Oposição que atacava atos bolsonaristas na pandemia agora ignora aglomerações antigoverno; relembre

Políticos que criticavam presidente por desrespeitar isolamento se omitem sobre aglomerações em atos contra governo

São Paulo

Políticos de oposição que criticaram Jair Bolsonaro e seus aliados por promover aglomerações e desrespeitar medidas de isolamento durante a pandemia do coronavírus adotaram uma nova postura diante de protestos antigoverno.

Se a conduta de bolsonaristas era vista como uma irresponsabilidade diante da crise sanitária, agora os atos que se autodenominam pró-democracia são apoiados ou encarados com silêncio por alguns desses antigos críticos dos riscos de concentrações populares devido à Covid.

Entre os que criticaram Bolsonaro e agora apoiam as manifestações de rua estão figuras como os ex-presidenciável Guilherme Boulos, o deputado federal Marcelo Freixo, ambos do PSOL, além de diferentes líderes do PT.

Para eles, a reação se tornou inevitável diante de uma escalada contra a democracia. Outros, como Luciano Huck e a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), também repudiavam a conduta de bolsonaristas, mas agora se calaram diante dos protestos antigoverno.

Uma terceira parte de políticos de oposição, como Ciro Gomes (PDT) e o deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ), mantêm aos novos atos as críticas feitas anteriormente às manifestações a favor de Bolsonaro.

Apesar das críticas pelas aglomerações, novas manifestações estão previstas nas capitais neste final de semana, com a orientação para usar máscara e álcool gel e manter distanciamento para reduzir o risco de contágio. A expectativa dos organizadores é transformar os atos numa reação prolongada anti-Bolsonaro.

Veja a seguir algumas dessas declarações da oposição. ​

Fernando Haddad

Em 15 de março, quando bolsonaristas realizaram atos pelo país, o ex-presidenciável do PT publicou uma crítica no Twitter. “Coronavírus ganha reforço do bolsonavírus neste domingo”, escreveu.

Já em 31 de maio, quando torcidas organizadas realizaram um ato na avenida Paulista contra o governo, Haddad elogiou o movimento e criticou a reação da Polícia Militar, que jogou bombas de gás sobre os manifestantes.

Na semana seguinte, após novos atos contra o governo, Haddad escreveu que um boneco do presidente pendurado pelos pés na manifestação em São Paulo era um símbolo do “antifascismo” e que o grupo tinha como causa salvar vidas e a economia do Brasil.

Gleisi Hoffmann

A deputada federal pelo Paraná e presidente nacional do PT também se manifestou sobre os atos de março, dizendo que Bolsonaro não se importava em espalhar o coronavírus. “É irresponsável! Vamos escutar e apoiar os médicos, nossos cientistas, enfermeiros e enfermeiras e profissionais da saúde.”

Em relação aos atos contra o governo, agora, Gleisi afirmou que o partido apoiava as manifestações e orientava que os cuidados fossem redobrados para evitar o contágio e possíveis infiltrados.

Guilherme Boulos

Nos meses de março e abril, o ex-presidenciável e coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) e da Frente Povo Sem Medo criticou Bolsonaro por sair pelas ruas sem máscara e contrariar as orientações sanitárias.

Em junho, ao defender as manifestações contra o governo, Boulos disse ter noção da gravidade da pandemia, mas que não era possível normalizar “gente defendendo AI-5 e agredindo opositores, jornalistas e enfermeiras em praça pública”.

Em um vídeo para divulgar os atos de 7 de junho, ele disse que era absurdo dizer que as manifestações seriam iguais às feitas por bolsonaristas, defendendo uso de máscara e distanciamento nos atos. No dia do protesto, Boulos disse que, na maior parte do tempo, foi possível garantir o distanciamento entre as pessoas.

A Folha esteve nas manifestações e verificou que, apesar das marcações feitas no chão no Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, houve aglomeração no local, o que é possível observar também no vídeo da fala de Boulos no ato, divulgado por ele nas redes sociais.

Lula

O ex-presidente também tem defendido o isolamento social para evitar a disseminação do vírus. Em abril, Lula escreveu que “bolsonaristas fanáticos que vão pra rua festejar a morte” não podem ser confundidos com pessoas que exercem funções essenciais ou não tem renda para ficar em casa. No mesmo mês, ele definiu o isolamento como "a única bala de prata contra o vírus".

