Descrição de chapéu Eleições 2020

Saiba quais são as vidraças de Celso Russomanno em sua terceira campanha à Prefeitura de SP

Candidato do Republicanos acumula polêmicas e adota estratégia de assumir erros

São Paulo

Em sua terceira tentativa consecutiva de se eleger prefeito de São Paulo, o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) acumula uma série de controvérsias. Nesta campanha, fragilidades novas e antigas voltaram à tona —são exploradas por adversários e combatidas pelo candidato.

A lista de "vidraças" inclui propostas consideradas pouco factíveis, imbróglios na Justiça, reportagens antigas na TV, suspeitas de irregularidades no mandato parlamentar e na atuação como empresário.

Como mostrou a Folha, a estratégia do candidato é abordar as polêmicas em vídeos e lives —ora assumindo erros, ora se dizendo vítima de fake news. Assim, Russomanno pretende desconstruir a lista de problemas que o derrubou nas campanhas passadas.

Celso Russomanno (Republicanos), candidato à Prefeitura de São Paulo, no Sindicato dos Trabalhadores com Aplicativos de Transporte Terrestre Intermunicipal do Estado de São Paulo - Rivaldo Gomes/Folhapress

Em 2012 e 2016, Russomanno largou na frente e terminou em terceiro lugar. Agora, volta a liderar a corrida em São Paulo —ele tem hoje 29% de intenções segundo o Datafolha, à frente do candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), com 20%.

Para manter a liderança, Russomanno pretende controlar sua exposição e priorizar agendas controladas. Contra os erros das campanhas passadas, o candidato se diz mais maduro, mas ainda é assombrado pelas vidraças reunidas pela Folha abaixo.

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Cobrança de tarifa de ônibus proporcional

A proposta de campanha de Russomanno em 2012 é considerada responsável pela sua derrocada e é lembrada até hoje. O candidato propôs uma tarifa de ônibus proporcional à distância percorrida pelo passageiro.

Para os eleitores, a medida beneficiava moradores do centro e punia a periferia. Nos bastidores da campanha, a proposta foi considerada um erro.

Russomanno argumenta que a medida não significava o aumento do preço da passagem dos moradores da periferia. "Em 2012, disseram que eu ia aumentar o preço das passagens. Logo eu, que defendo o consumidor. Jamais faria uma coisa como essa", afirmou em vídeo no último dia 16.

Afirmação de que a Uber atua na ilegalidade

Na campanha de 2016, Russomanno afirmou que a Uber estava atuando na cidade em uma situação de ilegalidade e defendeu que os motoristas de aplicativo se submetessem às mesmas condições dos táxis.

Em 2020, o candidato vem tentando desconstruir essa afirmação. Sua primeira agenda de campanha, na terça (29), foi um encontro com o sindicato dos motoristas de aplicativos do estado.

"Eu nunca fui contrário aos aplicativos. Eu sou um legalista. [...] Na época, estavam chegando os aplicativos, não sabíamos como iriam trabalhar, qual seria o resultado. E o resultado hoje é maravilhoso. É um modal que deu certo", afirmou na ocasião.

Apoio de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vem sinalizando apoio a Russomanno —os dois estiveram juntos recentemente em São Paulo. Mas o alinhamento a Bolsonaro é visto como um ponto de fragilidade uma vez que o presidente é rejeitado por 46% dos paulistanos, segundo o Datafolha.

Russomanno tem preparado "vacinas" contra a rejeição de Bolsonaro, fazendo ressalvas a seu temperamento, mas o defendendo.

"Entendo que muita gente tem restrições em relação ao presidente Bolsonaro, porque ele é uma pessoa que expõe o que sente, o tempo todo. Ele é sincero, é verdadeiro. E ele tem sangue italiano. Muita gente não aceita esse tipo de coisa. Mas uma coisa eu posso dizer: ele tem a melhor das intenções para com o Brasil", disse na segunda (28).

Celso Russomanno (Republicanos) visita o presidente Jair Bolsonaro no hospital em 26 de setembro - @celsorussomanno no Instagram

Ligação com a Igreja Universal

O partido de Russomanno, o Republicanos, é ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo. O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), julgado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral por abuso de poder político, é sobrinho de Edir Macedo.

Neste mês, Russomanno votou a favor de um perdão de quase R$ 1 bilhão de dívidas tributárias de igrejas.

