Ameaçado por pedidos de impeachment, Witzel demite ex-braço direito

Governador exonera Lucas Tristão, que foi coordenador de sua campanha e é alvo de investigação

Rio de Janeiro

Sob pressão de deputados e investigações criminais, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), exonerou nesta quarta-feira (3) seu principal aliado, o advogado Lucas Tristão, do comando da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

Tristão era braço direito de Witzel antes do governador deixar a magistratura para se candidatar. Coordenou a campanha do ex-juiz e chegou a ganhar força no governo mesmo após exposto seu relacionamento próximo com o empresário Mário Peixoto, preso no mês passado na Operação Favorito.

Lucas Tristão, ao lado do governador Wilson Witzel, durante reunião em Buenos Aires - Philippe Lima

O governador cedeu à pressão de deputados estaduais, que tinham um péssimo relacionamento com o secretário —a quem acusavam de fazer gravações ilegais contra membros da Assembleia Legislativa.

Witzel é alvo de dez pedidos de impeachment desde a Operação Placebo, da qual foi alvo principal junto com a primeira-dama Helena Witzel. Ele teve também as contas rejeitadas pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado), cuja recomendação precisa da aprovação de deputados. Caso referendada, o governador tem qualquer futura candidatura ameaçada em razão da Lei da Ficha Limpa.

O governador teve uma sinalização do esfacelamento de sua base no Legislativo na sessão desta terça, quando 17 de 18 vetos de Witzel foram derrubados.

A exoneração de Tristão foi publicada numa edição extra do Diário Oficial desta quarta cuja única informação é a demissão do ex-secretário —algo incomum no estado.

A saída do advogado abala também a permanência do recém-nomeado secretário de Fazenda, Guilherme Mercês, que era subsecretário da pasta de Tristão. A nomeação do economista foi feita na sexta (29), quando Witzel ainda inflava o poder de seu braço direito.

No mesmo dia o ex-deputado André Moura (PSC) foi exonerado da Casa Civil. Ele era o responsável pela interlocução com deputados.

A movimentação da semana passada levou ao pedido de exoneração do deputado Márcio Pacheco (PSC) da liderança do governo na Assembleia. Ele disse que não havia "condições de cumprir o papel de interlocutor no cenário que se avizinha [sob o comando de Tristão]".

Na Assembleia, circula a versão de que Witzel se sente ameaçado por Tristão, seu ex-aluno, porque ele guardaria segredos de sua campanha e práticas do governo.

Tristão se tornou alvo após a Operação Favorito expor seu relacionamento próximo com Mário Peixoto. Uma interceptação telefônica feita com autorização da Justiça no aparelho do filho do empresário mostrou que o ex-secretário furou a quarentena para se encontrar com o investigado.

Durante a campanha eleitoral de 2018, o advogado atuava em favor de empresa ligada a Peixoto na Justiça. De acordo com a investigação do Ministério Público Federal, o escritório de Tristão recebeu R$ 225 mil entre julho e outubro daquele ano.

A Folha revelou na sexta que, no mesmo ano, Witzel recebeu R$ 284 mil da firma de Tristão. O dinheiro repassado ao governador pelo escritório foi uma das justificativas usadas pelo então candidato para explicar como doou R$ 215 mil de recursos próprios para sua campanha mesmo tendo declarado à Justiça Eleitoral não ter dinheiro em conta.

O valor doado correspondia a mais da metade do patrimônio declarado, de R$ 400 mil, composto apenas por uma casa até hoje não vendida.

Tristão já circula no meio político com Witzel desde ao menos 2017. Naquele ano, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) publicou uma foto com os dois em seu antigo gabinete na Assembleia.

No governo, o ex-secretário acompanhava o governador em praticamente todas as viagens internacionais.

Witzel é investigado por supostas fraudes na contratação de uma organização social para a montagem e gestão de hospitais de campanha e pelo relacionamento de pessoas de seu entorno com Peixoto.

Além de Tristão, o MPF também vincula a primeira-dama ao empresário. O escritório de Helena firmou contrato de R$ 15 mil mensais por três anos com a empresa DPAD Serviços Diagnósticos, que a Procuradoria afirma ser vinculada a Peixoto.

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