Ex-vereador assassinado em MG fazia lives para criticar gestão do prefeito irmão de suspeito do crime

Cássio Remis foi morto a tiros nesta quinta (24) em Patrocínio; secretário de Obras, Jorge Marra, está foragido

Belo Horizonte

Em uma página no Facebook com mais de 19 mil seguidores, o advogado Cássio Remis, 37, ex-vereador e presidente municipal do PSDB, costumava postar vídeos e fazer denúncias sobre ações da gestão do prefeito Deiró Marra (DEM), em Patrocínio (MG).

Remis, que era pré-candidato a vereador, foi morto a tiros na última quinta-feira (24). O principal suspeito é o irmão do prefeito e secretário de Obras do município, Jorge Marra, que está foragido.

A última publicação na página de Remis foi uma live na tarde de quinta-feira. Na transmissão de pouco mais de um minuto de duração, ele mostrava máquinas da prefeitura trabalhando em uma rua do município de 91 mil habitantes localizado a 416 quilômetros de Belo Horizonte.

Em tom de denúncia, Remis fala no vídeo que funcionários públicos estavam fazendo o calçamento “de onde, possivelmente, será o comitê eleitoral do prefeito Deiró Marra”.

A transmissão foi interrompida pela chegada de Jorge, que arrancou o celular das mãos de Cássio.

Segundo o sócio do ex-vereador e advogado da família, Linduaudson Borges de Santana, depois de discutir com o secretário Remis ligou para a Polícia Militar a fim de reportar o roubo e seguiu Jorge Marra até o endereço da Secretaria de Obras. 



No pátio do local, como mostram imagens de câmeras de segurança, o secretário pegou uma arma. Remis foi morto a tiros —laudos preliminares indicam entre cinco e seis ferimentos de entrada de bala na vítima.

A Justiça deferiu o pedido de prisão preventiva de Jorge apresentado pela Polícia Civil de Minas Gerais.

Na manhã desta sexta-feira (25), a caminhonete do secretário, que também era presidente municipal do PTB, foi encontrada em Perdizes (a 65 quilômetros de Patrocínio), na propriedade de um ex-prefeito do município vizinho. Dentro dela, foram localizados uma arma de fogo e um celular. 



Apesar de haver elementos que indiquem se tratar da arma usada no crime e de ser o telefone da vítima, a polícia ainda depende de perícia para confirmação. Jorge Marra tinha posse e registro de arma em seu nome, mas não porte.

Cássio Remis, pré-candidato a vereador em Patrocínio (MG), é morto a tiros
Cássio Remis, pré-candidato a vereador em Patrocínio (MG), foi morto a tiros - Cássio Remis no Facebook

Até esta sexta-feira, os investigadores ouviram cinco pessoas —todos os que aparecem nas imagens da câmera de segurança no momento do crime e uma testemunha que não estava no local. 


O prefeito, irmão do suspeito, não será ouvido num primeiro momento, segundo a polícia. 
O caso está sendo tratado como homicídio qualificado, mas ainda depende de apurações para conclusão.

“A princípio foi um crime que ocorreu em alguns minutos de bobeira, tanto da vítima, quanto do autor, que acabaram discutindo e que vitimou o Cássio Remis”, disse o delegado regional de Patrocínio, Valter André.

A polícia também monitora ameaças a Deiró e sua família, nas redes sociais. O prefeito decretou luto oficial pela morte de Remis, chamou o episódio de tragédia, mas disse que isso não deve afetar sua campanha à reeleição.


“Foi um debate entre eles. Eu tenho meu histórico político, tenho minha história passada, 16 anos de vida pública”, afirmou a jornalistas, lembrando sua trajetória também como deputado estadual.

Em publicação nas redes sociais, o governador de Minas, Romeu Zema (Novo), se disse estarrecido com o assassinato de Remis.

“É inadmissível que o ambiente político se transforme nisso. É preciso ter tolerância. Minha solidariedade à família dele. E para criminosos que agem com brutalidade: o rigor da lei e cadeia."

O senador Antonio Anastasia (PSD-MG), que era do PSDB até o início deste ano e que aparece em vídeos com Remis, fez uma publicação nas redes sociais usando uma foto dos dois com a bandeira de Minas Gerais, e chamou o ex-correligionário de jovem idealista.

“O que aconteceu hoje em Patrocínio, uma das maiores e mais importantes cidades de nosso estado, é intolerável, é lamentável, é asqueroso, é triste, é fruto de um tempo no qual parece que todos adoecemos em loucura —em que, sinceramente, eu cada vez menos me encaixo."

Segundo a Polícia Civil, não havia uma questão pessoal entre Cássio e os irmãos Marra, mas episódios em consequência de atuação política dele.

Há pelo menos três anos, Remis publicava nas redes sociais vídeos fiscalizando a atuação da prefeitura liderada por Deiró e era um dos principais opositores do prefeito.



No último dia 30 de junho, ele publicou um vídeo em que afirma que a terra retirada do terreno onde seria construído a nova sede do hospital do câncer na cidade estava sendo levada para uma fazenda de Jorge Marra, usando funcionários e máquinas da prefeitura.

Em abril de 2017, Cassio fez vídeos mostrando que o Ministério Público havia embargado a obra de uma ponte em uma área localizada dentro da fazenda do irmão do prefeito. A informação foi confirmada pelo próprio Jorge em entrevista ao programa Balanço Geral, da TV Record, na época, onde ele negou irregularidades.

Segundo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Jorge responde a vários processos e foi condenado em ação civil pública em 2017 por desmatar área de preservação permanente, sem autorização dos órgãos competentes. Cássio foi processado pelo irmão dele, Deiró.

As respostas dos adversários às críticas costumavam ser apenas negar as alegações de Cássio, diz George Henrique Costa e Silva, secretário municipal do PSDB e amigo de infância dele.

“Ele falava assim: Para me parar, só se for na bala. Enquanto eu tiver um celular e o Ministério Público, eles não me param, não”, afirma Costa e Silva. “Ele era ativista mesmo, era um defensor que a cidade tinha. Ele ia atrás e provava. O que os vereadores não estavam fazendo, ele fazia."

Cássio foi vereador por dois mandatos e presidente da Câmara Municipal. Em 2016, disputou a prefeitura contra Deiró, mas perdeu e passou a fiscalizar de perto as ações do governo. Ele havia deixado recentemente o cargo de assessor do deputado estadual Luiz Humberto Carneiro (PSDB) para se candidatar a vereador.

Na última terça-feira (22), ele publicou um vídeo citando uma condenação de Deiró na Justiça Eleitoral, depois de representação do PSDB. O prefeito foi multado após usar um outdoor para divulgar obras de sua gestão, o que foi considerado propaganda institucional.

Depois da gravação que foi interrompida pouco antes de ser morto, Remis iria registrar a chapa do PSDB para a eleição deste ano, que tem mais de 20 candidatos ao Legislativo municipal. O partido diz que cogita agora lançar alguém da família dele, em seu lugar, para seguir seu trabalho.​

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