Candidatos de Curitiba exageram sobre gestão da pandemia em sabatina Folha/UOL

Postulantes à prefeitura erram nos temas políticas para isolamento social, cultura e saúde

Gustavo Queiroz
São Paulo | Agência Lupa

A gestão da pandemia da Covid-19 em Curitiba (PR) e seus desdobramentos na saúde, na transparência das informações e na cultura foi um dos principais assuntos das sabatinas realizadas pela Folha, em parceria com o UOL. As entrevistas com os quatro candidatos mais bem colocados na disputa pela prefeitura foram publicadas entre 8 e 21 de outubro. A Lupa checou algumas afirmações de Fernando Francischini (PSL), João Arruda (MDB), Goura (PDT) e do prefeito e candidato à reeleição Rafael Greca (DEM).

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“Agora estamos com um conceito excelente na Transparência Internacional [com relação ao combate à Covid-19]”
Rafael Greca (DEM), prefeito de Curitiba e candidato à reeleição, em sabatina publicada em 16 de outubro


VERDADEIRO, MAS Segundo o Ranking de Transparência no Combate à Covid-19, da Transparência Internacional, Curitiba tem conceito “ótimo”, o máximo possível —não existe o conceito “excelente”. Contudo, a nota tirada pela cidade, 83, é menor do que a de outras 18 capitais brasileiras. A escala vai até 100. Os dados são do dia 20 de outubro.

O ranking avalia a qualidade dos portais da transparência sobre Covid-19 de capitais, estados e governo federal e foi lançado em 21 de maio pela Transparência Internacional. Na ocasião, o portal de Curitiba foi avaliado como “ruim”, com nota 27,3 —a terceira pior capital, empatada com Natal (RN). À época, a prefeitura informou que “as recomendações do Tribunal de Contas da União e da Transparência Brasil chegaram à administração no dia 12/5/2020”. Após atualizações, a nota subiu para 70 e, depois, 83.

Procurada, a assessoria de campanha do candidato informou que a Transparência Internacional considera uma faixa de excelência. “Estamos dentro desta faixa de excelência. O importante é que estamos cumprindo os requisitos mais rigorosos da Transparência”, diz.


“Eu abri três hospitais com respiradores que me mandou o ministro [da Saúde, Eduardo] Pazuello”
Rafael Greca (DEM), prefeito de Curitiba e candidato à reeleição, em sabatina publicada em 16 de outubro.

EXAGERADO Em junho de 2020, dois hospitais, e não três, foram abertos pela prefeitura para atendimento exclusivo de pacientes de Covid-19: o Hospital Vitória, na CIC (Cidade Industrial de Curitiba), e o Instituto de Medicina do Paraná, no bairro Alto da XV. Somadas, as duas unidades disponibilizaram 250 leitos entre enfermaria e UTI. O Centro Médico Comunitário Bairro Novo também foi usado de forma exclusiva por pacientes de Covid-19, mas, segundo a prefeitura, já estava equipado.

De acordo com o painel de insumos enviados pelo Ministério da Saúde durante a pandemia, Curitiba recebeu 120 respiradores —110 para atendimento em UTI e 10 do tipo “transporte”, usados para deslocamentos em curto período de tempo. Em junho, Greca afirmou que o Instituto de Medicina absorveu ao menos cem respiradores enviados pela pasta.

Procurada, a assessoria de campanha do candidato informou que, dos 120 respiradores enviados, "55 foram para o Instituto de Medicina e 35 para o Hospital Vitória. Bairro Novo já tinha estrutura montada. Os hospitais Irmã Dulce e Idoso, que também são do município, receberam 2 e 5 respiradores, respectivamente”. Os outros equipamentos foram distribuídos entre hospitais do SUS não administrados pela prefeitura.


“Cinemas e teatros abriram na hora em que as mortes caíram, em que os leitos de UTI sobraram (…)”
Rafael Greca (DEM), prefeito de Curitiba e candidato à reeleição, em sabatina publicada em 16 de outubro.


