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'Nunca imaginei que o filho do Bolsonaro compartilharia uma fake news minha'

Foto da militante travesti Alex Pais de Andrade, 30, foi associada a repórter da Folha por bolsonaristas nas redes sociais

São Paulo

Em praticamente todos os domingos e feriados de 2019 a militante travesti Alex Pais de Andrade, 30, se dirigia à avenida Paulista, região central de São Paulo, com o mesmo figurino de protesto contra Bolsonaro, apelidado por ela de “Lula Girl”.

Uma roupa de tom rosa bastante justa ao corpo, com uma abertura na altura do peito, um shorts bem curto, bota preta de cano alto e uma faixa na cabeça com a inscrição “Haddad”.

No domingo de 26 de maio de 2019, encontrou uma Paulista com protestos a favor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido, e no PSL à época), que enfrentava uma série de atos pelo país contra cortes na educação, e as manifestações pró-governo mediriam a força que o mandatário ainda conseguia angariar.

Mesmo com o ato pró-Bolsonaro, ela continuou na Paulista, eventualmente gritando “Lula Livre” (ela diz que mesmo em dias de protestos bolsonaristas há muita gente circulando e que a adesão a esses movimentos não costuma ser tão alta).

Em algum momento naquela tarde, uma pessoa –que Alex não sabe dizer qual seria a posição política–pediu para tirar uma foto, o que não é incomum, uma vez que o visual de Lula Girl atrai os olhares de quem circula pela avenida.

O que ela nunca imaginou é o destino que a imagem teria quase um ano depois: serviria, em abril de 2020, como elemento principal para a criação de uma fake news envolvendo um jornalista da Folha –o mesmo que escreve este texto.

A cena de Alex na Paulista como Lula Girl passou a ser usada pela militância bolsonarista para ataques homofóbicos ao repórter, como se fosse ele na foto, após publicação de post na sexta-feira (17) no blog #Hashtag com sósias do novo ministro da Saúde, Nelson Teich.

O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), dentre outros perfis que orbitam a esfera bolsonarista, fizeram comentários preconceituosos.

Allan: “Eis o cara que zombou do novo ministro da saúde. Eu falo ou vocês falam?” Eduardo: “Por trás de toda matéria de extrema imprensa tem uma pessoa esquisita assim”.

“No mesmo dia do post de vocês, fui avisado pelo reconhecimento facial do Facebook daquela foto. Por ser antiga, pensei que a pessoa que tirou a foto teria postado somente agora, então ignorei”, conta Alex.

Alex Pais de Andrade, 30, envolvida em fake news com o jornalista Mateus Camillo, da Folha
Militante travesti Alex Pais de Andrade, 30, envolvida em fake news com o jornalista Mateus Camillo, da Folha - Reprodução no Twitter

No final de semana, tudo mudaria.

“Quatro amigos me mandaram mensagens avisando [da fake news com a Folha]. Pedi pra enviarem os links, que na segunda falaria com minha advogada. Sabia que um dia seria alvo de fake news por ser uma militante travesti que aparece na Paulista. Mas nunca imaginei que o filho do Bolsonaro compartilharia a fake news.”

Seu celular passaria aqueles dois dias somente com as notificações de reconhecimento facial de sua foto sendo usada em diversas redes sociais por milhares de perfis, com legendas como: “esse aí é o @mateuscamillo, ‘jornalista’ da Folha que fez a matéria chacota com o ministro da Saúde. Então tá”.

“Se é esquisito, eles [militância bolsonarista] já associam com maconheiro, petista, comunista. Eles só querem uma desculpa para ofender quem pensa diferente e justificam crimes fascistas com moralidade”, diz Alex. “Odeio esses comentários que usam comparações para tentar ofender. Parece o Boulos, parece o namorado da Fátima Bernardes”, completa.

Sobre fake news, Alex diz ter sido a primeira vez que foi alvo de uma, mas pensa que não será a última. “É um sensacionalismo barato e absurdo que consome quem não quer dialogar e só quer repetir a mesma coisa pra ter uma sensação falsa de interação. É o que acontece com o terraplanismo. Não há como questionar algo baseado em crendices.”

Se foi a primeira vez que foi vítima de ataques de ódio na internet, Alex, que trabalha como corretora de imóveis, costuma enfrentar situações desagradáveis como travesti militante na Paulista.

“Infelizmente, é normal a pessoas olharem de um jeito estranho. Também ouço, de longe, gritos de algo bem tosco como ‘traveco’ ou ‘bicha’. Dá pra ver que gritam só pra deixar claro que não aceitam uma aparência diferente.”

Alex não recebe só ataques, no entanto.

“As pessoas me perguntam, já se desculpando, se me tratam no masculino ou feminino. Eu tenho toda a paciência pra explicar que as travesti são mulheres, por isso é sempre feminino. São mulheres comuns por isso podem ser heterossexuais ou não. E parece que a maioria, mesmo sendo respeitosos, nunca pensaram nisso e não tem nenhum convívio, mas sinto que tem vontade de saber mais e admiram muito vendo como um ato de coragem a nossa existência.”

Por fim, o apoio. “Tem quem incentiva, quem admira e fala que queria que todo o mundo fosse livre pra ser feliz. E ouço muito frases como: “parabéns pela atitude, você me representa, continue assim.’”

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