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O que foi a Ditadura

Ataques à democracia põem Bolsonaro em xeque entre formadores de opinião, aponta Datafolha

Arroubos autoritários e descuido na pandemia desgastam presidente em segmento com voz forte

A opinião pública responde aos arroubos de autoritarismo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de parte minoritária de seus apoiadores com a defesa recorde da democracia frente a qualquer outra forma de governo.

Em pouco mais de 30 anos de acompanhamento pelo Datafolha, o percentual de defesa do sistema democrático frente à alternativa de uma ditadura nunca foi tão alto (75%), alcançando patamares próximos a 90% entre mais ricos e escolarizados, taxa que se aproxima dos 70% entre os mais pobres e com nível fundamental.

Apenas um em cada dez brasileiros adultos admite que, em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático.

O único subgrupo que mantém tendência inversa, de apoio a práticas antidemocráticas e valorização dos feitos da ditadura militar no Brasil, é o de devotos do presidente, os bolsonaristas mais ferrenhos, que correspondem hoje a 15% da população, segundo cálculo do Datafolha a partir de análise conjunta de respostas ao questionário aplicado.

Apesar de a maioria desses devotos do bolsonarismo dizerem que valorizam a democracia, a maioria deles por outro lado, diferentemente do restante da população, não vê como ameaça as manifestações pelo fechamento do Congresso e do STF, além de identificar mais realizações positivas do que negativas nos governos militares que conduziram o país de 1964 a 1985.

É o conjunto que mais demonstra tolerância a práticas autoritárias como proibição de greves, censura aos meios de comunicação tradicionais, extinção de partidos políticos e tortura. Só apresenta percentuais mais próximos à média ao condenar o controle das redes sociais.

Bolsonaro e seus propagadores referem-se com frequência a termos caros à democracia, como “liberdade de expressão”, para defender fake news ou manifestações antidemocráticas confundindo parte de seus adeptos.

Mas vale observar que, considerando todos os 32% que apoiam o atual governo, avaliando-o como ótimo ou bom, encontram-se taxas majoritárias de defesa de valores democráticos apresentados pela pesquisa.

Descartam, por exemplo, a chance de haver nova ditadura no país e condenam a hipótese de fechamento do STF. Reivindicações de grupos mais radicais representam, portanto, parcela minoritária do bolsonarismo, concentradas entre os mais devotos.

As mínimas oscilações de avaliação do governo no cômputo geral podem camuflar uma tendência importante em grupos minoritários, porém influentes, que, se confirmada em novos estudos, tem potencial de impacto sobre a dinâmica dos cenários político e eleitoral para os próximos meses.

Pela primeira vez desde o início do mandato, o presidente é reprovado pela maioria dos mais ricos, grupo que, junto aos mais escolarizados, compõem universo estratégico na formação da opinião pública, especialmente no modelo de comunicação priorizado por sua gestão, via redes sociais.

Nos primeiros levantamentos realizados pelo Datafolha após o início da pandemia, o instituto já detectava desgaste da imagem do presidente nesses segmentos que majoritariamente o elegeram em 2018.

No começo, a perda de apoio era mais nítida entre os que têm nível superior de escolaridade com relativa resiliência entre os mais ricos, onde a polarização de opiniões era explícita.

Agora, eles deixam de ser o segmento que mais aprova Bolsonaro e apresentam taxas de avaliação positiva equivalentes aos dos demais estratos —no último mês a popularidade de Bolsonaro caiu nove pontos percentuais entre os que têm renda superior a dez salários mínimos, enquanto entre os mais pobres oscilou apenas um ponto para baixo.

Como é um segmento de baixo peso quantitativo na composição do eleitorado (4%), o comportamento dos mais ricos não se reflete de maneira significativa no total da população.

Para aumentar a precisão estatística, o Datafolha agrupou os entrevistados com renda familiar superior a cinco salários mínimos. Quando o foco se dá nesse segmento, o índice dos que consideram o presidente ótimo ou bom recua cinco pontos percentuais no último mês, enquanto entre os que recebem até esse valor oscilou negativamente apenas um ponto. A maioria absoluta dos que têm maior renda passa a reprovar Bolsonaro.

Se dependesse apenas de seu eleitorado, o presidente teria hoje cerca de 23% de avaliação positiva, ou seja, nove pontos percentuais provêm dos que não votaram nele no segundo turno. Entre estes, a taxa de solicitação do auxílio emergencial é oito pontos superior à verificada entre os que votaram no presidente.

O efeito desse fenômeno sobre as mulheres mais pobres —as que mais solicitaram e receberam o auxílio emergencial— é revelador.

Apesar de serem mais críticas ao governo do que seus pares masculinos, a reprovação a Bolsonaro entre elas é inferior em 12 pontos percentuais se comparada às das mulheres mais ricas. São elas justamente as que mais rejeitavam Bolsonaro durante as eleições. Se dependesse apenas dos votos das mulheres de mais baixa renda Bolsonaro teria perdido a eleição, o que torna essa inversão foco de atenção.

Já o desgaste do presidente entre os mais escolarizados e de maior renda, por consequência mais informados, é resultado de um forte abalo de imagem que já vinha ocorrendo por conta de seu comportamento diante da pandemia e que se intensificou no último mês após a demissão do ex-ministro Sergio Moro, das mudanças na Polícia Federal, dos processos que envolvem a propagação de fake news em redes sociais, da prisão de Fabrício Queiroz e sua participação em atos antidemocráticos que pediam intervenção militar no Congresso e no STF.

O saldo é, ao contrário do que se verificava em abril do ano passado, que a maioria dos brasileiros hoje considera Bolsonaro despreparado (58%), incompetente (52%), indeciso (53%), pouco inteligente (54%) e, acima de tudo, autoritário (64%), com mudanças de percepção mais expressivas entre os mais prósperos. Há pouco mais de um ano, esse era o estrato que menos classificava o presidente como autoritário, por exemplo. Hoje, é o que mais o faz.

O futuro político do bolsonarismo está, por um lado, diretamente relacionado ao manejo do auxílio emergencial e também ao destino que se dará ao Bolsa Família, que determinarão em grande parte o comportamento eleitoral dos mais pobres, em especial das mulheres.

Mas o descuido no combate ao coronavírus e atitudes que atentem contra os princípios democráticos e morais também atuarão de forma efetiva sobre segmentos com voz forte nos humores da opinião pública.

Mauro Paulino e Alessandro Janoni

Diretor-geral do Datafolha e Diretor de Pesquisas do Datafolha

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