Paulo Marinho depõe e se queixa de devassa após acusações contra família Bolsonaro

Empresário detalhou suspeitas de informações privilegiadas em operação da PF em 2018; Ministério Público diz que vazamento merece ser investigado

Rio de Janeiro

O empresário Paulo Marinho prestou depoimento na tarde desta quinta (21) ao Ministério Público Federal do Rio de Janeiro e se queixou de uma suposta devassa em suas contas bancárias e ameaças em redes sociais após as acusações feitas contra a família Bolsonaro.

Em entrevista à Folha publicada na noite de sábado (16), Marinho disse que um delegado da Polícia Federal vazou informações privilegiadas no período eleitoral de 2018 ao senador Flávio Bolsonaro sobre investigações que alcançariam Fabrício Queiroz, ex-assessor do gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio.

O procurador Eduardo Benones afirmou, depois do depoimento de Marinho, haver informações para continuar investigando um suposto vazamento da Operação Furna da Onça. O empresário também já havia apresentado seus relatos à PF no dia anterior.

"Temos razão para crer que os fatos merecem ser investigados", disse Benones, coordenador do Núcleo de Controle Externo da Atividade Policial do MPF.

O empresário Paulo Marinho deixa o prédio do Ministério Público Federal, no Rio, após prestar depoimento nesta quinta-feira (21)
O empresário Paulo Marinho deixa o prédio do Ministério Público Federal, no Rio, após prestar depoimento nesta quinta-feira (21) - Jose Lucena/Futura Press/Folhapress

Ele ouviu Marinho nesta quinta após ter instaurado procedimento investigatório criminal e pedido desarquivamento de inquérito policial para apurar os vazamentos na operação deflagrada em 2018.

Em relação às queixas de ameaça e de devassa em contas, Benones disse que aconselharia Marinho a formalizá-las.

A informação de que contas de Marinho estariam sendo verificadas pelo Banco Central circulava desde a quarta (20). A coluna de Mônica Bergamo, da Folha, chegou a pedir um posicionamento à instituição, que disse não comentar "caso específico".

"Cabe informar que, por vezes, a Justiça comanda tais pesquisas via BacenJud, um sistema eletrônico automatizado à disposição do Poder Judiciário. Nesses casos, as ordens de pesquisa e as respectivas respostas transitam no sistema sem a interferência ou o conhecimento do BC", afirmou.

Nesta quinta (21), o site O Antagonista publicou que "alguém poderoso em Brasília está demandando informalmente dados bancários" do empresário.

Depois de seu depoimento ao MPF, Marinho disse ter repetido o teor de fala anterior à PF, com uma riqueza maior de detalhes, além de reafirmar os fatos já relatados à Folha em entrevista.

"O que me deixou perplexo foi o fato de estarem fazendo devassa nas minhas contas pessoais", disse Marinho. "Aproveitei o depoimento e pedi ao procurador para investigar."

Questionado sobre por que não teria revelado o vazamento na Furna da Onça antes, respondeu que tem a resposta, mas que a daria na hora certa.

Marinho comentou que, embora esteja recebendo ameaças, não tem medo delas, mas deve tomar medidas para proteger sua família. "O sujeito que toma a decisão que tomei precisa ter coragem e ser casca-grossa", disse.

Na entrevista à Folha, o empresário disse que, segundo ouviu do próprio filho do presidente, um delegado da PF antecipou a Flávio em outubro de 2018 que a Operação Furna da Onça, então sigilosa, seria realizada.

Essa operação, segundo ele, teria sido "segurada" para que não atrapalhasse Bolsonaro na disputa eleitoral. De acordo com o relato, Flávio foi avisado entre o primeiro e o segundo turnos por um delegado simpatizante da candidatura de Bolsonaro à Presidência.

O delegado-informante, segundo a acusação feita por Marinho, teria aconselhado Flávio a demitir Queiroz e a filha dele, que trabalhava no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro. Segundo esse relato, ambos foram exonerados em 15 de outubro de 2018 por ordem do então candidato Bolsonaro.

De acordo com relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. As movimentações seriam incompatíveis com o patrimônio e a atividade do ex-assessor.

A acusação do empresário também será objeto de outra investigação, instaurada com autorização do STF (Supremo Tribunal Federal) após Sergio Moro pedir demissão do Ministério da Justiça acusando Bolsonaro de tentar interferir politicamente na PF. Ainda não há data para esse depoimento.

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