Descrição de chapéu Eleições 2020

Chamado de 'mini-Doria', Sabará foi de promessa do Novo em SP a expulso do partido

Ex-secretário do tucano que teve enterrada candidatura à prefeitura se aproximou do discurso bolsonarista e acabou isolado pela cúpula da legenda

São Paulo

A decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo que indeferiu a candidatura de Filipe Sabará, 37, promessa do Novo para a prefeitura da capital paulista, foi o resultado de um processo que colocou em xeque a identificação do candidato com seu próprio partido e pode marcar sua derrocada política.

Antes identificado como afilhado do ex-prefeito João Doria (PSDB) e afinado com o tucano, que o colocou na vida pública, Sabará rompeu com o hoje governador ao radicalizar seu discurso mirando eleitores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em sua tentativa de se eleger prefeito, ficou cada vez mais distante de quem deveria ser seu fiador na política, o ex-presidenciável João Amoêdo (Novo), e terminou sem o respaldo de nenhum dos três caciques.

Filipe Sabará, então candidato do Novo, no debate da TV Bandeirantes - Bruno Santos - 1º.out.2020/Folhapress

“Fui expulso do Partido ‘Novo’ por não aceitar ser obrigado a pensar como um dos fundadores, João Amoêdo, que ataca o presidente Bolsonaro o tempo todo”, afirmou Sabará nesta segunda-feira (26) em rede social.

O processo de expulsão teve início em setembro, com uma denúncia feita pelo deputado estadual Daniel José (Novo-SP) que o acusava em três aspectos —defender políticos que não representam os valores do Novo, como Paulo Maluf e Bolsonaro; ocultar patrimônio da Justiça Eleitoral por corrigir sua declaração de R$ 15 mil para R$ 5 milhões; e mentir sobre sua formação acadêmica.

"Não há nenhuma inconsistência no meu currículo. Isso foi desculpa para me retirarem", alega Sabará. Ele diz ainda que o patrimônio de R$ 15 mil levava em conta o capital social da sua empresa, o que seria aceito pela Justiça Eleitoral, mas resolveu levar em conta o valor atual da firma.

Ele teve a campanha suspensa em 23 de setembro, em decisão provisória do Novo, recorreu ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e conseguiu retomar a candidatura, mas acabou expulso do partido no último dia 21.

Sua candidata a vice, Marina Helena, renunciou ao posto, e o Novo, com o objetivo de enterrar a candidatura de Sabará, não indicou um substituto. Sem vice, a chapa foi indeferida pelo TRE-SP. Sabará está sem saída: depende do partido para ter vice e, sem vice, não pode concorrer.

“Estamos avaliando a melhor decisão a ser tomada, pois sem a vice que escolhi as coisas mudam bastante de figura”, afirmou.

O primeiro cargo público do herdeiro do Grupo Sabará, gigante da indústria química voltada à fabricação de cosméticos, foi como secretário-adjunto de Assistência e Desenvolvimento Social na gestão de Doria na prefeitura, em 2017.

A secretaria, pasta da qual tornou-se titular ainda naquele ano, é responsável pela cracolândia. Sabará tinha experiência por ter fundado uma ONG que inseria moradores de rua no mercado de trabalho.

O auxiliar procurou adotar um estilo parecido com o do então prefeito, pregando agilidade, como pedia o bordão "acelera". Chamado de mini-Doria, ganhou a confiança do tucano.

Em maio de 2017, Sabará apareceu em foto com Doria quando o então prefeito decretou o fim da cracolândia, que até hoje persiste. Na ocasião, uma operação policial do governo estadual apenas pulverizou moradores de rua por 23 locais do centro.

Na mesma época, três pessoas ficaram levemente feridas em uma ação da prefeitura para demolir imóveis na região. Após a queda parcial de um imóvel, Sabará entrou no carro e foi embora dizendo que não sabia o que tinha acontecido.

Como secretário, ele instituiu na cracolândia o projeto Trabalho Novo, que empregou moradores de rua em empresas privadas. O programa foi finalizado em 2019 sem cumprir a meta de 20 mil empregos —foram firmados 2.600 contratos.

Quando foi eleito governador, em 2018, Doria levou Sabará para presidir o Fundo Social, entidade de filantropia do estado. Ele se demitiu em outubro de 2019 para se dedicar à candidatura a prefeito, em um aceno de fidelidade ao Novo, que via com desconfiança sua ligação com Doria.

Como candidato à prefeitura da capital paulista, sua atuação desagradou desde candidatos a vereador até a cúpula do Novo, chegando ao ponto de o partido abrir mão da candidatura majoritária na principal cidade do país.

Ironicamente, a decisão do Novo de expulsar Sabará e derrubar sua campanha refletiu a estratégia que primeiramente alçou Sabará à candidatura, a de que a legenda deveria priorizar qualidade em vez de quantidade nas eleições municipais deste ano.

O Novo elegeu quatro vereadores no pleito municipal de 2016, o primeiro do qual participou, e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, dois anos depois, além de oito deputados federais. Em 2018, Amoêdo teve 2,5% dos votos como candidato a presidente.

