Covid-19 já infectou ao menos 30 na cúpula da política brasileira

Seis governadores, dois prefeitos de capital, dois ministros e ao menos 20 congressistas já contraíram a doença

Brasília

Com o país registrando mais de 400 mil casos confirmados de Covid-19, a doença também atinge o primeiro escalão da política nacional, com ao menos 30 ocorrências entre ministros de Estado, congressistas, governadores e prefeitos de capital.

Apesar de não ter havido nenhuma morte até agora no andar de cima da gestão pública nacional, autoridades ouvidas pela Folha nas últimas semanas relatam óbitos de correligionários e conhecidos.

O governador do Piauí, Wellington Dias (PT), relata que Antonio Felícia, prefeito de São José do Divino (PI), "um grande amigo e filiado ao meu partido", morreu após pegar coronavirus em abril.

"Foi tudo muito rápido. Numa quarta-feira teve sintomas, era diabético e hipertenso, e na sexta já veio a óbito. Ele teve contato com um empresário que esteve no Ceará, com pessoas depois com confirmação, que também veio a óbito", afirma Dias.

O governador diz já ter feito três testes, todos negativos.

Seis governadores anunciaram terem contraído a doença: Wilson Witzel (PSC-RJ), Helder Barbalho (MDB-PA), Renan Filho (MDB-AL), Paulo Câmara (PSB-PE), Renato Casagrande (PSB-ES) e Antonio Denarium (PSL-RR).

"O vírus circula quando as pessoas circulam. O isolamento social é a medida mais eficaz contra a contaminação. Fique em casa, pelo bem da sua saúde e pela saúde de todos", escreveu no último domingo (24), em suas redes sociais, o governador de Roraima.

Ele foi um dos poucos governadores a apoiar Jair Bolsonaro em sua pregação contra o distanciamento social, tendo anunciado no final de março o início da reabertura do comércio no estado após a campanha "O Brasil Não Pode Parar", promovida pelo governo federal.

Roraima é, atualmente, uma das unidades da federação com o maior coeficiente de mortalidade (número de óbitos para cada um milhão de habitantes) pelo coronavírus, 16,8.

Bolsonaro apresentou à Justiça três exames negativos para a Covid-19, em nome de outras pessoas ou sem identificação --alega que fez isso por questões de segurança. Dois de seus ministros, Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Bento Albuquerque (Minas e Energia), contraíram a doença, mas já voltaram a trabalhar.

Entre os prefeitos das 26 capitais, Roberto Cláudio, de Fortaleza, e Edvaldo Nogueira, de Aracaju, ambos do PDT, tiveram teste positivo.

"Um dos 29 óbitos decorrentes da Covid-19 em Curitiba que teve rosto conhecido para mim foi da enfermeira Valdirene Aparecida dos Santos, que há dois anos servia na Unidade de Terapia Intensiva onde estive internado em 2017", afirmou o prefeito de Curitiba, Rafael Greca (DEM), que afirma não ter se submetido a testes até agora por não ter tido sintomas.

Prefeito da capital do estado campeão até agora de mortos por milhão de habitantes (42,1), Arthur Virgílio (PSDB), de Manaus, afirma que a Covid-19 levou o sobrinho de um grande amigo. "Eu não conhecia o rapaz, mas ele era jovem, atleta e mesmo assim morreu. Assim como tenho visto o contrário, um homem de 160 kg sobreviver", diz.

Ele afirma já ter feito alguns testes e uma tomografia dos pulmões, todos não tendo detectado sinais da doença.

No Congresso, ao menos cinco senadores e 15 deputados federais foram diagnosticados com a doença, entre eles o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), já recuperado.

Uma das últimas parlamentares a anunciarem ter contraído a doença foi a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP). "Seu quadro clínico é estável e os médicos não prescreveram o uso de nenhum medicamento; apenas Novalgina, em caso de muita dor ou enrijecimento do corpo. Mara permanece sem sintomas severos, em repouso em sua residência", publicou sua assessoria, nas redes sociais, na quinta-feira (21).

