Candidato do PT à Prefeitura de SP, Tatto quer tarifa zero e vê Covas sem liderança

Petista afirma que pandemia encerrou debate sobre Estado mínimo e promete renda básica

São Paulo

Escolhido candidato do PT à Prefeitura de São Paulo neste sábado (16), por margem apertada de 312 a 297 votos contra o deputado federal e ex-ministro Alexandre Padilha, Jilmar Tatto critica a atuação do prefeito Bruno Covas (PSDB) na pandemia do coronavírus e defende propostas como tarifa zero para o transporte.

Ex-deputado federal e ex-secretário de Transportes nas gestões petistas de Fernando Haddad e Marta Suplicy na prefeitura, Tatto foi definido em votação restrita num colégio de dirigentes partidários onde tem maioria de apoiadores —o que gerou protestos dos adversários na prévia.

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Jilmar Tatto, que será candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PT, durante debate nas prévias - Filipe Araújo - 28.fev.2020/Divulgação

As palavras de ordem do agora pré-candidato são "diálogo" com partidos de esquerda para alinhar programas e fazer oposição ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e "rede de proteção" da população vulnerável na pandemia.

Tatto afirma que vai implementar a renda básica em São Paulo e que a recuperação da economia depende de um Estado forte. "Não podemos ter o Estado mínimo mais. Esse debate está vencido", afirma em entrevista à Folha.

Para Tatto, Covas é um preposto do ex-prefeito e atual governador João Doria (PSDB) —e a dupla representa o Estado mínimo. O petista defende ainda a saída de Bolsonaro.

"O prefeito não está à altura do cargo. O momento exige líderes, e isso não acontece no governo federal, não acontece no governo estadual e não está acontecendo na cidade de São Paulo", completa.

Tatto diz considerar o ex-presidente Lula (PT) como um pai e defende o partido, que vem de sucessivas derrotas nas urnas. "A população começa a perceber que, na hora do aperto, é com o PT que pode contar", afirma.

Sobre a acusação de que teria favorecido perueiros ligados à facção criminosa PCC, diz que se trata de um absurdo e que dedicou a vida a enfrentar a máfia dos transportes.

Coronavírus

Os governos precisam liderar esse processo. Estamos em estado permanente de guerra, o que exige unidade de ação. Isso não está acontecendo em relação ao governo Bolsonaro. E percebo que não está havendo coordenação na cidade de São Paulo, no sentido de otimizar recursos públicos, não pensar duas vezes antes de implementar uma cesta básica para todos ou criar uma renda básica da cidadania. Porque é uma cidade rica e isso não está acontecendo.

Medidas

É preciso ampliar a rede de transporte, colocar 100% da frota de ônibus em circulação. Você anuncia que as pessoas têm que deixar o carro em casa e ao mesmo tempo não aumenta a frota, colocando em risco a segurança delas.

O prefeito [Bruno Covas] não está à altura do cargo. O momento exige líderes, e isso não acontece no governo federal, não acontece no governo estadual e não está acontecendo na cidade de São Paulo. O prefeito travou as principais avenidas, fazendo com que pessoas que tinham que trabalhar em serviços essenciais não conseguissem circular. Depois teve que voltar atrás.

Lockdown

Se a gente não tiver uma rede de proteção para as pessoas ficarem em casa, elas não vão ficar. Essa coisa de travar tudo [lockdown], quem ter que dizer são as autoridades de saúde. Se for necessário, tem que fazer. Para isso tem que ter coragem. A gente percebe que por parte do [governador João] Doria e do Bruno eles não estão tendo essa coragem. Primeiro tem que garantir que as pessoas fiquem em casa para não precisar disso. As pessoas estão saindo porque não estão sendo protegidas, é um problema anterior.

Transportes

Enfrentamos uma verdadeira máfia e reorganizamos o sistema, implantamos o Bilhete Único, 400 km de faixas exclusivas de ônibus, linhas noturnas e passe livre dos estudantes. Os corredores fizemos 92 km [a meta anunciada no início do governo de Fernando Haddad era 150 km]. Teve uma crise no governo federal, entraram com processo de deslegitimar o segundo mandato da Dilma [Rousseff]. E o corredor é caro, depende de recurso do governo federal.

