Descrição de chapéu

Sem cloroquina e com testes que não existem, Bolsonaro se rende à realidade

Governo como era conhecido se exauriu com a saída de Mandetta, e Teich simboliza acomodação

São Paulo

O governo de Jair Messias Bolsonaro, como o conhecemos, chegou a um ponto de exaustão nesta quinta-feira (16) com a demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde).

O que virá a seguir é insondável neste momento, obviamente, mas os próximos passos na condução da crise do coronavírus serão centrais para as chances do presidente seguir no poder.

O presidente Jair Bolsonaro, ao lado de um intérprete de Libras, anuncia Teich no ministério
O presidente Jair Bolsonaro, ao lado de um intérprete de Libras, anuncia Teich no ministério - Reprodução/TV Brasil

O presidente notabilizou-se pela condução caótica de sua gestão, sempre dobrando apostas de radicalismo ante o que chamava desde a campanha de 2018 de "o sistema". Quebrá-lo seria seu fim último, ainda que indefinível, apoiado por algo entre 20% e 30% do eleitorado.

Bolsonaro ia bem na sua proposta, dado o grau de crispação na relação entre os Poderes e as forças federativas. Chegou a março vislumbrando até um processo de impeachment no horizonte.

Até que sobreveio a peste. A Covid-19 ofereceu a Bolsonaro a oportunidade única para buscar algum tipo de união nacional em torno do seu nome. Falhou miseravelmente, não por erros pontuais, mas pela opção de assumir-se um negacionista da gravidade da crise.

O resto é história, um arco que compreende a "gripezinha", o abraço aos manifestantes que queriam fechar Congresso e Legislativo, o desastroso pronunciamento de 24 de março, o recuo instável com o apoio da ala militar do governo e o conflito terminal com Mandetta.

O ministro não foi inocente na sua condução da crise, político do DEM que é. Maximizou sua condição de vítima altiva mesmo quando errou, e saiu da obscuridade para o estrelato midiático —a ver se isso o cacifará a algo mais que o governo de Mato Grosso do Sul.

Seja como for, Mandetta jantou Bolsonaro nos dias finais da crise. Colheu popularidade na crise acima à do presidente e o irritou pela proximidade com João Doria (PSDB-SP), governador e antípoda do Planalto nesta crise.

Talhou um momento histórico da crônica política brasileira na semana passada, quando basicamente disse ao chefe que ficaria no cargo, apesar de toda a pressão –invertendo a ordem hierárquica usual.

Sua saída foi calculada após a insistência de Bolsonaro em estimular aglomerações, não por acaso falando da Goiânia de seu padrinho Ronaldo Caiado (DEM), um ex-bolsonarista convicto.

Sofrendo derrotas consecutivas no Congresso e no Supremo Tribunal Federal, e tendo uma frente ampla de governadores galvanizada pelo rival Doria contra si, Bolsonaro está isolado na ilha chamada Planalto.

Sobraram a seu lado generais e alguns poucos pontos de apoio no mundo político e empresarial. Vieram então pronunciamentos mais moderados, "ma non troppo", tentando consertar o negacionismo inicial de seu comportamento.

O tom tenso e contrito da fala em que anunciou Nelson Teich no lugar de Mandetta foi exemplar disso. A defesa óbvia da economia em tempos de crise foi toda permeada pela questão da "saúde do povo", a "manutenção da vida".

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, fala ao lado de um intérprete de Libras
O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, fala ao lado de um intérprete de Libras - Reprodução/TV Brasil

Ao lado de Teich, que chegou a Brasília para aceitar o cargo utilizando uma máscara, Bolsonaro admitiu que a dita volta à normalidade não ocorrerá "o mais rápido possível". Uma concessão e tanto para quem queria abrir o comércio por meio de um decreto.

O presidente passou recibo para os governadores, ao dizer agora que eles "tinham de fazer alguma coisa", em referência às quarentenas impostas Brasil afora.

Mas buscou tirar o corpo fora, dizendo que o ônus das decisões estaduais não seria dele, e até estocou Doria ao dizer que nunca ameaçaria prender pessoas que driblassem as restrições. Apologista da ditadura e da tortura, Bolsonaro quis lecionar sobre "direitos fundamentais" de cidadãos aterrorizados pela Covid-19.

O substrato da fala, contudo, foi o que o próprio presidente chamou de "reposicionamento" dele e do governo na crise. O breve pronunciamento de Teich foi além: entrou uma defesa sóbria do melhor conhecimento da realidade sanitária dos estados por meio de testes, e saiu a palavra cloroquina.

O contestado remédio transformado em elixir mágico da crise por Bolsonaro não foi citado nem pelo presidente, nem pelo novo ministro. A testagem defendida por Teich é algo recomendado há meses pela Organização Mundial da Saúde, mas o fato é que não há notícia de kits para tal à disposição do Brasil.

Apesar de Teich ter concedido a eventualidade de sugerir flexibilizações em quarentenas a depender das realidades locais, o que de resto é outra obviedade, o ponto central dos dois pronunciamentos foi o de continuidade nos trabalhos de Mandetta, uma transição mais suave em meio à turbulência.

Isso tudo cimenta a ideia de acomodação defendida por militares e aliados menos radicais de Bolsonaro, que já vêm traçando tentativas para retirar o governo do respirador mecânico. Se isso irá se manter na prática, com o vespeiro do Legislativo e do Judiciário em plena fúria, essa é outra questão.

Mas Teich foi uma escolha nesse sentido. Se tivesse optado por um negacionista da crise, como Osmar Terra, Bolsonaro poderia ver explodir o que lhe resta de governabilidade.

Como é sabido, o presidente é incontrolável quando está cercado por seus filhos carbonários e isso fragiliza qualquer estabilidade de arranjo. O governo que sai da queda de Mandetta é outro, dado que Bolsonaro aparentemente rendeu-se à realidade.

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