Atual número 2 da PF rebate Bolsonaro e diz que não havia problema de produtividade no Rio

Ele comandava a região até recentemente, quando foi transferido para Brasília após a queda de Valeixo

Brasília

Em depoimento à Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (13), o atual diretor-executivo da corporação, Carlos Henrique Oliveira, rebateu o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e disse que não havia problemas de produtividade na Superintendência do Rio.

Ele comandava a área até recentemente, quando foi transferido para Brasília após a queda de Maurício Valeixo da diretoria-geral da PF.

Carlos Henrique Oliveira, ex-superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro
Carlos Henrique Oliveira, ex-superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro - Divulgação

Carlos Henrique virou atual número dois da PF, tendo sido nomeado oficialmente nesta quarta pelo ministro da Justiça, André Mendonça.

Ele afirmou aos investigadores, no âmbito do inquérito que apura as acusações do ex-ministro Sergio Moro a Bolsonaro, que acompanhava a evolução da gestão no Rio desde 2019 e que os números estavam melhorando alcançando a melhor posição do IPO (Índice de Produtividade Operacional).

As afirmações de Carlos Henrique rebatem a declarações feitas pelo presidente para justificar a troca na corporação.

A mudança de superintendente na PF do Rio atendeu à vontade de Bolsonaro sob a justificativa de uma suposta preocupação de Bolsonaro com alegada falta de produtividade no Rio.​​​

No entanto, ele é investigado sob a suspeita de agir no estado para proteger amigos e familiares.

Em agosto do ano passado, Bolsonaro atropelou o então ministro da Justiça, Sergio Moro, e Valeixo ao anunciar que trocaria o superintendente do Rio por questões de "gestão e produtividade". A substituição do titular da época, Ricardo Saadi, vinha sendo planejada, mas acabou sendo adiada por três meses após reação negativa da corporação a fala do presidente.

Em depoimentos à Polícia Federal, Moro, Valeixo e o ministro Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) confirmaram a pressão do presidente da República sobre a atuação da PF no Rio. Heleno também justificou aos investigadores a necessidade de troca afirmando que era uma questão de “produtividade”, o que foi rebatido por Moro e Valeixo.

Carlos Henrique ficou à frente do posto no Rio de novembro de 2019 até a semana passada, quando foi convidado a assumir na função executiva na corporação. Ele disse que neste período teve a informação por duas vezes de que o presidente queria substituí-lo.

Ele, contudo, não soube afirmar qual seria o motivo para as investidas de Bolsonaro.

Disse afirmou ainda que, enquanto superintendente do Rio, nunca recebeu alguma queixa ou crítica pela falta de informação de inteligência da PF, seja da parte do diretor-geral ou de Moro ou Bolsonaro.

Carlos Henrique também afirmou que nunca manteve interlocução direta com o presidente enquanto foi superintendente da PF do Rio e disse que não foi cobrado por informações dos casos da superintendência.

"Perguntado ao depoente se, durante a sua gestão na SR/RJ lhe foi solicitado pelo presidente da República relatórios de inteligência estratégica da Polícia Federal sobre alguma temática específica pertinente ao Estado do Rio de Janeiro , disse que não, assim como não houve pedidos de relatórios de inteligência feitos pelo presidente da República por intermédio do então ministro da Justiça ou do delegado Valeixo", diz trecho do depoimento.

O agora diretor-executivo da PF explicou no depoimento que a indicação dos nomes a serem direcionados aos cargos de Superintendentes Regionais é “tradicionalmente” decidida internamente pela própria polícia e que “reflete a cultura organizacional da corporação”.

Em outro ponto do depoimento, o diretor-executivo da PF afirmou que não tem conhecimento de policiais da corporação fazendo a segurança do presidente no Rio de Janeiro.

A versão dele entra em conflito com a fala do ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, que disse que Bolsonaro queria a troca da segurança pessoal de sua família ao cobrar publicamente na reunião ministerial do dia 22.

A declaração do ministro referendou o que o próprio presidente havia dito mais cedo, quando alegou que sua preocupação era com a segurança da família, e não com investigações.

No depoimento, Carlos Henrique confirmou aos investigadores que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, era investigado em um inquérito em curso na Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro no âmbito eleitoral, conforme revelou a Folha.

A Folha mostrou em fevereiro que a PF concluiu não haver indícios de que Flávio Bolsonaro tenha cometido os crimes de lavagem de dinheiro e de falsidade ideológica no inquérito eleitoral que mira tanto as negociações de imóveis feitas pelo filho mais velho do presidente como a sua declaração de bens na eleição de 2018.

Questionado se tinha recebido cobranças do presidente sobre a investigação ou outras em curso no Rio, ele afirmou que não.

A confirmação da investigação contra o filho mais velho do presidente contradiz a afirmação de Bolsonaro que, na terça, disse que não havia investigações contra ele e seus filhos na PF.

Carlos Henrique prestou depoimento no inquérito que apura as supostas interferências de Bolsonaro na Polícia Federal. Ao pedir demissão, Moro afirmou que o presidente tentou demitir dois superintendentes da PF do Rio —um deles era Carlos Henrique— para nomear pessoa de sua confiança.

Sobre o convite feito pelo novo diretor-geral da PF, Rolando Souza, para que Carlos Henrique deixasse a Superintendência do Rio e fosse para o cargo de diretor-executivo em Brasília, ele afirmou que fez questão de indicar o nome de seu sucessor para o Rio e disse que então sugeriu Tácio Muzzi, atual titular do posto.

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