Em 2020, a estratégia era fazer uma seleção rigorosa de candidatos e lançá-los apenas em cidades estratégicas. O Novo não usa o fundo eleitoral, verba pública que neste ano chegará a R$ 2 bilhões para uso dos partidos nas campanhas.

Como outros inscritos, Sabará pagou R$ 4.000 para participar do processo seletivo de três etapas, com entrevistas e análise de currículo. Favorito entre os cerca de 70 postulantes, ele venceu o processo em novembro de 2019.

Por isso a inconsistência no currículo de Sabará é crucial —coloca sob suspeita a seleção do Novo. O partido entende que o candidato mentiu ao dizer, no processo seletivo, no LinkedIn e em suas redes sociais, que estudou relações internacionais na Faap e que cursava pós-graduação na mesma instituição.

Ele cursou apenas um semestre da graduação e não é aluno da pós. Sabará afirma sempre ter deixado claro que não concluiu o curso. O candidato tem ainda formação em marketing, mas como tecnólogo, ou seja, um curso de dois anos, e não uma graduação, como acreditava o partido.

O processo seletivo, que buscava escolher pessoas coerentes com a legenda, está ligado ainda à segunda desavença, de alinhamento a Bolsonaro e Maluf. Sobre o presidente, Sabará afirmou em entrevista à revista Veja São Paulo que "ele se saiu melhor que o Doria no combate à pandemia".

Já o ex-prefeito Maluf foi descrito como "o melhor prefeito" que São Paulo já teve. "Teve as suas questões aí, de corrupção, foi condenado, mas fez muita coisa", disse Sabará à rádio Jovem Pan.

Na visão de correligionários, os elogios foram decisivos para o distanciamento da cúpula e da militância do partido. Nas palavras de uma filiada que desaprova a conduta, Sabará "nunca foi laranja raiz", uma referência à cor do Novo.

O partido busca se descolar da direita radical e expulsou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por essa razão. Mas poupou Zema na eleição de 2018, quando ele se aliou a Bolsonaro e foi eleito.

Se as pontes com o Novo foram implodidas, Sabará tampouco tem guarida no grupo político que o lançou na vida pública, o de Doria.

No governo, Sabará tinha identificação com Doria. Nos bastidores, havia até rumores de que o governador poderia apoiar sua candidatura –algo rechaçado pelo entorno de Bruno Covas (PSDB).

Hoje, depois de deixar o cargo e passar a criticar o governador, Sabará é visto como traidor pelos tucanos. Eles lembram que o então secretário chorou na reunião de despedida e esperavam dele uma postura de respeito e não de ingratidão a Doria.

“João [Doria], obrigado pelas lições de gestão, por me cobrar intensamente entregas de qualidade e por sempre ter me dado autonomia para criar”, escreveu Sabará em carta na época.

O enterro da candidatura majoritária do Novo em São Paulo afeta a chapa de 34 vereadores, que perde seu cabo eleitoral. Parte dos candidatos, porém, apoia a decisão do partido.

“Ainda que doa, o Novo teve a coragem de fazer o que é correto", afirma a candidata Cris Monteiro. "A postura da Marina foi decente, honesta, digna. Não é fácil também para mim fazer campanha sem candidato ao majoritário. Mas seguimos de cabeça erguida."

No Twitter, Sabará disse que segue firme, mas admitiu o naufrágio da candidatura.

“Nosso propósito de servir e promover oportunidades relevantes para quem mais precisa está mais vivo do que nunca! Se não for dessa vez, nem dessa forma, será com outras portas e alianças que Deus abrirá."


Sabará na vida pública

Doria prefeito

Em 2017, com a posse de João Doria (PSDB) na Prefeitura de São Paulo, Sabará vira secretário-adjunto de Assistência e Desenvolvimento Social. Depois de o prefeito demitir a secretária Soninha Francine, o adjunto assume a pasta. No mesmo ano, filia-se ao Novo

Doria governador

Em 2018, com a eleição de Doria para o governo do estado, Sabará é convidado para a função de presidente-executivo do Fundo Social de São Paulo. No posto, trabalha ao lado da primeira-dama Bia Doria

Voo solo

Em outubro de 2019, Sabará pede para sair do Fundo Social e anuncia a intenção de se candidatar a prefeito da capital pelo Novo. Faz inscrição no processo seletivo do partido que escolheria o postulante

Candidatura

Em setembro deste ano, o Novo oficializa Sabará como o candidato da legenda. Poucos dias depois, a sigla decide suspender o candidato para analisar denúncias recebidas por sua comissão de ética, o que dá início a uma batalha dentro do partido e na Justiça

Fora do jogo

No domingo (26), o Tribunal Regional Eleitoral indefere a candidatura, após a vice da chapa, Marina Helena, anunciar a desistência de concorrer ao cargo ao lado de Sabará. Ele diz que cogita entrar com recurso para tentar manter a campanha

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