Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Paraquedista que emocionou Bolsonaro morreu em salto decisivo para alcançar sonho

Pedro Lucas Chaves, de 19 anos, sofreu acidente no último exercício exigido para que se formasse

Rio de Janeiro

Às 3h51 de sábado (20), o telefone de Alynne tocou. “Pedro, você tá bem, meu filho? Você já saltou à noite?”, ela perguntou. “Já mãe, agora só falta o último salto, que é armado e equipado. Às 4h tenho que estar pronto para pegar o fuzil e, depois que acabar, vou para casa.”

Preocupada, ela questionou se o filho sentiu medo nos dois saltos do dia anterior. A resposta foi sim, no começo, afinal ele nunca tinha andado de avião. Mas depois de pular foi “a maior paz”. Ele prometeu que contaria os detalhes ao chegar em casa, mas nunca chegou.

Na manhã daquele dia, Pedro fez o último salto que lhe permitiria se formar e finalmente o levaria para onde sempre quis estar: as fileiras da Brigada de Infantaria Paraquedista brasileira. Acabou sendo o último salto de sua vida.

Pedro Lucas Ferreira Chaves, 19, morreu depois de ficar preso na aeronave e ver três paraquedas serem insuficientes, segundo a mãe, em um imprevisto raríssimo.

O presidente Jair Bolsonaro, que foi paraquedista no fim da década de 1970 e também já sofreu um acidente, alterou sua agenda e foi ao Rio de Janeiro para o velório no domingo (21).

Uma semana depois, Alynne Soares, 36, ainda aguarda a mesma ligação de madrugada. “Essa ligação acaba comigo, porque toda noite às 3h51 eu estou esperando ele me ligar”, diz a mãe, sem conseguir segurar o soluço e a rouquidão de quem chora há dias.

Ela diz que não entende nada do assunto, mas o padrasto de Pedro é paraquedista da reserva do Exército e lhe explicou o que aconteceu. Assim que saltou, antes de acionar o paraquedas principal, o jovem ficou preso e pendurado na parte traseira da aeronave.

Seguindo o protocolo, seu filho colocou a mão no capacete e no peito para mostrar que estava consciente. Os outros tripulantes então começaram a adotar o procedimento de emergência, que consiste em conectar um outro paraquedas de salvamento (T-10) ao paraquedista e cortar a fita presa para que o equipamento abra. Ele falhou.

Como estava acordado, Pedro ainda teria tentado acionar um terceiro paraquedas reserva em sua mochila, que “charutou”, ou seja, também não abriu corretamente. O jovem sofreu um grande impacto ao chegar ao solo, foi socorrido imediatamente e levado ao hospital, mas não resistiu. Vídeos gravados do chão mostram o acidente.

Procurado para confirmar como tudo aconteceu, o Comando Militar do Leste respondeu que não comenta investigações em curso —foi aberto um Inquérito Policial Militar para apurar o caso. Eles dizem que estão prestando todo o apoio psicológico e religioso à família e sentem-se consternados pela perda.

“Eu realmente preciso acreditar que ele caiu, mas caiu nos braços do Senhor”, diz Alynne em busca de conforto. “Para três paraquedas não abrirem com o meu filho é porque Deus tinha que recolher ele. O Pedro estava ciente, porque não fez planos para o futuro, ser paraquedista era o único plano que ele tinha.”

Apesar da pouca idade, o paraquedismo era a vida de Pedro, que só respondia ao apelido de “PQD” entre a família e os amigos. Ele cresceu ouvindo as histórias do padrasto e do tio que serviu na Aeronáutica, vivia em eventos militares e pediu até uma festa com o tema ao completar cinco anos de idade.

O sonho começou a se concretizar em março deste ano, quando ele enfim entrou para o Exército. A mãe hoje agradece por ter sido demitida do emprego de recepcionista na mesma época, por causa da pandemia do novo coronavírus, e ter ficado mais perto dele nos últimos três meses.

Nesse período a família acordava todos os dias às 5h, tomava café e levava o jovem até a Vila Militar, a cerca de 15 minutos da casa no bairro do Pechincha (zona oeste do Rio). Lá ele passou por treinamentos, estágios e acampamentos. O último passo eram os três saltos.

Como Pedro concluiu o processo, a mãe diz que ele ganhou o número de paraquedista 92.798 e “vai estar lá” no dia 15 de agosto de alguma forma para a cerimônia de brevetação (formatura). A família recebeu no velório o “boot” (bota marrom) e a boina vermelha que identificam a brigada.

Na ocasião, Bolsonaro fez um discurso emocionado, disse que a missão das Forças Armadas é defender a democracia e prestou continência ao soldado. “Ele aqui, ao buscar vencer um obstáculo, se preparava, treinava, se empenhava, sofria, mas tinha um objetivo: formar-se e ser um militar da nossa gloriosa Brigada de Infantaria Paraquedista”, declarou.

Alynne, que votou no presidente, gostou da presença. “Recebi ele como pessoa. Ele não tinha obrigação nenhuma de estar ali, poderia ter mandado mensagem ou um porta-voz, mas fez questão. Ele me abraçou e chorou junto comigo. Isso para mim não tem preço, você sentir que a pessoa sente a sua dor."

Ela pediu que Bolsonaro chegasse em casa e solicitasse à primeira-dama Michelle que rezasse para que Pedro fosse recebido em um bom lugar, “porque ele era um menino bom”. Enlutada, não conseguiu entender o discurso do presidente naquela hora, só quando assistiu a ele na internet.

Fora do Exército, Pedro era um menino obediente, calmo e sem maldade, diz a mãe. Não gostava de farra e preferia passar o tempo jogando no computador ou “na resenha” com os amigos, empinando pipa e fazendo churrasco. “Não deu tempo de ele se contaminar com as maldades desse mundo.”

Alynne o teve com 16 anos. O pai morreu em um acidente um ano depois, e o menino foi criado em grande parte pelos avós maternos. Nos últimos tempos, Pedro vinha passando os finais de semana com eles e o resto dos dias com a mãe, o padrasto e os três meios-irmãos mais novos.

“Às vezes ele pegava o carro e ia jantar na casa da minha mãe. Jantava duas vezes porque não queria desagradar ninguém”, conta. O jovem estudou a vida inteira em colégio particular, mas no ensino médio pediu para trocar para uma escola pública, porque não gostava muito de estudar.

A mãe releu nesses dias todas as mensagens que já trocou com o filho. Em setembro, ele enviou a foto do aniversário de cinco anos, fardado.

“Mãe, tá chegando a hora, vou realizar meu sonho”, escreveu. Em outra imagem ainda criança, ele aparece desenhando seu nome no chão da Base Aérea dos Afonsos, mesmo lugar onde morreu.

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