VERDADEIRO, MAS O decreto nº 1.350, que permitiu a reabertura de cinemas, teatros e museus em Curitiba, foi publicado em 9 de outubro de 2020. Segundo o portal de dados Brasil.io, a média móvel de mortes diárias nesta data na cidade era de 5,2, o menor número desde 3 de julho. O período mais crítico da pandemia, até o momento, foi entre o final de julho e o início de agosto, quando o número médio de mortes registradas por dia chegou a ultrapassar 20. Esses, porém, foram os últimos dados diários de mortes publicados pela prefeitura em seu portal da transparência. Portanto, não é possível saber se o número caiu ou cresceu desde então.

Já a ocupação de leitos exclusivos de UTI estava em 66% no dia 9. Em 2 de outubro, estava em 76%, similar à semana anterior. Em 25 de setembro, 77% dos leitos estavam ocupados. De lá pra cá, a porcentagem de leitos ocupados cresceu de novo, atingindo 79% nesta terça-feira (20).


“Eu já paguei metade do 13º [salário] deste ano na Páscoa. Todos os anos eu adiantei o décimo terceiro”
Rafael Greca (DEM), prefeito de Curitiba e candidato à reeleição, em sabatina publicada em 16 de outubro

VERDADEIRO, MAS Em 2017, 2018, 2019 e 2020, a prefeitura pagou a primeira parcela do 13º salário aos servidores públicos antes do fechamento do ano. Por lei, o empregador tem até o dia 30 de novembro para pagar a primeira parcela e até 20 de dezembro para a segunda.

Mas, de acordo com o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba, o adiantamento é uma prática que acontece ao menos desde 2013, na gestão de Gustavo Fruet (PDT). Além disso, o pacote de ajuste definido por Greca em 2017 congelou o salário dos servidores naquele ano, o que gerou diferenças nos valores pagos para o 13º.

Procurada, a assessoria do candidato ressaltou que deu reajustes em 2018 e 2019 e disse que considera adiantar o 13º salário um feito que “ganha grande relevância quando se vê a situação do país em 2017”.


“Se eu acreditasse na pesquisa Ibope, Bolsonaro não era presidente. Era o Haddad, o Ciro ou o Alckmin, os três ganhavam dele na pesquisa Ibope das últimas semanas”
Fernando Francischini (PSL), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 20 de outubro


FALSO Desde o início da campanha eleitoral de 2018 (16 de agosto), Jair Bolsonaro (PSL) liderava todas as pesquisas do Ibope —considerando o cenário no qual Fernando Haddad era o candidato do PT. Em 20 de agosto, Bolsonaro aparecia com 20% dos votos, contra 9% de Ciro Gomes (PDT), 7% de Geraldo Alckmin (PSDB) e 4% de Haddad. Em 3 de outubro, última pesquisa antes do primeiro turno, o atual presidente tinha 32% das intenções de voto, contra 22% de Haddad, 11% de Ciro e 7% de Alckmin.

Em simulações de segundo turno, Bolsonaro chegou a estar atrás ou em empate técnico com todos os candidatos citados. Na mesma pesquisa de 3 de outubro, ele aparecia em empate técnico com os três: contra Ciro (45%), tinha 41% das intenções; contra Alckmin (40%), tinha 43%; e contra Haddad (41%), com quem de fato disputou o segundo turno, aparecia com 45%.

A assessoria de campanha do candidato informou, por WhatsApp, que Francischini se equivocou. “Ele se referia às primeiras semanas do segundo turno, quando de fato aparecia atrás ou empatado tecnicamente”, diz. Essa informação também é falsa: nas duas primeiras pesquisas realizadas pelo instituto, publicadas nos dias 15 e 23 de outubro, Bolsonaro liderava com 59% e 57% dos votos válidos, respectivamente. Somente no último levantamento o percentual caiu para 54% —próximo ao que foi registrado nas urnas.


“[Rafael Greca] fechou [o comércio] (...) quando tinha um caso por semana (...)”
Fernando Francischini (PSL), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 20 de outubro


FALSO Na semana do dia 17 de março, quando a prefeitura publicou o primeiro decreto municipal que estabeleceu a suspensão de atividades e definiu regras para o isolamento social, seis casos de Covid-19 tinham sido registrados em Curitiba. Os dados são do Boletim Epidemiológico nº 1 da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba.

