Descrição de chapéu Lava Jato Folhajus

Em último dia da força-tarefa, Lava Jato de SP apresenta 5ª denúncia contra Paulo Preto

Procuradores, em outra peça, afirmam que cartel atuou em obras do metrô de oito capitais

São Paulo

Em seu último dia de atuação após o pedido de desligamento de procuradores, a força-tarefa da Lava Jato de São Paulo apresentou duas denúncias nesta terça-feira (29).

A primeira, apresentada pela manhã, acusa ex-diretores da Dersa (estatal paulista de rodovias) de terem lavado dinheiro de propina. No fim da tarde, cinco ex-executivos de empreiteiras foram denunciados sob acusação de formarem cartel que atuou em licitações de transporte público em oito capitais.

No caso da Dersa, segundo a acusação, foi paga propina para favorecer empreiteiras em obras tocadas nas gestões dos ex-governadores de São Paulo José Serra e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB.

São denunciados os ex-diretores de engenharia Mário Rodrigues Júnior e, pela quinta vez na Lava Jato paulista, Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto.

A acusação do Ministério Público Federal aponta suspeita de ocultação de recursos ilícitos pagos pela Galvão Engenharia para fazer parte do cartel de construtoras que atuou em obras como o Rodoanel Sul e o Sistema Viário Metropolitano de São Paulo.

As quantias foram enviadas para contas na Suíça e são estimadas em US$ 10,8 milhões —mais de R$ 60 milhões.

Mário Rodrigues Júnior e Paulo Preto, diz a Procuradoria, mantiveram dinheiro no exterior por meio de empresas registradas em paraísos fiscais. O recebimento da propina teria acontecido entre 2005 e 2009 e os valores permaneceram fora do Brasil até, ao menos, 2017.

Além deles, são denunciados o ex-executivo da Galvão Engenharia José Rubens Goulart Pereira e seu irmão Cristiano Goulart Pereira. A acusação afirma que Cristiano atuava como representante dos ex-diretores da Dersa na movimentação das contas fora do Brasil.

Segundo a acusação, Cristiano, Mário Rodrigues e Paulo Vieira tinham contas no banco Bordier & Cie abertas em nome de empresas geridas pela mesma pessoa jurídica.

Também foi denunciada a então esposa de Mário Rodrigues, Andrea Bucciarelli Pedrazzoli​, sob acusação de receber parte dos valores transferidos a ele.

A investigação usa como base delações premiadas de ex-executivos da Galvão Engenharia e da Odebrecht, e também analisou documentos bancários enviados pela Suíça que apontam as movimentações financeiras descritas pelos procuradores.

Procurado, o advogado de Paulo Vieira de Souza, Alessandro Silvério, disse que se manifestará nos autos.

Já os advogados Daniel Bialski e Juliana Bignardi, que defendem Mário Rodrigues Júnior e Andrea Bucciarelli Pedrazzoli, disseram que até o momento não tiveram acesso aos autos.

“Não temos conhecimento sobre os fatos até porque, em momento algum, Mário foi convocado a prestar esclarecimentos na Polícia Federal ou no Ministério Público", diz Bialski, em nota.

"Recebemos com espanto a notícia desta denúncia, veiculada pela grande mídia, que, ao que nos parece, dá conta de mais uma infundada acusação. Temos convicção que esta virá a ser arquivada, assim como outras já foram, uma vez que Mário sempre se pautou pela ética e probidade enquanto era funcionário da Dersa e durante toda sua vida pública.”

A reportagem não conseguiu localizar os advogados dos demais acusados.

Paulo Preto também já foi alvo de uma ação civil do Ministério Público Federal sob acusação de improbidade. Ele foi condenado duas vezes, mas uma dessas condenações foi anulada por um ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça). O MPF recorre.

​As novas denúncias são assinadas por quatro membros da força-tarefa da Lava Jato em São Paulo, que pediram desligamento e a partir desta quarta (30) já não atuam mais na operação, e também pela procuradora Viviane Martinez, que passa a ficar à frente das investigações.

Com a mudança, o acervo coletado durante os mais de três anos da força-tarefa paulista pode ser redistribuído dentro do Ministério Público Federal em São Paulo, após avaliação de Viviane e de outros procuradores.

Em uma segunda denúncia, apresentada no final da tarde, a Lava Jato paulista acusou executivos de grandes empreiteiras de formarem cartel entre 1998 e 2014 com o objetivo de fraudar licitações em obras de transporte público em diversas capitais do país.

Foram denunciados cinco ex-executivos da Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa, sob acusação de crimes contra a ordem econômica. Alguns deles já são delatores, como Benedicto Júnior, da Odebrecht.

De acordo com a denúncia, o cartel atuou nos processos licitatórios das linhas 2-verde, 4-amarela e 5-lilás do Metrô de São Paulo, além do monotrilho Expresso Tiradentes (que liga bairros da zona leste da capital) e a linha 17-ouro (zona sul).

Também afetou, dizem os procuradores, as linhas 3 e 4 do Rio de Janeiro e a construção ou expansão de ramais em Fortaleza, Salvador, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba e Porto Alegre.

O Ministério Público Federal narra que, em 2004, o cartel se tornou consolidado e passou a se autodenominar Tatu Tênis Clube, em referência ao equipamento de perfuração subterrânea dos metrôs, o "tatuzão". A partir de 2010, o grupo perdeu força.

A Lava Jato de São Paulo foi criada em 2017 e expandida em 2018, com o objetivo de cuidar de desdobramentos da operação enviados para o estado.

Nos três anos de atuação, teve como principal foco de atuação a investigação de suspeitas de irregularidades em grandes obras do Governo de São Paulo. Houve denúncias contra os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Michel Temer (MDB) e também contra o ex-governador Serra, hoje senador.

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