questionamentos do Congresso e do STF, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado derrubou parecer favorável à medida.

Em junho do ano passado, após afirmar que não abriria mão da medida, Bolsonaro recuou e apresentou três novos decretos em que revoga textos anteriores.

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