Flávio Bolsonaro contrata ex-advogado de Sérgio Cabral para lugar de Wassef

Advogado Rodrigo Roca defendeu o ex-governador do Rio de Janeiro até 2018

Rio de Janeiro

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) contratou na noite deste domingo (21) o advogado Rodrigo Roca em substituição ao criminalista Frederick Wassef.

Amigo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Wassef é dono do escritório onde Fabrício Queiroz foi preso na última quinta-feira (18) em Atibaia (SP).

Segundo a polícia, Queiroz estava hospedado por Wassef havia mais de um ano. O criminalista vinha negando a informação, sem explicar como o ex-assessor de Flávio chegou até o imóvel. Na noite desta segunda-feira (22), porém, afirmou, em entrevista ao SBT, que o abrigou por uma "questão humanitária".

"Porque [é] uma pessoa que está abandonada, uma pessoa sem recursos financeiros, com problemas de saúde e que o local era perto", afirmou. Ele disse ainda que não cometeu nenhum crime.

Já Roca foi advogado de Sérgio Cabral (MDB) até 2018, quando o ex-governador do Rio de Janeiro decidiu fazer delação, contrariando sua estratégia de defesa à época. Ele segue preso.

Roca é ainda advogado de Maria Joselita Brilhante Ustra, viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), torturador durante o regime militar homenageado pelo então deputado federal Jair Bolsonaro em seu voto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.

O novo advogado de Flávio atuará em parceria com Luciana Pires, que já defende o senador no processo das "rachadinhas". Ex-sócia de Roca, ela é autora da ação para que o caso seja remetido ao colegiado especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o que retardaria seu andamento.

Os dois integram o grupo Bandeira de Mello, responsável pela defesa de militares em todo o Brasil. Entre eles, os réus do atentado do Riocentro, uma tentativa frustrada de explosão de bomba durante a comemoração do Dia do Trabalho em 30 de abril de 1981.

Luciana acompanhou o general reformado Nilton Cerqueira em seu depoimento à Comissão da Verdade. Cerqueira calou-se.

Amiga de Flávio, foi Luciana quem apresentou Roca ao senador. O encontro aconteceu na semana passada, em uma demonstração de que o filho do presidente já estudava a substituição de Wassef.

O advogado Frederick Wassef, ligado à família Bolsonaro
O advogado Frederick Wassef, ligado à família Bolsonaro - Bruno Santos - 23.jul.2019/Folhapress

Apesar dos rumores de que deixou a defesa de Flávio por decisão do presidente Bolsonaro, Wassef, bem como Flávio, sustenta publicamente a versão de que essa foi uma decisão sua.

“Não posso permitir que me usem para prejudicar o presidente. Deixo a defesa para proteger os interesses de Flávio”, disse o advogado.

Disposto a evitar qualquer mal-estar com seu antigo defensor, o senador lamentou a saída de Wassef e disse que defendia a sua manutenção no caso. Em postagem nas redes sociais, Flávio afirmou que a lealdade e competência de Wassef são insubstituíveis, mas que, contra sua vontade, o advogado deixa a causa.

O gesto do senador é uma tentativa de evitar mal-estar com Wassef, especialmente depois que a advogada Karina Kufa divulgou uma nota afirmando ser a legítima representante legal do presidente Bolsonaro

Na noite de domingo, Wassef voltou a negar qualquer contato com Queiroz, sem explicar por que ele estava em seu escritório.

Até a prisão de Queiroz, Wassef tinha pelo menos nove procurações para advogar em nome do clã Bolsonaro. Eram três de Bolsonaro, três de Flávio e outras três assinadas pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Sua relação com os Bolsonaros extrapola, porém, o campo jurídico. Amigo do presidente há seis anos, Wassef deixa marca de sua influência até na estrutura do governo, já que foi ele quem apresentou o secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fábio Wajngarten, ao então deputado Jair Bolsonaro.

