Descrição de chapéu

Vídeo complica Bolsonaro, faz subir preço do centrão e aponta radicalização

Mesmo que não se torne peça jurídica, favorecimento à família causa dano político evidente

São Paulo

A serem confirmados os relatos do que disse Jair Bolsonaro na reunião ministerial de 22 de abril acerca do real motivo para querer trocar o superintendente da Polícia Federal no Rio, o presidente terá fornecido um "casus belli" barulhento para quem o quer ver derrubado por improbidade administrativa.

Não chega a ser surpreendente que o chefe de Estado tenha colocado abertamente a prevalência de sua família sobre os assuntos do governo na frente de mais de duas dezenas de pessoas.

O presidente Jair Bolsonaro fala com jornalistas da rampa do Palácio do Planalto
O presidente Jair Bolsonaro fala com jornalistas da rampa do Palácio do Planalto - Pedro Ladeira/Folhapress

Ele já havia feito isso antes, como no episódio da indicação do filho Eduardo para a embaixada em Washington, e nas incontáveis interferências do clã em assuntos da administração. Seja via Twitter, seja a partir de festivos almoços de domingo que antecedem ataque institucionais.

Bolsonaro assim o é, e cúmplices de seu comportamento são todos os ministros lá presentes —com a relativa exceção daquele que jogou as migalhas de pão que levavam ao vídeo e seu bombástico conteúdo, Sergio Moro, que largou o osso dois dias depois.

Relativa pois o presidente poderia ter sido demovido por seus ministros militares da intenção de mexer com a encalacrada superintendência fluminense da PF. Neste caso, Moro ficaria quieto acerca das intenções do presidente, como permaneceram os seus colegas de Esplanada?

Isso agora é história contrafactual. O fato é que, salvo algum desvio nos relatos disponíveis, Bolsonaro está enrolado. Uma coisa é querer um novo diretor da PF porque o anterior não estava alinhado a suas ideias, sejam lá quais forem.

Isso é péssimo do ponto de vista republicano, mas ainda navega dentro de um escopo de legalidade. Outra coisa é dizer que precisa cuidar dos interesses de seus filhos e amigos.

Fica claro que os motivos alegados para esconder a peça, de suposto risco à segurança nacional, eram só uma cortina de fumaça.

Quem defende o presidente afirma que ele apenas se vê perseguido, e por isso volta e meia diz que "não mandou matar Marielle", como se fosse Bolsonaro, e não pessoas ligadas a seu ex-faz-tudo Fabrício Queiroz, o suspeito disso.

Pode ser, e o episódio do porteiro que mudou de versão sobre o contato de suspeitos com o "seu Jair" lhe dá o benefício da dúvida. Mas só a construção dessa sentença mostra a dificuldade de defesa política do presidente.

A alternativa, sonho de consumo dos opositores do Planalto, seria alguma implicação direta com o assassinato da vereadora do PSOL e seu motorista, em 2018, com a família presidencial. Por mais que Bolsonaro despreze o que pensam dele mundo afora, a pressão seria intolerável.

A questão agora é saber se, a partir do vídeo e dos depoimentos do caso, a Procuradoria-Geral da República imputará crime ao presidente.

Ninguém em Brasília aposta nisso, dadas as afinidades eletivas entre Augusto Aras e o presidente, e também pelo fato de que há desconfiança no Supremo Tribunal Federal acerca das intenções de Moro nessa crise.

Pesa ainda em favor de Bolsonaro o fato de que tal motivo para a guerra enfrenta a apatia generalizada do meio político. Quando Moro saiu do governo, aliados de Rodrigo Maia (DEM-RJ) diziam que o presidente da Câmara poderia aceitar uma abertura de processo de impeachment no caso de uma denúncia por crime de responsabilidade no Supremo.

Nas semanas subsequentes, o processo de compra do apoio do centrão com cargos sugeriu a inviabilidade de tal cenário. No momento, é bom enfatizar, pois o centrão também esteve com Dilma Rousseff até quando lhe foi conveniente, e em sua encarnação dos anos 1990 com Fernando Collor.

O apoio angariado pela ala militar do governo ao presidente no seu embate com os Poderes, apesar de diversos incômodos em relação ao serviço ativo das Forças que isso gera, também forneceu uma talvez ilusória sensação de reorganização do quadro político para Bolsonaro.

Ilusória porque Bolsonaro é Bolsonaro, com sua condução deliberada da crise do coronavírus para um estado de tragédia nacional, e por atos falhos como o registrado na reunião de 22 de abril.

A pressão econômica já está entre nós, assim como os cadávares da Covid-19, e pesquisas começam a indicar uma aceleração na rejeição do presidente.

É nesse contexto que precisa ser lido o impacto da autoincriminação sugerida no vídeo. O acirramento da crise tríplice do país, sanitária, econômica e política, ganhou mais um elemento na sua disputa contra as forças de contenções que sustentam Bolsonaro.

Mais concessões ao centrão e novos episódios de enfrentamento institucional para agradar sua base radical e assustar o "establishment" estão no preço dessa dinâmica. O problema, para Bolsonaro, é que seu padrão se tornou previsível e, no limite, insustentável sem ruptura real.

Ou, na ilusão do bolsonarismo raiz, a solução.

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