Procurada, a assessoria de campanha de Francischini informou, por WhatsApp, que o candidato “quis dizer que o prefeito Rafael Greca fechou a cidade quando tinha um caso (de morte) por semana”. A primeira morte por Covid-19 na cidade só veio a ser confirmada quase um mês após o decreto. No dia 6 de abril, a Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba confirmou a morte de duas mulheres e um homem.


“(...) E abriu (...) em julho, quando tínhamos 15 mortos, 14 mortos por dia”
Fernando Francischini (PSL), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 20 de outubro


VERDADEIRO Em 21 de julho, Greca publicou o decreto 940, que relaxou as regras estabelecidas no decreto 810, de 19 de junho, e permitiu a reabertura de academias e restaurantes, por exemplo. Na data, a média móvel de mortes diárias era de 14,42, considerando os sete dias anteriores. Algumas semanas depois, em 4 de agosto, esse número chegou a 20. Os dados são do especial Covid-19 da plataforma Brasil.io, com base em números publicados pelas secretarias de saúde.


“Foram fechados 37 postos de saúde em plena pandemia em Curitiba”
Fernando Francischini (PSL), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 20 de outubro


VERDADEIRO, MAS No dia 26 de março, a Prefeitura de Curitiba suspendeu temporariamente o atendimento de 26 unidades de saúde –e transformou outras 11 em unidades de atendimento exclusivo para vacinação. Mas a medida teve como objetivo o próprio combate à Covid-19, permitindo o remanejo de 850 profissionais da saúde para o atendimento de pacientes da doença. À época, 74 unidades permaneceram em funcionamento.

Procurada, a assessoria de campanha do candidato reforçou, por WhatsApp, a informação de que 26 unidades foram fechadas e 11 permaneceram apenas para vacinação. “Antes o curitibano teria 37 postos para buscar atendimento. E durante a pandemia nenhum deles prestava o serviço de atendimento ao cidadão”, diz.


“Mais de 20 vezes de reajuste da tarifa técnica [do transporte coletivo] no período [da gestão de Greca]”
Fernando Francischini (PSL), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 20 de outubro


VERDADEIRO, MAS A tarifa técnica do transporte coletivo de Curitiba sofreu 27 alterações na gestão Greca. Mas nem sempre os reajustes representaram aumento. Em oito ocasiões, o valor caiu.

A tarifa técnica é o que a prefeitura paga às concessionárias de ônibus por viagem. O cálculo inclui gastos com combustível, contratação de funcionários, impostos e custos administrativos, entre outros. Como algumas despesas são variáveis, a tarifa também é.

Atualmente, a tarifa técnica é de R$ 5,30. Em janeiro de 2017, quando Greca tomou posse, era de R$ 3,66 —aumento de 44% no período. Já a passagem paga pelo usuário está em R$ 4,50, e foi reajustada em 2017 e 2019. No fim da gestão Fruet, estava em R$ 3,70 —aumento de 21%. A inflação no período, segundo o IPCA, foi de 13%.


“Curitiba caiu no ranking do Ideb da primeira posição entre as capitais para a quarta posição”
Goura Nataraj (PDT), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 8 de outubro.


VERDADEIRO, MAS Entre 2015 e 2019, Curitiba caiu da primeira para a quarta posição entre as capitais no ranking do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Essa colocação, no entanto, é válida apenas para os anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano). No mesmo período, a capital paranaense deixou a vice-liderança nos anos finais (6º ao 9º ano) em 2015 e passou à terceira posição em 2019, empatada com Fortaleza (CE).

No primeiro ciclo do ensino fundamental, a rede de Curitiba recebeu nota 6,5 em 2019 (contra 6,3 em 2015). Tiveram desempenho melhor Teresina (PI, 7,4), Rio Branco (AC, 6,7) e Palmas (TO, 6,6). Já nos anos finais, a nota da capital paranaense foi 5,2 (contra 5,3 em 2015), pior que Teresina (6,3) e Palmas (5,8).


“Curitiba tem mais de 350 favelas...”
Goura Nataraj (PDT), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 8 de outubro.


VERDADEIRO Segundo a Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná), em estudo publicado em 2019 (página 28) , Curitiba tem 359 favelas, que abrigam 42.990 pessoas.