Em 2016, ele se irritou quando perguntado em sabatina da Folha se integrantes da igreja fariam parte de um futuro governo. Ele chamou a questão de discriminatória, evitou falar sobre a participação da Universal na campanha e reafirmou ser católico. Em 2012, o bispo Edir Macedo, líder da igreja, disse que nem sequer conhecia o candidato.

Processos contra a filha e o genro

A filha de Russomanno, Luara, e seu genro, Bruno Neri Queiroz, respondem a mais de uma dezena de processos civis devido a alegações como prática de propaganda enganosa e a suposta promoção de um esquema de pirâmide por parte de uma empresa da qual foram sócios.

As ações se referem à atuação de empresa de investimentos, a NQZ, por supostamente garantir falsos lucros por meio de investimento em franquias. Autores de uma das ações afirmam, no entanto, que descobriram que "nenhuma das unidades existiu, nem chegaram a serem construídas".

Um dos processos afirma que os sócios deixaram a empresa "sem mais nem menos e sem comunicar qualquer um dos investidores enganados, tentando assim causar prejuízos irreversíveis e sem arcar com eles".

Em outra ação, Russomanno é citado indiretamente. O autor da ação afirma que não imaginava que teria problemas uma vez que um dos sócios era "genro de um famoso político paulista, que trabalha em defesa do consumidor".

Russomanno atribuiu os problemas financeiros do genro à crise econômica e à pandemia, afirmando que milhares de outros brasileiros têm questões semelhantes.

"Se meu genro tem problemas financeiros, ele vai responder por eles. Eu acho um absurdo, eu fico indignado de trazerem problemas familiares para uma campanha. Ele fez o compromisso comigo de acertar todos os problemas", disse.

Plágio no programa de governo

A coluna Painel, da Folha, mostrou que o plano de governo de Russomanno, ao tratar de mobilidade urbana e transporte, reproduz de modo praticamente literal passagens de editais lançados pela gestão Bruno Covas (PSDB) entre 2018 e 2020.

Russomanno afirmou que o trecho igual mostra uma concordância entre suas propostas e o que está sendo feito e que vai manter o que considera bom. "Não tem problema nenhum ter alguma coisa no meu plano de governo, que os meus técnicos colocaram, porque eles concordam com estudos que já foram feitos pela prefeitura. Ninguém é dono da verdade."

Votação da Lei da Ficha Limpa

Russomanno é questionado por eleitores por ter votado contra a Lei da Ficha Limpa, mas o deputado votou a favor do texto principal da norma. Ele votou contra a parte que determina a inelegibilidade do candidato ficha-suja pelos "oito anos seguintes".

Russomanno diz ter votado contra o trecho porque pretendia uma punição ainda mais dura.

Votação sobre o auxílio emergencial

Russomanno tem sido cobrado em redes sociais por ter, como deputado federal, supostamente votado contra o auxílio emergencial durante a pandemia.

Na verdade, ele votou contra uma emenda apresentada pelo PT em um outro projeto, que prorrogava a vigência do benefício até dezembro deste ano. O parlamentar acompanhou a base do presidente Bolsonaro.

Os governistas argumentaram que a proposta foi inserida em um projeto que tratava de outro tema e que não deixava clara a fonte de recursos para estender o pagamento do benefício.

Como candidato a prefeito, Russomanno afirmou que pretende criar um auxílio emergencial municipal, com um complemento ao valor pago pelo governo aos beneficiários do futuro programa Renda Cidadã.

Afirmação de que a campanha naufragaria se revelasse sua opinião sobre a reforma trabalhista

Em 2016, na condição de candidato a prefeito e deputado federal, a mesma que mantém agora, Russomanno foi questionado sobre como votaria Câmara em relação à proposta de reforma trabalhista do então presidente Michel Temer (MDB).

"Eu vou ser sincero. Eu não vou responder sua pergunta agora porque sou candidato a prefeito de São Paulo", disse. "Eu ia gerar uma polêmica tão grande que a minha candidatura ia naufragar", completou, dando a entender ser favorável às condições mais duras aos trabalhadores.

Questionado por jornalistas, afirmou na época que a questão não dizia respeito à cidade de São Paulo.

Discussões com jornalistas e uso do bordão "vamos falar de São Paulo?"

Em campanhas passadas, Russomanno ficou conhecido pelo bordão "vamos falar de São Paulo?", usado sempre que o candidato era confrontado com perguntas incômodas relacionadas a acusações contra ele ou seus sócios.

