Ataque de Boulos a França escancara guerra por eleitorado feminino na disputa em SP

Candidato do PSOL associou rival do PSB a feminicídio; 55% das mulheres estão indecisas, diz Datafolha

São Paulo

Um embate entre Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB) no início da corrida à Prefeitura de São Paulo chamou a atenção para uma fatia do eleitorado que ainda está majoritariamente indecisa e sempre é cobiçada por candidatos: as mulheres.

Segundo o Datafolha, mais da metade (55%) do eleitorado feminino na capital paulista ainda não sabe em quem votar, quando a pergunta é feita na pesquisa sem mostrar ao entrevistado uma cartela de respostas. O índice cai para 42% no universo masculino.

O candidato Márcio França (PSB) durante caminhada na rua José Paulino, no Bom Retiro, acompanhado do vice, Antônio Neto (PDT)
O candidato Márcio França (PSB) durante caminhada na rua José Paulino, no Bom Retiro (região central), acompanhado do vice, Antônio Neto (PDT) - Fernanda Luz/Divulgação

Durante o debate da Band, no último dia 1º, Boulos recuperou uma fala de 2018 do então governador França em que ele defendeu a tese que a Polícia Militar poderia ser mais eficiente se não tivesse que atender a tantas brigas domésticas.

O candidato do PSOL questionou se o rival aprovava "lavar as mãos" diante da violência contra a mulher e sugeriu que espectadores buscassem na internet o nome do político do PSB mais a expressão feminicídio, o que fez reportagem da Folha sobre a afirmação da época virar a mais lida do site do jornal.

França reforçou as explicações dadas em 2018 sobre a controvérsia, mas o estrago estava feito. Nos bastidores, assessores consideraram a resposta pouco enfática e avaliaram que, por nervosismo, o ex-governador perdeu uma chance de deixar clara a posição de respeito à igualdade de gênero.

Àquela altura, os dois postulantes estavam colados um no outro nas intenções de voto medidas pelo Datafolha (Boulos com 9% e França com 8%, empatados na margem de erro). Na pesquisa mais recente, feita após o debate, o nome do PSOL saltou para 12%, enquanto o do PSB manteve os 8%.

O primeiro tem o mesmo percentual (12%) entre homens e entre mulheres; o segundo chega a 10% entre homens, mas cai para 7% entre mulheres.

Membros da campanha de Boulos dizem que o ataque embutia a intenção de mostrar que França não é tão de esquerda assim, em uma tentativa de conquistar apoios em um campo ideológico no qual os dois disputam votos.

O representante do PSOL tem lembrado que o adversário foi vice do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e ajudou a articular a campanha de João Doria (PSDB) a prefeito em 2016.

"Ele não é o progressista que está tentando vender na campanha", diz o marqueteiro de Boulos, Chico Malfitani. "O Doria inventou aquela história de 'Márcio Cuba' [para ligá-lo à esquerda], mas isso não procede."

Em entrevista à Folha em julho, França afirmou que está "mais para o lado progressista", mas disse que passou a vida toda explicando que é como se ele fosse "a direita da esquerda".

Para além da discussão sobre espectro político, a provocação de Boulos reverberou de imediato na seara do gênero. Nas horas seguintes ao debate, as mensagens com o nome de França mais replicadas no Twitter continham o termo "briga de casal".

Buscas no Google associando o nome dele à palavra feminicídio, que não eram algo muito pesquisado, ganharam tração durante o programa da Band, embora já tenham entrado em tendência de queda. De modo geral, as reações deixaram um saldo negativo para ele.

Guilherme Boulos (PSOL) acompanhado de apoiadores no primeiro dia oficial de campanha, no bairro de São Mateus (zona leste)
Guilherme Boulos (PSOL) acompanhado de apoiadoras no primeiro dia oficial de campanha, no bairro de São Mateus, na zona leste de São Paulo - Marlene Bergamo - 27.set.20/Folhapress

Tanto Boulos quanto França vinham fazendo acenos às mulheres, com propostas específicas para esse público e trunfos nas estratégias de comunicação.

