Preso, Pastor Everaldo foi padrinho político de Witzel e batizou Bolsonaro

Presidente do PSC, Everaldo foi um dos alvos de operação que determinou afastamento de governador do Rio

Rio de Janeiro

Apontado como líder de um grupo criminoso com influência no Palácio Guanabara, o pastor Everaldo Dias Pereira não foi padrinho político apenas do governador afastado Wilson Witzel (PSC). Ele já apadrinhou o presidente da República e hoje desafeto, Jair Bolsonaro (Sem Partido), além do ex-governador Anthony Garotinho e da deputada petista Benedita da Silva.

Preso na manhã desta sexta-feira (28), ele é um dos alvos de operação deflagrada pela Polícia Federal que também determinou o afastamento do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

Everaldo usa máscara e carrega sacola, ao lado agente da polícia o acompanha
Pastor Everaldo, preso nesta sexta-feira (28) no Rio - Adriano Ishibashi/FramePhoto/Agência O Globo

Presidente do PSC —partido ao qual Bolsonaro foi filiado de 2016 a 2018— Pastor Everaldo foi um dos primeiros a incentivar a candidatura do então deputado federal à Presidência da República.

Foi Everaldo quem ministrou o “batismo” de Bolsonaro nas águas do Rio Jordão, em Israel. Celebrada em maio de 2016 durante a votação do impeachment da então presidente, Dilma Rousseff, a cerimônia simbólica sacramentou a trajetória de Bolsonaro à Presidência.

Segundo testemunhas da relação entre pastor e o hoje presidente, Everaldo estimulava a candidatura de Bolsonaro antes mesmo de sua filiação ao PSC.

Integrante da Assembleia de Deus, Everaldo apresentou Bolsonaro a líderes evangélicos de quem é amigo. Entre eles, Silas Malafaia, hoje um dos principais apoiadores do governo Bolsonaro. Na pré-campanha, conduziu Bolsonaro em viagens pelas regiões Norte e Nordeste, organizando entrevistas em rádios locais.

Essa aliança política esgarçou, no entanto, já durante a corrida municipal de 2016, quando, aos gritos, Bolsonaro censurou a coligação do PSC com candidatos do PC do B no interior do Brasil. Na sede do PSC, Bolsonaro teria usado palavrões e afirmado que os comunistas deveriam estar presos.

Outro momento de tensão ocorreu durante debate entre candidatos à Prefeitura do Rio em que o hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) passou mal, sendo amparado pela adversária Jandira Feghali (PC do B). Bolsonaro repreendeu o filho, dando início a novo embate entre os dois.

Bolsonaro deixou o PSC em 2018. Com o afastamento, Everaldo viu mais uma vez frustrado o sonho de chegar ao Palácio do Planalto. Antes da aposta em Bolsonaro, ele coordenou a campanha de Anthony Garotinho à Presidência pelo PSB, em 2002, e chegou a concorrer à Presidência em 2014.

O ex-executivo Fernando Cunha Reis, delator na Lava Jato, afirmou em seu depoimento que, em 2014, a Odebrecht orientou Everaldo, então candidato à Presidência, a fazer perguntas favoráveis ao tucano Aécio Neves durante debates na TV.

O pastor chegou a arrancar gargalhadas da plateia ao incentivar Aécio a criticar o PT quando o tema sorteado foi o da agricultura. A empreiteira repassou R$ 6 milhões para a campanha de Pastor Everaldo, segundo o delator.

Com a eleição de Wilson Witzel ao governo do Rio, Pastor Everaldo viu nova chance de chegar ao poder central. Apenas três meses depois da vitória de Witzel, ele lançou o nome do governador à Presidência em encontro do PSC em Brasília. O movimento provocou reação imediata no clã Bolsonaro e seus aliados.

Ao mesmo tempo que alimentava a ira bolsonarista, Everaldo disputava espaço dentro do Governo do Rio. Nos primeiros meses do governo, era visto pelos corredores do Palácio Guanabara, incluindo um anexo destinado à área administrativa do governo.

Com a explosão de escândalos na área da saúde, passou a se reunir com Witzel no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador. Também segundo antigos integrantes do governo, as reuniões ocorriam a portas fechadas. Em geral a dois.

Nascido em Acari, na zona norte do Rio, ex-feirante e ex-servente de pedreiro, Everaldo é acusado de instituir uma caixinha única no governo com a cobrança de pedágio no pagamento a fornecedores do estado.

Segundo os investigadores, uma das suspeitas está em pagamentos em espécie, como o uso de dinheiro vivo na compra de um imóvel avaliado em R$ 2 milhões.

Na delação, o ex-secretário de Saúde Edmar Santos conta que Witzel deu R$ 15 mil nas mãos de Everaldo, segundo o delator, em uma tentativa de impedir que investigadores encontrassem o dinheiro. Segundo investigadores, Pastor Everaldo “age em sofisticada teia de relações que envolve muitas pessoas físicas e jurídicas”.

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