Lula não compartilhou a nota do PT em apoio às manifestações, mas em um post no Instagram no final de maio, ele incentiva uma reação. “Os golpistas já colocaram o pé na nossa varanda. Se não houver reação, eles arrombarão a nossa porta”, disse.

Marcelo Freixo

O deputado federal pelo PSOL do Rio também fez criticou a presença de Bolsonaro nos atos de 15 de março, classificando o presidente como “um irresponsável que está se lixando para a vida dos brasileiros”.

No mês seguinte, Freixo também criticou as carreatas de bolsonaristas pedindo a reabertura do comércio, afirmando que as mesmas colocavam em risco a vida dos brasileiros e “não só dos lunáticos que participam delas”, usando a hashtag #CarreataDoVírus.

No dia dos atos promovidos pela esquerda, o deputado atribuiu a Bolsonaro a responsabilidade pelos manifestantes irem às ruas. “Só há ato antifascista porque um golpe fascista está em curso”, escreveu.

Sâmia Bomfim

Em março, a deputada federal pelo PSOL de São Paulo criticou Bolsonaro por circular entre as pessoas em Brasília. Para ela, ao fazer isso o presidente “estimula as pessoas a romper o isolamento social, o que as coloca em risco de contágio pelo coronavírus”, acusando-o de genocídio. Ela também defendeu o auxílio emergencial para garantir que as pessoas pudessem ficar em casa.

Já em junho, após a convocação do ato contra o governo, a deputada respondeu seguidores que acusavam a esquerda de contradição, por defender o isolamento e convocar manifestações durante a quarentena. Sâmia disse que também estava preocupada com o risco de contágio, mas que os organizadores estariam atentos às questões sanitárias.

A deputada afirmou ainda que muitas pessoas nunca tiveram direito de isolamento por causa de Bolsonaro, se referindo àqueles que não receberam o auxílio do governo.

Tabata Amaral

Bolsonaro também foi criticado pela deputada federal do PDT de São Paulo. Em abril, ela escreveu que ao invés de apresentar soluções, o mandatário participava de mais uma manifestação “contra as instituições democráticas, expõe as pessoas ao vírus e incentiva o fim do isolamento”. Ela encerrou a publicação chamando Bolsonaro de "psicopata" e usando a hashtag #CarreataDoVírus.

A parlamentar seguiu com as críticas e, no dia 31 de maio, após a Polícia Militar atirar bombas contra manifestantes na Avenida Paulista, Tabata atribuiu a responsabilidade a Bolsonaro, por participar de atos antidemocráticos. “Como democratas, não podemos tolerar mais essa escalada autoritária. Somos maioria e já estamos nos unindo em defesa da nossa democracia”, disse.

Luciano Huck

O apresentador da Rede Globo, apontado como presidenciável para as eleições de 2022, usou o Twitter para criticar bolsonaristas que foram às ruas no dia 15 de março, dizendo que fosse às ruas naquele momento poderia “estar matando alguns idosos daqui a algumas semanas” e elevando a própria chance de ficar sem emprego. Huck acrescentou que aquela mensagem era para o bem e saúde de todos, independentemente de ideologias.

Apesar de se pronunciar outras vezes sobre a necessidade do isolamento, o apresentador não fez comentários sobre os atos contra o governo.

Críticos das manifestações

Alessandro Molon

Assim como outros parlamentares, o deputado federal pelo PSB do Rio criticou Bolsonaro por desdenhar do coronavírus e acusou o presidente de estimular a ida das pessoas às manifestações. “Parece que seus interesses políticos estão acima do cuidado com a saúde dos brasileiros”, escreveu em março.

Após a convocação de atos contra o governo, Molon compartilhou o posicionamento do partido e de outras entidades, como a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a Comissão Arns, para alertar que não era o momento e ir às ruas. “Aglomerações espalham o coronavírus”, disse.

Ciro Gomes

Na semana que antecedeu os atos contra o governo, Ciro disse em uma transmissão no Instagram que haveria um momento em que seria preciso que toda a população estivesse nas ruas, mas que não era aquele, por haver risco de emitir um “sinal trocado” para a população, a exemplo de Bolsonaro.

Em 7 de junho, ele tuitou que fazer pressão por mais testes e isolamento eram formas de salvar vidas. Em entrevista à Folha, disse que o ideal seria ir para rua só a partir de agosto ou setembro, afirmando que no momento a população estava desorientada pelo debate irresponsável de Bolsonaro sobre o isolamento social.

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