Já os resultados preliminares para 2019 da pesquisa Informações Territoriais: Aglomerados Subnormais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostra um número consideravelmente menor: 225 aglomerados subnormais —nome técnico para formas de ocupação caracterizadas por padrão urbanístico irregular e carência de serviços essenciais, que incluem favelas, palafitas e loteamentos irregulares.


“[Curitiba tem] mais de 400 ocupações irregulares”
Goura Nataraj (PDT), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 8 de outubro.


VERDADEIRO Segundo a Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná), em estudo publicado em 2019, Curitiba tem 453 ocupações irregulares, porções ocupadas do território sem regularização fundiária instituída, como os assentamentos e os loteamentos clandestinos. Esse número inclui as 359 favelas citadas anteriormente.


“Naquele momento [votação do impeachment de Dilma Rousseff], 90% da população do Paraná queria o impeachment”
João Arruda (MDB), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 13 de outubro.


EXAGERADO Segundo levantamento encomendado pela Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) e realizado pelo Paraná Pesquisas, 74,4% dos paranaenses disseram ser favoráveis ao impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). A pesquisa foi realizada entre os dias 19 e 23 de março de 2016, portanto, cerca de um mês antes da votação do relatório na Câmara, em 17 de abril. Arruda, junto com outros 25 deputados paranaenses, votou a favor da saída da presidente.

Procurada, a assessoria do candidato informou que houve confusão entre o percentual de desaprovação da gestão de Dilma (88% na pesquisa em questão) e o percentual de pessoas favoráveis ao impeachment. “Porém, o argumento central permanece o mesmo, não se tratou apenas de uma maioria absoluta (50%+1) de favoráveis ao impeachment e sim de uma maioria amplamente qualificada (3/4 no mínimo)”, afirma.


“O orçamento da Fundação Cultural não está sendo utilizado. Os artistas não tiveram nenhum auxílio [durante a pandemia da Covid-19]”
João Arruda (MDB)
, candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 13 de outubro.


FALSO Desde o dia 17 de março de 2020, quando Greca decretou situação de emergência, a FCC (Fundação Cultural de Curitiba) executou R$ 7,3 milhões em ações de “difusão cultural”. Além disso, entre abril e julho, a prefeitura lançou dois editais emergenciais FCC Digital (aqui e aqui), que disponibilizaram, juntos, R$ 900 mil divididos em 600 projetos de artes visuais, cinema, dança, literatura, música, patrimônio cultural, teatro, circo, manifestações culturais tradicionais, entre outras. Em agosto, também foi aberto o edital FCC digital música independente, que deve contemplar 125 projetos, totalizando R$ 202,5 mil em benefícios.

A assessoria de campanha do candidato disse que ele se referia às políticas de auxílio, e não aos investimentos em cultura. “Para os artistas, categoria que foi diretamente afetada pelo isolamento social não houve uma política de auxílio específicas, apenas a continuidade dos editais já previstos pela Fundação Cultural”, diz a nota.


“Em média, de cada oito famílias de Curitiba, uma família está na fila da Cohab”
João Arruda (MDB), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 13 de outubro.


EXAGERADO Segundo a Cohab (Companhia de Habitação Popular de Curitiba), existem 41.556 famílias aguardando a construção e recebimento de uma habitação social em Curitiba. Já os dados do último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, mostram que Curitiba tinha 565 mil famílias no total. Considerando esses dados, 1 em cada 14 famílias, e não 1 em cada 8, estão na fila.

Procurada, a assessoria do candidato disse que Arruda se baseou em reportagem do jornal Brasil de Fato. A publicação, de 2017, apresenta os dados de famílias que aguardavam casa própria naquele ano, e também informações do IBGE sobre domicílios vazios na capital. Contudo, não indica a fonte usada para estabelecer o número total de famílias em Curitiba.


“Não foi cumprido o plano de carreira dos professores”
João Arruda (MDB), candidato a prefeito de Curitiba, em sabatina publicada em 13 de outubro.


VERDADEIRO Apesar de ter defendido manter o plano de carreira do funcionalismo no município durante a campanha eleitoral, Greca suspendeu a continuidade do programa já no primeiro ano de mandato, por meio da lei 15.043 de 2017. Dois anos depois, a gestão municipal prorrogou a medida até o final de 2021. As medidas geraram diversos protestos no município.

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