O psolista alçou sua vice, Luiza Erundina (PSOL), a um patamar atípico de relevância na campanha —o nome da ex-prefeita é martelado quase tanto quanto o do cabeça de chapa.

O ex-governador escalou sua esposa, Lúcia França, para tarefas de protagonista. Ela assumiu uma intensa agenda de rua e a interlocução com ONGs e líderes comunitários, além de ter destaque nas propagandas.

Coincidência ou não, o casal intensificou depois do ocorrido as postagens em redes sociais identificadas com causas femininas. Ele exaltou as cientistas que venceram o Nobel de Química; ela publicou vídeo de apoiadoras, falou de câncer de mama e elogiou as "mulheres incríveis" com quem tem falado.

Boulos também colocou o tema em evidência. Visitou uma organização que atende mulheres vítimas de agressão e mostrou a esposa e as filhas durante transmissões. O ativista de moradia também tem aparecido em público cercado por correligionárias que são candidatas a vereadora.

Com um desempenho melhor entre os mais ricos e os mais escolarizados, Boulos pode aumentar sua inserção na periferia ao se aproximar das eleitoras, na visão de aliados. Estrategistas dizem que elas têm ainda a capacidade de influenciar o voto de parentes e vizinhos.

As mulheres representam 54,1% do total de eleitores na capital paulista.

Outros postulantes também agitaram a bandeira feminina nos últimos dias. No sábado (10), o candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), foi a uma base da Guarda Civil Metropolitana que cuida de casos ligados à Lei Maria da Penha e fez promessas para combater a violência contra a mulher.

Nesta terça-feira (13), Jilmar Tatto (PT) fará uma caminhada com mulheres na região central da cidade e receberá o apoio de um grupo. Ao fazer o convite para o ato nas redes sociais, o candidato afirmou que trabalhará "por uma São Paulo onde o direito das mulheres seja prioridade".

A taxa de eleitoras indecisas, conforme o Datafolha, cai na pesquisa estimulada, quando o entrevistado é apresentado aos nomes dos candidatos. Neste caso, apenas 5% respondem que não sabem (entre os homens, são 4%).

Celso Russomanno (Republicanos), que lidera a pesquisa estimulada, com 27%, registra também o maior índice de apoio feminino entre todos os concorrentes. O deputado federal e apresentador de TV alcança 26% entre as mulheres, percentual que sobe para 29% entre os homens.

França, que já tinha chamado de fake news a insinuação feita por Boulos no debate, voltou a criticar o oponente em nota enviada à Folha. O candidato do PSB tem dito que sua fala de 2018 buscava defender maneiras alternativas de resolver os chamados casos de desinteligência.

"Boulos é um bom rapaz, um idealista. Mas até ele sabe que falsificou entendimentos 'forçados' de matérias jornalísticas para reproduzir uma mentira que ofende minha história de vida e também a biografia intelectual dele", afirmou.

"Homem que agride mulher tem que ser preso. Ponto final", completou. "O Estado deve, sim, ter profissionais diferentes para atender cada tipo de ocorrência. Foi o que eu afirmei em 2018 e que foi distorcido em prol de cliques e de lacrações no ambiente virtual e mesmo no debate."

França repetiu que Erundina foi sua colega de partido e conviveu com ele em Brasília. A deputada federal, segundo o ex-governador, "não é uma mulher que contemporize com alguém com o perfil que ele [Boulos], de forma rasa, procurou descrever".

A assessoria não respondeu se o imbróglio levou a alguma mudança de estratégia. França afirmou na nota que Lúcia "sempre foi independente para decidir o quanto gostaria de participar" de suas campanhas e que os dois são parceiros. "Não fazemos política para atenuar críticas, mas por convicção."

Colaborou Mateus Camillo, de São Paulo

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