A Folha também questionou os 11 ministros do Supremo Tribinal Federal e o procurador-geral da República, Augusto Aras, mas apenas quatro ministros responderam. Dias Toffoli, presidente do STF, Luís Roberto Barroso e Celso de Mello afirmaram que seus testes deram negativo. Marco Aurélio disse que não fez teste.

No último sábado (23), Toffoli, 52, passou por cirurgia em Brasília, para drenagem de um abscesso. Após o procedimento, ele ficou internado com sintomas que sugerem infecção pelo novo coronavírus. Ele fez dois testes, mas ambos deram negativo.

A Folha também procurou os presidentes dos dez maiores partidos políticos do Brasil. Os que responderam afirmaram que não contraíram até agora a doença, mas alguns relataram morte de amigos, como o presidente do PSD, Gilberto Kassab, que citou o falecimento, em virtude do coronavírus, da mãe de uma amiga, e de Alfired Plöeger, colega na diretoria da Associação Comercial de São Paulo.

Nas Assembleias Legislativas dos estados houve no dia 19 a morte do deputado estadual Gil Vianna (PSL-RJ), de 54 anos, aliado da família Bolsonaro. Ele ficou internado por oito dias no hospital da Unimed de Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro.

Segundo a Assembleia Legislativa do Rio, o parlamentar morreu após sofrer uma parada cardíaca. A família não quis informar se ele foi tratado com cloroquina, medicamento cuja aplicação é defendida por Bolsonaro mesmo sem haver eficácia comprovada no combate ao coronavírus.

O maior estudo feito até agora sobre o tema, com dados de 96 mil pessoas internadas com Covid-19 em 671 hospitais de seis continentes, indica que quem tomou hidroxicloroquina e cloroquina teve maior risco de arritmia e de morte do que os pacientes que não usaram esses medicamentos.

Os resultados foram publicados na revista científica inglesa The Lancet, uma das mais prestigiosas do mundo. Segundo os autores, de universidades como Harvard (EUA) e da University Heart Center (Suíça), não foi possível comprovar qualquer benefício da administração da cloroquina ou da hidroxicloroquina logo após o diagnóstico de Covid-19.​

A bancada dos infectados pela Covid-19 no topo do mundo político (*)


Ministros de Estado

Augusto Heleno - Gabinete de Segurança Institucional
Bento Albuquerque - Minas e Energia

Governadores

Wilson Witzel (PSC-RJ)
Helder Barbalho (MDB-PA)
Renan Filho (MDB-AL)
Paulo Câmara (PSB-PE)
Antonio Denarium (PSL-RR)
Renato Casagrande (PSB-ES)

Prefeitos de capital

Roberto Cláudio (PDT), de Fortaleza
Edvaldo Nogueira (PDT), de Aracaju

Senadores

Davi Alcolumbre (DEM-AP)
Nelsinho Trad (PSD-MS)
Prisco Bezerra (PDT-CE) (suplente de Cid Gomes, ocupou o mandato de dezembro de 2019 a abril de 2020)
Mara Gabrilli (PSDB-SP)
Rogério Carvalho (PT-SE) (**)

Deputados federais

Roberto Pessoa (PSDB-CE)
Silas Câmara (Republicanos-AM)
Ricardo Barros (PP-PR)
Marx Beltrão (PSD-AL)
Luiz Lima (PSL-RJ)
Daniel Freitas (PSL-SC)
Aluisio Mendes (Pode-MA)
Misael Varela (PSD-MG)
Luís Tibé (Avante-MG)
Pastor Eurico (Patriota-PE)
Cezinha da Madureira (PSD-SP)
General Girão (PSL-RN)
José Priante (MDB-PA)
Elcione Barbalho (MDB-PA)
Diego Andrade (PSD-MG)

(*) Presidente, ministros de Estado, deputados federais, senadores, governadores e prefeitos de capital
(**) Aguardava resultado da contraprova

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