Mesmo assim, fizemos mais de 40 terminais de ônibus. Tinha outros programados, mas é uma área que eu tenho muito orgulho de ter participado.

Passe livre

Vou implementar tarifa zero de forma progressiva. Você tem vários financiamentos. Subsídio é um. Vale-transporte universal é outro, acabar com os 6% que o empregado paga. Tem recursos dos aplicativos [de transporte]. Você pode pegar das operações urbanas e ter uma Cide municipal [cobrada sobre combustíveis], que exige lei federal. Eu sei onde buscar os recursos.

Quando você dá o transporte gratuito, aquece a economia. Pode começar a fazer de madrugada, aos domingos, às segundas para quem vai buscar emprego.

Impostos

A questão do IPTU progressivo sempre foi uma bandeira nossa. Quem ganha mais paga mais. Do ponto de vista proporcional, a mansão do Doria paga muito pouco. Vamos rever isso, além de rever toda a política de ISS [Imposto sobre Serviços]. Vamos rever todos os contratos. Há muita gordura nessas OSs [Organizações Sociais], empresas terceirizadas.

O ex-secretário de Transportes nas gestões Marta e Haddad, Jilmar Tatto - Divulgação

Estado mínimo

Me comprometi com [o vereador Eduardo] Suplicy e nós vamos implantar a renda básica da cidadania na cidade. A visão que a gente tem é que não podemos ter o Estado mínimo mais. Esse debate está vencido. Mais do que nunca a população vai depender do Estado, e a prefeitura tem essa capacidade. Vou interromper as privatizações. Dilapidação do patrimônio público nunca é alternativa. Para retomar economia, precisamos do Estado forte e protetor.

Alianças

Temos que criar uma frente democrática e popular para derrotarmos o fascismo. [Com] Todos que estarão nesse projeto nós vamos dialogar. O PT tem uma força fantástica, tem experiência. Hoje mesmo conversei com o Orlando Silva [pré-candidato do PC do B], vou ligar para o Boulos [do PSOL], para a Marta [do Solidariedade], quero verificar como está o PDT, tenho uma boa relação com o Márcio França [do PSB]. Não é uma questão específica de São Paulo. Tem a ver com o Brasil.

PT

Quando o PT governou, a população reconheceu as coisas boas que fez. Esse auxílio emergencial, a proposta do PT era R$ 1.043. O Bolsonaro queria R$ 200. Acabou passando R$ 600. A proposta de garantia do emprego foi do PT. A população começa a perceber que na hora do aperto, é com o PT que podem contar.

Marta vice?

Conheço a Marta desde quando implementamos a merenda escolar, as subprefeituras, ressuscitamos o transporte. Fui secretário de Governo dela. Ela é querida ainda na cidade de São Paulo. Não sei nem se é candidata a prefeita ou a vice. Vou conversar com ela no sentido de criarmos um programa. Ainda não é o momento de falar de vice.

Bolsonaro e Doria

Bolsonaro é um genocida. Ele tem de sair do governo, coloca em risco a vida das pessoas. Quer fechar STF, Congresso, não respeita o trabalho dos governadores, indica medicamentos fora da lista da OMS [Organização Mundial da Saúde]. Agora, a disputa em São Paulo é contra Doria também. Ele tirou o leite das crianças, não terminou os hospitais de Brasilândia e Parelheiros. Acabou com o passe livre dos estudantes. Covas é um preposto do Doria. A eleição tem três blocos: o nosso, o do fascismo e o do Estado mínimo.

Lula

O Lula é um líder mundial. Para mim é um grande conselheiro, é como um pai. Não tem dúvida nenhuma que vai estar na campanha. Assim como o Haddad. Fizemos muitas coisas boas juntos.

Relação com perueiros

É um absurdo [a acusação de ter favorecido perueiros ligados ao PCC quando era secretário de Transportes]. Eu fui vítima. Não tem nem inquérito sobre isso. Nunca fui ouvido. Fui ameaçado de morte. Minha vida foi enfrentar a máfia dos transportes. Nem sei qual é a acusação. Na época foi perseguição do PSDB. Quem entende de PCC é o PSDB, não sou eu.

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