Descrição de chapéu O que foi a Ditadura

Bolsonaro criou clima de autocensura, dizem chargista e jornalista em live da Folha

Colunista do UOL Ricardo Kotscho e chargista João Montanaro debateram a censura na ditadura militar

São Paulo

Medo de passar a informação ou abordar temas específicos em um trabalho cultural. Essa já é uma realidade que ameaça a produção do pensamento e a livre expressão em território nacional, segundo o jornalista Ricardo Kotscho, colunista do UOL, e João Montanaro, chargista da Folha.

Eles participaram nesta quarta (1º) da terceira de cinco lives promovida pelo jornal sobre o período da ditadura militar. No debate, atribuíram o clima de preocupação de artistas e jornalistas a ações do governo Bolsonaro, entre elas ataques sistemáticos nos campos da cultura e da educação, mas também a ações de setores da sociedade civil, da Justiça e de grupos religiosos. Foram citadas manifestações pelo cancelamento de peças, exposições e filmes desde o ano de 2017.

Os debates acontecem sempre às 11h, com mediação de Fernanda Mena, repórter da Folha. O tema desta edição foi "A imprensa foi muito censurada durante a ditadura?".

O ambiente de repressão e censura já vinha se avolumando desde o golpe de 1964, lembrou Kotscho, mas após a edição do AI-5, em 1968, censores do regime militar passaram a impedir a publicação de notícias. Havia inclusive a presença de agentes da censura nas redações dos principais jornais brasileiros e circulava uma lista de temas não recomendados que o governo distribuída nas redações.

A palavra "recomendação" era um óbvio eufemismo para o impedimento da livre expressão, uma vez que os militares de fato vetavam todo tipo de publicação que não interessasse ao governo, ou conteúdos considerados subversivos e imorais.

Tornou-se comum que, no lugar das notícias, os jornais publicassem receitas de bolo ou trechos de poemas, indicando a intervenção censora. Ao longo de uma década, entre 1968 e 1978, quando vigorou o AI-5, foram censurados cerca de 500 filmes e mais de 400 peças de teatro, além de livros e revistas.

O QUE FOI A DITADURA - Ricardo Kotscho e Joao Maontanaro
Ricardo Kotscho e Joao Montanaro debatem censura à imprensa durante ditadura nesta quarta (1º), às 11h - Núcleo de Imagem

Jornalista há 55 anos, agraciado quatro vezes pelo Prêmio Esso e autor de 19 livros, entre eles "Do Golpe ao Planalto: Uma Vida de Repórter" (ed. Companhia das Letras), Kotscho defendeu que há nos dias de hoje, por causa de ações do governo, uma atmosfera que faz lembrar o período da ditadura.

O chargista João Montanaro, que começou a publicar na Folha ​em 2010, quando tinha 13 anos, complementou essa teoria citando um episódio recente. Como os cartunistas Laerte, Alberto Benett e Claudio Mor, ele foi interpelado na Justiça pela publicação de charges críticas à violência policial no Brasil em dezembro de 2019.

A Associação de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar havia entrado na Justiça com pedido de esclarecimento criminal para que o Grupo Folha e os artistas explicassem os trabalhos, considerados pela entidade como constrangedores.

Em outro episódio recente, o ministro da Justiça, André Mendonça, baseou-se na Lei de Segurança Nacional para pedir uma investigação sobre uma charge do cartunista Renato Aroeira que mostrava Bolsonaro transformando a cruz vermelha usada em hospitais em uma suástica, símbolo do nazismo.

A imagem fazia referência a uma transmissão ao vivo feita pelo presidente nas redes sociais no dia 11 de junho, incentivando cidadãos a invadirem hospitais e unidades de saúde.

"Acho que ainda não é a mesma coisa [não é igual à censura praticada na ditadura], mas vai por vias parecidas", afirma Montanaro. O chargista diz que agora pensa duas vezes antes de produzir um trabalho. "Será que vou ter que lidar com isso de novo nos próximos desenhos?", ele se questiona.

"A gente percebe que a censura começa a tomar essas diversas formas, ela não precisa ser oficial, não precisa ser do governo, vem de diversas entidades e classes", prossegue.

"Agora João está pensando duas vezes na hora de fazer um desenho. Sinto no ar a volta daquele clima", diz Kotscho, atribuindo sua preocupação não apenas a ataques do governo a obras e pensadores, mas também a forma como Bolsonaro vem sistematicamente esvaziando os incentivos ao pensamento científico e à produção cultural desde que assumiu a presidência.

Combina-se a esse ambiente hostil à livre expressão uma massiva produção de informações falsas nas redes ou sem lastro científico e também a resistência do governo em divulgar dados oficiais. Kotscho comparou a tentativa do governo militar de ocultar um surto de meningite nos anos 1970 a forma como o governo hoje não apenas minimiza os problemas decorrentes da pandemia do novo coronavírus, mas também dificulta a obtenção de dados oficiais pela imprensa.

"Nós temos hoje uma intervenção militar no Ministério da Saúde. A primeira coisa que o general [Eduardo Pazuello] tentou fazer foi não divulgar os dados certos sobre a pandemia do coronavírus, e aí a Justiça o obrigou a divulgar", diz Kotscho, em comparação com a situação causada pelo surto de meningite nos anos 1970.

A série de lives faz parte de uma campanha em defesa da democracia lançada pela Folha.

No último fim de semana, foi publicado o projeto especial "O que Foi a Ditadura", com reportagens sobre o período autoritário encerrado em 1985. Também foi lançado um curso online gratuito a respeito do regime.

Veja a programação das lives

Às 11h, com duração de 50 min; a série será transmitida no site da Folha e no canal do jornal no YouTube

QUA, DIA 1º
A imprensa foi muito censurada durante a ditadura?

Ricardo Kotscho
Colunista do UOL, ganhou quatro vezes o prêmio Esso

Joao Montanaro
Chargista da Folha

QUI, DIA 2
Por que nós, brasileiros, sabemos tão pouco sobre a ditadura?

Maria Rita Kehl
Psicanalista e escritora, integrou a Comissão Nacional da Verdade

Maria Bopp
Atriz e roteirista, faz vídeos em que interpreta a personagem Blogueirinha do Fim do Mundo

SEX, DIA 3
Estamos próximos de um novo regime autoritário?

Flavia Lima
Ombudsman da Folha

Tabata Amaral
Deputada federal (PDT) e colunista da Folha

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