Movimentos de esquerda, com Boulos, e torcedores ignoram pico da pandemia e mantêm ato anti-Bolsonaro em SP

Organizadores listam ações contra o coronavírus, como distribuição de máscara e álcool em gel, em protesto neste domingo (7)

São Paulo

A Frente Povo Sem Medo, membros de torcidas organizadas e movimentos negros mantêm suas convocações para manifestação contra o governo Jair Bolsonaro (sem partido) mesmo após o país bater recorde de mortos pelo coronavírus.

Nesta quinta-feira (4), o país chegou a 1.473 mortes em 24 horas, o que significa que a doença já mata mais de um brasileiro a cada minuto. O Brasil também cruzou a marca de 34 mil mortes e ultrapassou a Itália, país que simbolizou primeiro a tragédia da pandemia.

A aglomeração esperada na manifestação contraria as recomendações de médicos e especialistas para evitar a propagação do vírus. O ato, com bandeiras a favor da democracia e antifascista, está marcado para este domingo (7), às 14h, no Masp.

Pela manhã, no mesmo local, movimentos negros se manifestam contra o racismo, ecoando a onda de protestos vista nos Estados Unidos após a morte de George Floyd por um policial branco. Bolsonaristas também devem se manifestar na avenida Paulista, em frente à Fiesp, às 11h do domingo.

A Frente Povo Sem Medo, liderada por Guilherme Boulos (PSOL), que foi candidato à Presidência em 2018 e pode concorrer à Prefeitura de São Paulo neste ano, argumenta que a manifestação terá uma série de medidas para evitar a propagação do vírus.

Os organizadores prometem distribuição de 4.000 máscaras feitas por coperativas de costureiras e álcool em gel. Também haverá uma brigada que atua na área da saúde para orientar o distanciamento mínimo entre os manifestantes.

"Temos preocupação muito grande com isso, não é nosso intuito contribuir com a disseminação do vírus. Sabemos que não é ideal, mas vamos tomar todos os cuidados para que a aglomeração não leve a isso", afirma Guilherme Simões, da Frente Povo Sem Medo e do coletivo negro do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto).

"Bolsonaro e seus seguidores estão na rua durante a pandemia sem cuidado, sem máscara, pegando na mão de pessoas", diz Simões, referindo-se ao comportamento do presidente, que costuma participar de manifestações a seu favor e provocar aglomerações em saídas por Brasília.

Desde o início da pandemia, bolsonaristas organizam manifestações aos fins de semana em São Paulo e em Brasília. Até agora, o poder público não dissipou ou proibiu os atos sob a justificativa de não haver aglomeração na crise sanitária.

“O Ministério Público reconhece o direito de manifestação mesmo em tempo de pandemia, desde que regras sanitárias sejam seguidas”, afirmou o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Marcio Sarrubbo à Folha, mencionando o uso de máscaras e o distanciamento.

Danilo Pássaro, do Somos Democracia, movimento de corinthianos, também lista ações contra o coronavírus na manifestação. "No caminhão de som, vamos ressaltar o tempo todo a orientação de manter mínima distância. E vai ser uma manifestação rápida, vamos dispersar rapidamente", afirma.

Nesta quinta (4), líderes de partidos de oposição (PSB, PDT, Cidadania, Rede e PSD) publicaram nota pedindo que as pessoas não compareçam às manifestações devido ao risco de contaminação, embora apoiem as iniciativas a favor da democracia e contra Bolsonaro, como manifestos.

Como mostrou o Painel, os movimentos suprapartidários a favor da democracia, que impulsionaram os manifestos surgidos nos últimos dias, também não recomendam ir à manifestação por causa da pandemia.

Já o PT, como mostrou a coluna Mônica Bergamo, decidiu apoiar as manifestações de rua, abrindo uma dissidência com os partidos de oposição. "Considerando as condições impostas pela pandemia, recomendamos que os participantes das manifestações observem da melhor maneira possível, as medidas recomendadas pela OMS, como uso de máscaras e o distanciamento social", diz uma nota do partido.

Os organizadores do protesto afirmam respeitar a posição daqueles que são contra sair às ruas neste momento e dizem compartilhar da preocupação sanitária, mas defendem sua convocação.

