Descrição de chapéu O que foi a Ditadura

Vestígios da ditadura militar em SP incluem memoriais, celas e vala clandestina

Locais que guardam a memória dos anos de chumbo na cidade estão fechados temporariamente por causa da pandemia

Manifestantes em frente ao Masp, na avenida Paulista, durante protesto contra o governo Bolsonaro neste sábado (4) Adriano Vizoni/Folhapress

São Paulo

Com olhos e ouvidos atentos, quem for do extremo norte de São Paulo até os bairros ao sul pode encontrar vestígios da ditadura militar (1964-1985) por toda a cidade.

Uma das avenidas que formam a marginal Tietê, por exemplo, homenageia o general que inaugurou o período autoritário: o presidente Castelo Branco.

Já no centro, o Minhocão possui desde 2016 o nome oficial de Elevado Presidente João Goulart. Antes de receber o nome do mandatário derrubado pelo golpe de 1964, a via homenageava o general Costa e Silva, que decretou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), responsável pelo período de maior repressão do regime.

Talvez alguns locais históricos passassem batido. A rua Maria Antônia, que cruza com a Consolação, foi palco de um confronto entre estudantes da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1968.

A batalha terminou com a morte do jovem secundarista José Guimarães. Hoje, a única lembrança do que aconteceu é uma placa em homenagem aos mortos da ditadura, no prédio da USP.

Veja alguns dos locais que guardam a memória dos anos de chumbo na cidade. Com exceção de lugares abertos, os espaços estão fechados temporariamente por causa da pandemia do coronavírus.

Memorial da Resistência

No antigo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops-SP), há um acervo de documentos da repressão e da resistência da ditadura militar, o Memorial da Resistência.

Localizado perto da Estação da Luz, o prédio —que também abriga a estação Pinacoteca— foi sede de uma das polícias políticas mais violentas do país entre 1940 e 1983. No 4º andar, por exemplo, há uma sala que era usada para tortura.

Durante a visita, é possível entrar em réplicas das celas (construídas a partir da memória de ex-presos políticos), entender o funcionamento do antigo Dops e ouvir relatos de pessoas que foram encarceradas.

O centro de memória foi inaugurado em 2009, por demanda de pessoas perseguidas no período do regime.

Local: largo General Osório, 66, Santa Ifigênia
Horários: das 10h às 17h30, todos os dias, exceto às terças
Gratuito (fechado durante a pandemia)

Vala de Perus

A agência de turismo comunitária Queixadas oferece a Trilha Ditadura Nunca Mais, que percorre o Cemitério Dom Bosco apresentando a história da vala do bairro Perus, no extremo norte de São Paulo.

Ali, além de ossadas de vítimas da violência policial, foram encontrados corpos que haviam sido enterrados durante a ditadura militar. Até hoje, grande parte segue sem identificação. O caso foi revelado pelo repórter Caco Barcellos, da TV Globo, em 1990.

Na época, familiares de mortos e desaparecidos conseguiram, junto ao poder público, criar a Comissão Especial de Investigação das Ossadas de Perus.

Por ser uma agência comunitária, a Queixadas não trabalha com um preço fixo. É preciso entrar em contato para uma avaliação. Por conta da pandemia, as ações estão restritas às redes: a agência está realizando uma live por mês sobre as trilhas.

Local: Comunidade Cultural Quilombaque - Travessa Cambaratiba, 286, Perus
Instagram: @agenciaqueixadas
Email: agenciaqueixada@gmail.com
Telefone: (19) 99885-5035

DOI-Codi

Antigo centro de tortura dos anos de chumbo, o local onde funcionou o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna) é hoje uma delegacia da Polícia Civil.

Ali o regime fez centenas de vítimas, mortos ou torturados. Entre elas, o jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975.

O prédio foi tombado em 2014. A ideia era transformar o lugar em um centro de memória, o que não foi colocado em prática. Por isso, não é possível fazer uma visita oficial na delegacia.

