Veja cronologia e entenda a trama que liga Bolsonaro, Flávio, Queiroz e Paulo Marinho

Filho do presidente e ex-assessor estão no centro de múltiplas investigações

São Paulo e Rio de Janeiro

O imbróglio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e seu ex-assessor Fabrício Queiroz, amigo de longa data do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), voltou à tona nesta semana após a entrevista à Folha do suplente de Flávio, o empresário Paulo Marinho.

Marinho, 68, que durante a campanha presidencial foi um dos mais importantes apoiadores de Bolsonaro, disse que, segundo ouviu do próprio filho do presidente, um delegado da Polícia Federal antecipou a Flávio Bolsonaro em outubro de 2018 que a Operação Furna da Onça, então sigilosa, seria realizada.

Essa operação, segundo ele, teria sido "segurada" para que não atrapalhasse Bolsonaro na disputa eleitoral. De acordo com o relato, o filho do presidente foi avisado entre o primeiro e o segundo turnos por um delegado simpatizante da candidatura de Bolsonaro à Presidência.

Os desdobramentos da operação revelaram um esquema de "rachadinha" —quando funcionários são coagidos a devolver parte do salário recebido— na Assembleia Legislativa do Rio e atingiram Queiroz.

O delegado-informante teria aconselhado ainda Flávio a demitir Queiroz e a filha dele, que trabalhava no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro. Segundo o relato, ambos foram exonerados em 15 de outubro de 2018 por ordem do então candidato Bolsonaro.

Queiroz, policial militar aposentado e ex-assessor de Flávio, frequenta o noticiário desde dezembro de 2018, quando foi tornado público um relatório do Coaf —órgão federal de inteligência financeira— que apontava movimentações suspeitas em suas contas enquanto atuava no gabinete do filho do presidente na Assembleia do Rio.

Esse suposto vazamento de uma investigação da Polícia Federal a Flávio virou agora alvo de apuração da corporação no inquérito já aberto com base nas denúncias do ex-ministro da Justiça Sergio Moro contra o presidente —sobre suas supostas intervenções políticas na PF.

Após apuração da PF nesse inquérito, a PGR avalia se haverá acusação contra Bolsonaro. Caso isso ocorra, esse pedido vai para a Câmara, que precisa autorizar sua continuidade, com voto de dois terços.

Em caso de autorização, a denúncia vai ao STF —que, se aceitar a abertura de ação penal, leva ao afastamento automático do presidente por 180 dias, até uma solução sobre a condenação ou não do investigado.​

A Folha organizou abaixo a cronologia das diversas investigações em curso e as relações entre os personagens desta trama policial.

Cronologia das investigações envolvendo Flávio e Queiroz

Operação Cadeia Velha (nov.17)
PF deflagra a Operação Cadeia Velha, que cumpre dez mandados de prisão e condução coercitiva de três deputados estaduais do Rio. A ação é autorizada pelo desembargador Abel Gomes, do TRF-2, com base na delação do doleiro Álvaro Novis, que afirmou ter distribuído R$ 500 milhões entre 2011 e 2012 em propina para políticos a pedido de empresários de ônibus

Relatório do Coaf (jan.18)
Documento do órgão de inteligência financeira menciona movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio, e de outros funcionários de parlamentares. O relatório é enviado para Ministério Público do Rio de Janeiro, Ministério Público Federal e Polícia Federal

Inquérito da PF (mai.18)
A PF inclui o relatório produzido em janeiro no inquérito instaurado sobre a Operação Furna da Onça, desdobramento da Cadeia Velha. A investigação visava apurar o pagamento de propina pelo ex-governador Sérgio Cabral (MDB) a deputados

Novo relatório do Coaf (jul.18)
É produzido um segundo relatório do órgão de inteligência financeira mencionando as movimentações de Queiroz e Flávio

“Rachadinha” (31.jul.18)
Promotoria do Rio abre investigação com base nos dados do Coaf sobre um suposto esquema de “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio na Assembleia do Rio. Queiroz e o hoje senador sempre negaram a existência do arranjo

Primeiro turno (7.out.18)
Jair Bolsonaro (então no PSL) e Fernando Haddad (PT) vão ao segundo turno

Suposto vazamento (out.18)
Segundo Paulo Marinho, uma semana após o primeiro turno um delegado da PF entrou em contato com o gabinete de Flávio para avisá-lo sobre a realização da Furna da Onça, até então sigilosa, que atingiria a Assembleia do Rio

Exoneração de Queiroz (15.out.18)
Queiroz é exonerado em seguida do cargo no gabinete de Flávio. A filha dele, Nathalia, é exonerada no mesmo dia do cargo no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro

Pedidos de prisão (16.out.18)
Procuradoria pede a prisão de dez deputados no âmbito da Operação Furna da Onça, que seria iniciada pela PF dias depois. Em 25 de outubro, durante sessão secreta, a 1ª Turma do TRF-2 autoriza as medidas

Segundo turno (28.out.18)
Jair Bolsonaro é eleito presidente

Operação Furna da Onça (8.nov.18)
PF deflagra a operação e prende sete deputados (outros três, presos na Cadeia Velha, foram alvo de novos mandados). Flávio e Queiroz não são alvos

Movimentações reveladas (6.dez.18)
Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo revela relatório do Coaf que apontou movimentações suspeitas de Queiroz

Encontro com Marinho (dez.18)
Segundo relato de Marinho, suplente de Flávio, o então senador eleito o procura pedindo a indicação de um advogado criminal

Posse de Bolsonaro (1°.jan.19)
Jair Bolsonaro toma posse como presidente

Posse de Flávio (1°.fev.19)
Flávio Bolsonaro toma posse como senador

Inquérito (26.fev.19)
PF instaura inquérito sobre o relatório do Coaf produzido em julho de 2018. A investigação tem como alvo um advogado do Rio Grande do Sul, e não Queiroz ou Flávio

Informação sobre inquérito (ago.19)
Defesa de Queiroz é informada sobre inquérito sigiloso da PF do Rio que mencionava o ex-assessor, com base nesse outro relatório do Coaf, de julho de 2018

Bolsonaro anuncia troca na PF (ago.19)
No mesmo mês, Bolsonaro anuncia sua intenção de intervir na PF. O presidente tenta trocar o superintendente da PF no Rio, Ricardo Saadi. Naquele mês, um dos aliados mais próximos do presidente, o deputado federal Hélio Negão (PSL-RJ), tem o nome incluído em um inquérito da PF sobre crimes previdenciários

Acesso a inquérito (29.ago.19)
O então advogado de Queiroz pede acesso ao inquérito que investiga o advogado do Rio Grande do Sul —Queiroz não é alvo

Porteiro do caso Marielle (out.19)
Em depoimento, um porteiro do condomínio onde Jair Bolsonaro tem casa, no Rio, menciona o nome do presidente na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Bolsonaro ataca a TV Globo, que revelou o depoimento, e o governador do Rio, seu ex-aliado Wilson Witzel, a quem acusa de manipular as investigações

Flávio e Queiroz são alvo da Promotoria (18.dez.19)
O senador e seu ex-assessor estão entre os alvos de operação da Promotoria do Rio que apura lavagem de dinheiro. Flávio teria lavado R$ 2,3 milhões com imóveis e loja de chocolates. A origem dos recursos estaria na “rachadinha” no antigo gabinete do deputado na Assembleia, operada por Queiroz

Caso Hélio Negão (fev.20)
Procuradoria pede o arquivamento do inquérito que apurava a inclusão do deputado federal Hélio Negão em inquérito da PF sobre crimes previdenciários

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