"É grave provocar aglomeração, mas é mais grave permenecer passivo vendo essa escalada autoritária que pode desembocar em quebra da ordem democrática", diz Pássaro.

"O ato se justifica na medida em que é visto um recrudescimento das posições autoritárias e antidemocráticas de Bolsonaro e seus seguidores. Apesar do momento sanitário, é fundamental defender a democracia, então estamos conclamando para ir às ruas, mas com prevenção e cuidado", afirma Simões.

"Não podemos deixar que o fascismo galopante que estamos vendo tome conta das ruas e da opinião pública. Há uma ânsia grande de uma parcela da sociedade em fazer essa defesa", completa.

Simões afirma ainda que "a questão de valorizar a vida negra também tem que estar na ordem do dia". Ele menciona as recentes mortes de crianças negras no país —Miguel Santana da Silva, 5, no Recife, e João Pedro Matos Pinto, 14, no Rio.

No domingo passado (31), um ato contra Bolsonaro convocado por torcidas organizadas acabou sendo dispersado por bombas de gás lançadas pela PM paulista. Na avenida Paulista, também havia uma manifestação a favor de Bolsonaro e houve conflito entre as partes.

No próximo domingo, o cenário pode se repetir. Contrariando a determinação do governador João Doria (PSDB) de que manifestações opostas não acontecessem no mesmo dia e local, grupos contra e a favor do presidente mantiveram suas convocações para o domingo na avenida Paulista.

Em reunião nesta sexta-feira (5) entre os organizadores de ambos os lados, convocada pela Polícia Militar e pelo Ministério Público, nenhum grupo cedeu aos apelos para remarcar seus atos para outro dia ou local.

O ato bolsonarista é convocado por grupos minoritários e que defendem golpe militar. A maior parte dos apoiadores do presidente que costuma participar das manifestações em São Paulo, organizados em grandes grupos já conhecidos, decidiu não comparecer no domingo para evitar confusão.

Na reunião, ficou acertado que a PM isolará os dois atos. A PM também informnou aos organizadores que fará revista na saída das estações para apreender armas e objetos que possam ser usados para agressão.

Bolsonaro já havia pedido aos seus apoiadores que não fizessem manifestações neste fim de semana e ficassem em casa para evitar confrontos. Nesta sexta, ele voltou a reforçar isso e cobrou que a Polícia Militar faça "seu devido trabalho" nos atos contra seu governo.

O presidente pediu ajuda das PMs nos estados e disse que vai usar forças de segurança federais contra manifestantes que, no domingo, extrapolarem os "limites da lei" em atos contra o seu governo.

Bolsonaro afirmou que os manifestantes contra seu governo "geralmente são marginais, maconheiros, desocupados que não sabem o que é economia, o que é trabalhar para ganhar seu pão de cada dia". "Querem quebrar o Brasil em nome de uma democracia que nunca souberam o que é e nunca zelaram por ela", disse.

Bolsonaro tem trabalhado com aliados uma estratégia para tentar diferenciar esses atos das manifestações semanais de seus apoiadores. Com isso, Bolsonaro tentará insistir na tese de que os que o apoiam têm como hábito organizar movimentos pacíficos, enquanto a oposição adota métodos violentos.

Na terça-feira (2), o presidente classificou atos contra seu governo de “marginais e terroristas”.

Na noite desta sexta, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e outras entidades divulgaram uma nota dizendo-se contrárias à realização de atos de rua neste momento, por causa dos riscos relacionados à pandemia.

"O desejo cidadão de flexibilizar o isolamento social para sair às ruas em defesa da democracia e da Constituição não pode ser realizado agora, considerando-se os riscos de contaminação", diz o texto das organizações, que formam um grupo chamado Pacto pela Vida e pelo Brasil.

Segundo elas, o desejo de se manifestar "é uma atitude legítima diante do discurso autoritário que se alastra pelo país", entretanto "não se deve cair na armadilha de grupos extremados, cujo único objetivo é o de provocar confrontos, gerando instabilidade e comprometendo a cidadania".

O posicionamento é endossado pela Comissão Arns de Defesa dos Direitos Humanos, pela ABC (Academia Brasileira de Ciências), pela ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

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