Wassef orgulha-se de ter sido, em sua versão, o primeiro a incentivar a candidatura de Bolsonaro à Presidência. O criminalista, que tomou a iniciativa de se aproximar de Bolsonaro em 2014, declara amor ao presidente —segundo ele, um homem puro, até ingênuo.

O advogado é, por exemplo, apontado como o responsável pela opção de Bolsonaro pelo Hospital Albert Eistein quando o então candidato à Presidência foi esfaqueado em atividade de campanha em Juiz de Fora (MG), rejeitando oferta para que fosse transferido para o Hospital Sírio-Libanês.

Foi ele também quem ditou a estratégia jurídica de Flávio, vencendo uma queda de braço com o então presidente do PSL e também advogado Gustavo Bebianno, morto em março de 2020.

Queiroz é apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como operador financeiro da suposta “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio na Assembleia, onde ele exerceu mandato de deputado estadual entre fevereiro de 2003 e janeiro de 2019.

A “rachadinha” é a prática de recolhimento de parte dos salários de assessores de um gabinete para fins diversos. No caso do filho do presidente, a suspeita é de que o senador era o beneficiário final da maior parte dos valores.

Tanto Wassef como a família Bolsonaro afirmavam que não tinham contato com Queiroz desde que o suposto esquema de "rachadinha" no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio veio à tona, no final de 2018.

Em recente entrevista à Folha, no início de maio, questionado se havia se reunido com advogados de Queiroz ou com alguém ligado a ele, Wassef respondeu que não. Em seguida, indagado se Flávio havia rompido com Queiroz, advogado disse: "Nunca mais. Desde o fim de 2018, nunca mais ninguém da família Bolsonaro teve qualquer contato o senhor Queiroz."

Flávio é investigado desde janeiro de 2018 sob a suspeita de recolher parte do salário de seus subordinados na Assembleia do Rio de 2007 a 2018. Os crimes em apuração são peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e organização criminosa.

A apuração relacionada a Flávio começou após relatório do antigo Coaf, hoje ligado ao Banco Central, indicar movimentação financeira atípica de Fabrício Queiroz, seu ex-assessor e amigo do presidente Jair Bolsonaro.

Além do volume movimentado, de R$ 1,2 milhão em um ano, chamou a atenção a forma com que as operações se davam: depósitos e saques em dinheiro vivo em datas próximas do pagamento de servidores da Assembleia.

Queiroz afirmou que recebia parte dos valores dos salários dos colegas de gabinete. Ele diz que usava esse dinheiro para remunerar assessores informais de Flávio, sem conhecimento do então deputado estadual. A sua defesa, contudo, nunca apontou os beneficiários finais dos valores.

Jair Bolsonaro e Queiroz se conhecem desde 1984. Queiroz foi recruta do agora presidente na Brigada de Infantaria Paraquedista, do Exército. Depois, Bolsonaro seguiu a carreira política, e Queiroz entrou para a Polícia Militar do Rio de Janeiro, de onde já se aposentou.

Queiroz, que foi nomeado em 2007 e deixou o gabinete de Flávio no dia 15 de outubro de 2018, é amigo de longa data do atual presidente. Entre as movimentações milionárias que chamaram a atenção na conta de Queiroz está um cheque de R$ 24 mil repassado à primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Segundo o presidente, esse montante chegava a R$ 40 mil e o dinheiro se destinava a ele. Essa dívida não foi declarada no Imposto de Renda. Bolsonaro afirmou ainda que os recursos foram para a conta de Michelle porque ele não tem "tempo de sair".

Em nota, Flávio Bolsonaro disse que é "vítima de um grupo político que tem patrocinado uma verdadeira campanha de difamação". "Essas pessoas têm apenas um objetivo: recuperar o poder que perderam na última eleição", diz. Flávio afirmou que acredita na Justiça, que é inocente das acusações e que "é totalmente compatível com os seus rendimentos​".

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