O comportamento intempestivo e os embates com jornalistas também foram um ponto frágil de Russomanno nas campanhas. As discussões com Cesar Tralli no SPTV (TV Globo) são rememoradas até hoje.

Agora, Russomanno promete não se omitir e responder a acusações. Ainda assim, ele tem reafirmado que sua conduta pessoal deve ser secundária, embora o envolvimento em escândalos e polêmicas seja um ponto relevante para o eleitor.

"Estou preocupado em discutir a cidade de São Paulo", afirma o candidato sobre vídeos que resgatam suas vidraças.

Ações trabalhistas do Bar do Alemão

O Bar do Alemão, do qual Russomanno foi um dos sócios, foi tema da campanha de 2016. Naquele ano, o bar, em Brasília, fechou após uma ordem de despejo e dívida milionária. Ex-funcionários deram depoimentos usados pela campanha de Marta Suplicy em que relatam dívidas trabalhistas.

Na época, a Folha listou ao menos 33 processos —15 de problemas trabalhistas. Russomanno argumentou que fez todos os pagamentos de direitos trabalhistas.

Apoio a Dilma Rousseff (PT)

Voltou a viralizar um vídeo em que Russomanno declara apoio à eleição de Dilma Rousseff (PT) em 2010. O Republicanos fez parte da base do governo Dilma até março de 2016, quando rompeu com a petista em meio ao impeachment.

"Naquela época eu entendia que aquela era a melhor escolha. Nós todos erramos, não é verdade? Eu também tenho direito de errar. Quantos de nós brasileiros votamos e acreditamos na Dilma? Acreditamos que ela podia fazer bem ao Brasil. Não foi só eu, a maioria da população brasileira acreditou", disse Russomanno em vídeo no último dia 25.

Despreparo e falta de propostas

Em campanhas passadas, Russomanno foi considerado um candidato despreparado e com propostas fracas. Em 2012, por exemplo, depois da questão da tarifa proporcional, sua equipe passou a procurar um coordenador que desse credibilidade ao programa de governo.

Agora, Russomanno prega a imagem de experiente e afirma que percorreu toda a cidade fazendo reportagens de defesa do consumidor. "Eu conheço essa cidade como ninguém, estou preparado para ser prefeito de São Paulo", disse em vídeo no último dia 16.

Entrevistas com mulheres no Carnaval

Vídeos de quando Russomanno fazia a cobertura do Carnaval como repórter, nos anos 1980, segundo ele, mostram o hoje candidato abraçado em suas entrevistadas, beijando-as e tocando no corpo das sambistas, enquanto faz comentários como: "É muita mulher".

"Olha só, faz um look aqui devagarinho, ai meu coração", diz ao câmera enquanto pegar no seio de uma delas, que reage com surpresa e tampa o seio em sinal de não consentimento.

"Eu não nego meu passado. Eu era solteiro. Estava gravando baile de Carnaval, tinha que brincar com as minhas entrevistadas", minimiza o candidato.

Sócio réu e delator

O empresário Marcos Tolentino da Silva, delator na Operação Ararath, é dono do canal de TV Rede Brasil e sócio de Russomanno. O político já dirigiu o conselho de administração da emissora e apresentou programas na rede.

Tolentino é réu acusado de lavagem de dinheiro em um processo que aborda a compra de vagas no Tribunal de Contas do Estado. Em 2016, a Folha mostrou que Russomanno possuía um helicóptero em sociedade com uma empresa investigada, a Paz Administradora de Ativos, que pertence à mulher de Tolentino.

Tolentino afirmou que cooperou com o Ministério Público Federal "para a correta eludicação dos fatos". Questionado sobre sua sociedade com Russomanno, o empresário afirmou que seu relacionamento com o deputado e seu envolvimento na Operação Ararath em nada se ligam.

Funcionários fantasmas

A Folha mostrou, em 2017, que o assessor de Russomanno Fabio Bonchristiano, pago pela Câmara dos Deputados, dava expediente na clínica Estética Hollywood, em Moema, uma franquia do cirurgião plástico pop Dr. Rey. A mulher de Russomanno era dona da franquia.

Russomanno afirmou na época que iria descontar as ausências de seu assessor.

Houve ainda o caso de uma secretária de seu gabinete que, de 1997 a 2001, teria trabalhado em uma produtora de Russomanno —mas o Supremo Tribunal Federal o absolveu da acusação de peculato (desvio de dinheiro público). ​

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