Local: rua Tutoia, 921, Vila Mariana

Sindicato dos Jornalistas

Do velório de Vladimir Herzog, centenas de pessoas seguiram para a sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Em um assembleia naquele noite, rebatizaram o auditório do local em sua homenagem. O assassinato de Herzog foi um dos crimes que mais ganharam projeção na época, expondo a violência da ditadura.

No sindicato há dois quadros alusivos à sua tortura e morte, um de Elifas Andreato e outro de Antonio Henrique Amaral. O local conserva as características originais e é aberto ao público.

Local: rua Rêgo Freitas, 530 (sobreloja), República
Horário: das 9h às 18h, de segunda a sexta-feira (fechado durante a pandemia)

Portal do Presídio Tiradentes

Na avenida Tiradentes funcionou um presídio feminino de mesmo nome, onde a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foi presa durante a ditadura.

Da construção, sobrou apenas o Portal de Pedra, construído em 1930 e tombado em 1985. O prédio foi demolido em 1973.

A construção era de 1825 e nasceu com o nome de Casa de Correção. Antes da ditadura militar, recebeu o preso político Monteiro Lobato durante o Estado Novo. Não há nenhuma inscrição no local que remeta ao regime militar, mas o arco pode ser visitado a qualquer momento.

Local: avenida Tiradentes, altura do nº 451, Bom Retiro

Memorial Vladimir Herzog

A praça Memorial Vladimir Herzog está repleta de obras em alusão ao jornalista assassinado pelas forças de repressão. O espaço, inaugurado em 2013, foi idealizado pelo ex-vereador Ítalo Cardoso, que presidiu a Comissão da Verdade da Câmara Municipal.

Localizada ao lado da Câmara, a praça tem obras de Elifas Andreato. Uma delas é a escultura "Vlado Vitorioso", ideia criada a pedido das Nações Unidas. Há também um mosaico que retrata a cadeira do dragão, método de tortura amplamente utilizado pelo regime militar.

A última obra foi instalada em 2019: é uma réplica do troféu entregue a jornalistas vencedores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Local: rua Santo Antônio, 33-139, Bela Vista

Memorial Marighella

O memorial consiste em uma pedra onde foi morto o guerrilheiro Carlos Marighella, um dos fundadores do que viria a ser a ALN (Aliança Libertadora Nacional). Na obra, há a inscrição: "aqui tombou Carlos Marighella em 4/11/69, assassinado pela ditadura militar".

Apesar de apagada na paisagem, a pedra é local de manifestações em memória de Marighella. Também já foi alvo de atos de vandalismo.

As polêmicas acompanham o memorial desde a sua inauguração,em 1999. Naquele ano, uma reportagem da Folha registrou que o morador de um prédio impediu a instalação da obra.

Local: alameda Casa Branca, altura do número 800, Jardim Paulista

Placas e ipês em cemitérios

Em 2017, três cemitérios ganharam placas relembrando as vítimas da ditadura. Além do Cemitério Dom Bosco, em Perus, há homenagens no cemitério da Vila Formosa, na zona leste, e no cemitério Campo Grande, na zona sul. O plantio de ipês acompanhou a instalação das placas nos locais. Visitas a cemitérios não são recomendadas até que a pandemia termine.

Local: rua Ernesto Diogo de Faria, 860, Perus
avenida Flor de Vila Formosa, s/n°, Vila Formosa
avenida Nossa Senhora. de Sabará, 1.371, Campo Grande

Monumento no Ibirapuera

O parque Ibirapuera recebeu, em 2014, um monumento feito pelo arquiteto Ricardo Ohtake. A obra é composta de chapas de aço com inscrições dos nomes de 436 mortos e desaparecidos políticos brasileiros. O parque tem ficado fechado por causa da pandemia.

Local: parque Ibirapuera, Vila Mariana, perto do Museu Afro Brasil​ (fechado durante a pandemia)

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