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Saída de Deltan Dallagnol marca fim da Lava Jato como era conhecida

Ética na política seguirá sendo bandeira política, mas gás dessa militância é incerto

São Paulo

A saída do procurador Deltan Dallagnol da força-tarefa que simbolizou a Lava Jato marca o fim da operação que implodiu a política tradicional brasileira a partir de 2014, ao menos como a conhecemos.

Não foi exatamente um fecho com chave de ouro. A Lava Jato vive seu pior momento desde que começou a drenar óleo podre dos porões contratuais da Petrobras, abarcando aos poucos quase todos os aspectos da vida político-partidária do país.

O procurador federal Deltan Dallagnol, que deixou a chefia da Lava Jato no Paraná
O procurador federal Deltan Dallagnol, que deixou a chefia da Lava Jato no Paraná - Evaristo Sá - 26.set.2019/AFP

A pressão é institucional e política. Os erros cometidos pelo voluntarismo do ex-juiz Sergio Moro, de Dallagnol e de uma miríade de personagens menos midiáticos da Lava Jato, tisnou bastante uma obra de resto única.

As falhas e abusos agora são combustível para pedidos de reversões de sentenças, e o prêmio para aqueles que combatiam a Lava Jato na era do PT será uma eventual declaração de suspeição de Moro pelo Supremo nos casos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As revelações dos grampos do site The Intercept ajudaram a consolidar, na franja à esquerda da opinião pública e na sua combativa ala na advocacia, a ideia de que a Lava Jato era um tribunal inquisidor dirigido.

À parte a comemoração pela queda em desgraça relativa de Dallagnol, esse segmento acaba por ignorar o legado da operação por duas vias.

Na avaliação positiva, pelo desnudamento da corrupção enraizada e apurada ao longo de décadas. Na negativa, a terra arrasada resultante, que criminalizou indistintamente o mundo partidário e ajudou a fazer emergir um adversário ainda mais complexo para essa mesma esquerda, na figura de Jair Bolsonaro.

Que o presidente tem na Lava Jato uma das forças que o levou ao poder, isso é inegável. Que ele seja o regente da orquestra de seu enterro, uma ironia histórica.

Uma vez eleito, Bolsonaro começou o processo de absorção da Lava Jato ao seduzir Moro. No governo, o ex-juiz deu argumento a quem via em suas ações uma forma de beneficiar o candidato "outsider" e prejudicar o PT.

Por outro lado, o clima para a correção de rumos e supressão das falhas, não raro com requintes de vingança, passou a imperar em cortes superiores. As derrotas sucessivas da Lava Jato no Supremo somaram-se à diminuição da estatura política de Moro enquanto ministro e formaram um quadro de contenção de ímpetos.

Ninguém no mundo jurídico discorda de que isso possa ter um efeito educativo do ponto de vista processual. O pêndulo entre garantistas e lava-jatistas sempre oscilou, o que tornará interessante para observação o comportamento de um antigo entusiasta da operação, Luiz Fux, à frente do Supremo.

De seu lado, Bolsonaro fez o que pôde: desidratou politicamente Moro e promoveu a ala do Ministério Público Federal contrária à República de Curitiba. O resultado está em curso. Para Dallagnol, até que saiu barato: ele poderia ter sido punido.

Assim como a dupla Moro-Dallagnol nunca se livrou da pecha de perseguir o PT, toda a operação que ainda levar o selo Lava Jato ou simplesmente usar de seu modus operandi poderá ser vista como uma ação em favor dos interesses de Bolsonaro.

Isso já foi visto no cerco a Wilson Witzel, o afastado governador fluminense. É o preço da fagocitose promovida pelo presidente sobre um dos entes que lhe deu à luz em 2018.

Há também a possibilidade de uma reorganização dos elementos que sobraram da Lava Jato raiz, por assim dizer, e novas operações com o passar do tempo. Investigadores e corrupção a ser apurada sempre haverá.

Saindo da esfera jurídico-policial, resta agora saber como será a atuação contra a corrupção anunciada por Dallagnol "como cidadão". Ele e Moro são troféus a serem conquistados por aqueles que ainda buscam manter acesa a chama da antipolítica como bandeira eleitoral.

O ex-juiz, com efeito, submergiu ao máximo após deixar o governo Bolsonaro atirando, para evitar ficar exposto. Seu capital político ainda é considerável, e isso é admitido por atores do centro e do centrão, que nutrem horror à sua figura.

Mas o gás do discurso militante pela ética é algo de difícil aferição, em especial sob as brumas da pandemia. Nada indica que o tema corrupção será central no pleito municipal como foi no de 2016, quando ajudou a dizimar o PT —mas, novamente, a excepcionalidade deste 2020 impede grandes certezas.

Além disso, há a questão do arcabouço político para se eleger a algo ou para governar. Se o centrão não teve problema em virar Bolsonaro desde criancinha, após ser demonizado como a Grande Besta, é outra questão emprestar qualquer apoio aos carbonários curitibanos, na hipótese de eles serem viáveis nas urnas.

Tanto eles quanto o presidente desejavam o fim do sistema político como conhecido, mas a necessidade de sobrevivência fez Bolsonaro rapidamente se esquecer do que defendia.

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