Descrição de chapéu Eleições 2020

Ninguém quer tomar espaço só porque é negro, diz deputada Benedita da Silva

Responsável pela consulta ao TSE que resultou na cota eleitoral afirma que negros não podem aceitar papel de laranjas

Brasília

Responsável pela consulta ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que resultou na decisão sobre cota financeira e de propaganda para negros nas eleições, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) afirma que, agora, caberá à comunidade negra não aceitar acordos ilegais que resultem em candidaturas laranjas.

“Não podemos aceitar sermos laranjas", diz Benedita, 78. A deputada, que é candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro, tem um histórico de atuação em prol do movimento negro. Ela foi a primeira mulher negra a ocupar os cargos de vereadora do município do Rio de Janeiro, deputada federal na Assembleia Constituinte de 1988, senadora e governadora do Estado do Rio de Janeiro.

Autora da lei de emergência cultural Aldir Blanc, ação em defesa dos profissionais de cultura durante a pandemia do novo coronavírus, Benedita afirma que o atual governo não conhece a pobreza do Brasil, nem o movimento negro.

Para ela, as consequências disso são prejuízos para as políticas em defesa da comunidade negra. “Antirracista ele [Bolsonaro] não é.”

A deputada Benedita da Silva (PT-RJ)
A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) - Filipe Cordon - 10.mai.19/Folhapress

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Tem colegas seus na Câmara que criticam as cotas?
Não basta dizer que não é racista, tem de provar que é antirracista. Isso não mexe absolutamente com o jogo político, isso beneficia o Brasil como um todo. A política não pode ser a maioria de homens brancos.

Como evitar que os partidos burlem a regra?
Tudo tem de ser fiscalizado, tem de ter regulamento. Não é uma questão em que há uma imposição pura e simplesmente. Você tem uma Constituição que permite a igualdade, garante que nós negros e negras não podemos aceitar simplesmente. Não podemos aceitar sermos laranjas.

Não podem aceitar serem usados porque você estaria abrindo mão do seu direito. Isso parte do caráter, do compromisso de uma direção partidária e também daquele militante que não deverá negociar, porque quando ele negocia ele não está negociando para ele, ele está negociando um recuo de séculos.

A senhora teme maior dificuldade nos partidos de direita?
Não posso medir se eles podem ser mais racistas porque o racismo é estrutural e está dentro de cada pessoa, mas os partidos de direita têm sido mais conservadores. Os partidos de direita não conhecem a história do Brasil. A maioria veio da cultura do colonizar e não do colonizado. É preciso que esses partidos se manifestem.

Hoje o Parlamento brasileiro não é antirracista?
Não. Ainda não é. Estamos lutando. Essa eleição com mais presença de negros e negras é um início. É preciso que façamos cumprir o Estatuto da Igualdade Racial. Ninguém quer tomar espaço só porque é negro.

A senhora se sente segura e tranquila no Parlamento?
Me sinto segura no sentido de afirmação das minhas ideias, agora tranquila não. Quem se sente tranquila vendo aquelas votações e aqueles discursos terríveis, despropositais, mais parece que o Estado não é para proteger o cidadão, é para reprimir se ele for negro.

Somos todos brasileiros. Essa forma de achar que vamos ocupar os espaços deles [brancos] é uma forma de escamotear o racismo que sentem, o medo que têm de abrir mão do espaço. Não podemos nos calar. Negros e brancos antirracistas não podem se calar.

A pouca participação do negro na política é reflexo da falta de atitudes políticas?
Foi política o tempo todo. Alguns ainda exercem essa política escravocrata, quando você encontra exploração do trabalho infantil, quando você encontra uma população indígena abandonada, quando encontra quilombolas, gente nas carvoarias, nas confecções, e a população negra é a mais prejudicada.

É preciso que o gestor público entenda que ele tem de governar para todos, mas principalmente, para os mais vulneráveis. Por que está morrendo mais negros pobres da periferia, das favelas? Porque essa pandemia chega com uma ação mais rápida na população mais vulnerável, que é a população negra.

A senhora defende a criação de um programa de renda para a comunidade negra?
Nós temos no Bolsa Família, que é um programa que atende a maioria da população negra. Porque ela é maioria. Esse Renda Brasil que o presidente queria é uma cópia malfeita do Bolsa Família. É preciso entender que o Bolsa Família não é apenas uma transferência de renda, ele implicada em muitas outras coisas. Ele vê as questões sociais. Não é esse remendo que ele [Bolsonaro] queria colocar.

Ele pode conhecer alguns pobres, mas nunca se preocupou com isso. Tanto é que na campanha ele não conhecia um quilombola, que ele chamou de arroba. Ele não pode conhecer os 200 milhões, mas conhecer a situação de miséria, pobreza, racismo e machismo da sociedade brasileira é o mínimo.

Eu considero ele um desinteressado pela causa [antirracista], ele acabou com tudo referente a negros. Não gosta de cultura, brigou com tudo. O que vou considerar ele, uma pessoa que acaba com todos os instrumentos que poderiam beneficiar negros e negras? Antirracista ele não é.

A senhora ainda sofre racismo?
Claro. E é uma situação mais perversa ainda. Eu não deixo de denunciar, eu denuncio mesmo. É preciso acabar com isso e esse governo não tem o mínimo interesse de acabar com isso porque ele se sente privilegiado, não só pela condição da pele, é presidente da República. É uma perversidade enorme com a população negra.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do publicado em versão anterior deste texto, a deputada Benedita da Silva tem 78 anos, não 57. A informação foi corrigida.

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