Descrição de chapéu
Daigo Oliva

Kit bolsonarista de protestos tem bandeiras dos EUA em estética da subserviência

Lema Brasil acima de tudo soa um pouco deslocado com Bolsonaro diante do símbolo americano

São Paulo

Jair Bolsonaro costuma dizer que a bandeira brasileira jamais será vermelha. No entanto, a depender das imagens do protesto do último fim de semana em Brasília, a bandeira brasileira talvez venha a ganhar listras vermelhas —e brancas. No canto superior esquerdo, um retângulo azul cheio de estrelas.

Dias depois de o presidente americano, Donald Trump, citar o Brasil pela terceira vez consecutiva para listar países que enfrentam graves problemas no combate à pandemia, Bolsonaro apareceu para acenar a seus apoiadores com uma bandeira dos EUA ao fundo.

As recentes declarações de Trump, considerado o grande aliado global do Planalto, são apenas uma pequena parte da série de situações embaraçosas que o líder americano impôs ao presidente brasileiro.

Com uma bandeira dos EUA ao fundo, o presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores durante protesto em Brasília
Com uma bandeira dos EUA ao fundo, o presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores durante protesto em Brasília - Ueslei Marcelino - 3.mai.20/Reuters

Além de ter sugerido restringir voos do país aos EUA, ameaçado tarifar o aço e o alumínio produzidos no Brasil e ter sido reticente no apoio à demanda brasileira para entrar na OCDE, a exportação de soja à China virou alvo do republicano, uma vez que o comércio do produto é essencial para o acordo que, em tese, amenizaria a guerra comercial entre as duas maiores potências do mundo.

Ainda assim, pessoas que estavam com o presidente no último domingo (3) desceram a rampa do Planalto para chegar até os apoiadores de Bolsonaro e pegar uma haste que segurava um combo de bandeiras: a dos EUA, a de Israel e, acima de todas, ao menos ali, a do Brasil.

Bolsonaro então caminhou próximo aos seus seguidores e se deixou fotografar muitas vezes com o símbolo americano, sem parecer se importar com os seguidos sinais de uma relação desigual.

Na semana em que reproduziu a cena da Santa Ceia ao discursar com seus ministros e chamou Sergio Moro de Judas, o presidente do discurso de Brasil acima de tudo com a bandeira americana ao fundo pareceu algo fora de lugar. Se a crise é estética, a subserviência também se mostra dessa maneira.

Do outro lado do cercadinho, apoiadores do presidente protestavam contra as medidas de distanciamento social com o kit visual de sempre.

Há o pacheco do esporte, ilustrado nas camisas da CBF e no capacete de Ayrton Senna, o motoqueiro durão, com bandana dos EUA e coletinho de couro, e o personagem mais comum, o que se enrola na bandeira nacional e, com gestos expansivos, demonstra o fervor por Bolsonaro e suas pautas.

"STF, preste atenção, a sua toga vai virar pano de chão", cantavam.

Tudo tem de ser amarelo, bem amarelo, amarelo-ovo, o do tipo mais chamativo que existe. Cartazes e faixas amarelas, com suas mensagens escritas em preto, fazem um contraste impossível de ser ignorado.

Outro contraste, também, é que muitos dos manifestantes usavam máscaras —amarelas, claro— e até protetores de acetato, daqueles utilizados por médicos em UTIs. Outros, não saíram de seus carros.

Afinal, se o vírus não é perigoso assim e as quarentenas não são necessárias, proteger-se nunca é demais.

Manifestante participa de ato em apoio a Bolsonaro com bandeira do Brasil e capacete de Ayrton Senna
Manifestante participa de ato em apoio a Bolsonaro com bandeira do Brasil e capacete de Ayrton Senna - Evaristo Sá - 3.mai.20/AFP

Enquanto protestavam, vídeos corriam soltos. De cima de um carro de som, no chão ou na rampa do Planalto, o ator Paulo Cesar Rocha, o Paulo Cintura da Escolhinha do Professor Raimundo, celebrava com parceiros a manifestação e postava nas redes sociais.

"Bolsonaro é o que interessa, o resto não tem pressa! Iiiiiiiiissáááááá", gritava ele, adaptando o bordão da época em que interpretava outro personagem.

Esse tipo de registro, simples, cru e improvisado, é outra marca importante da estética bolsonarista. Propõe uma comunicação sem filtros, espontânea e direta com os apoiadores.

Ao vencer o pleito, em 2018, Bolsonaro fez o primeiro discurso como presidente eleito em uma live, e não para a imprensa tradicional. Falava ao coração de seu eleitor, sem temer intervenções ou contrapontos.

Sem ter alguém para questioná-lo, também não precisou mandar ninguém calar a boca. Ali, em volta dele, todos vestiam amarelo.

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