Descrição de chapéu Eleições 2020

Crivella e Paes evitam confronto direto e são alvo de rivais em debate no Rio

Em embate com os outros candidatos, no entanto, ambos fizeram críticas mútuas

Rio de Janeiro

Os dois principais adversários na corrida pela Prefeitura do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos) e Eduardo Paes (DEM), evitaram o confronto direto e não ficaram frente a frente em nenhum momento do primeiro debate eleitoral de 2020, na noite desta quinta-feira (1°), transmitido pela Band.

Ainda assim, aproveitaram o debate com outros candidatos para tecer críticas mútuas. Enquanto o prefeito Marcelo Crivella insistiu na herança negativa que teria recebido de Paes, seu antecessor no cargo, o candidato do DEM criticou a capacidade de gestão do bispo.

Os demais nove candidatos presentes também concentraram os ataques em Paes e Crivella, os mais cotados para chegar ao segundo turno.

Paes foi cobrado pelos investimentos em grandes obras durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas, algumas inacabadas, e por relações suspeitas com empresários do ramo dos transportes.

Crivella foi criticado pela gestão da saúde, especialmente no que diz respeito ao grande número de mortos durante a pandemia do novo coronavírus, e pela situação financeira do município.

Em suas falas ao longo do debate, Crivella defendeu sua administração, principalmente no que diz respeito ao combate à pandemia. O prefeito alegou ter comprado diversos equipamentos hospitalares, como respiradores e tomógrafos.

Uma das estratégias de campanha de Crivella é enaltecer sua atuação durante a crise —aliados acreditam que Crivella teve um bom desempenho, ganhou visibilidade e aumentou sua popularidade com o eleitor. "O Rio fez, em 25 dias, um hospital de campanha. Quem fez isso?", disse.

O prefeito também afirmou que Paes entregou a cidade quebrada financeiramente, cheia de dívidas acumuladas após o ciclo de grandes eventos.

Apesar da proximidade construída com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), um dos trunfos da campanha, Crivella não fez esforços diretos para colar sua imagem à do presidente.

O prefeito, no entanto, fez acenos a temas caros ao eleitor conservador e bolsonarista. Em dado momento, perguntou a Renata Souza, candidata do PSOL, qual o posicionamento dela sobre a ideologia de gênero e o combate às drogas.

Renata rechaçou o tema, respondendo que os cariocas morrem na porta dos hospitais, e que não fazia sentido falar sobre ideologia de gênero nesta situação. Crivella, então, ressuscitou a acusação falsa de que partidos de esquerda quiseram introduzir o "kit gay" nas escolas —tema utilizado por Bolsonaro na campanha em 2018.

Crivella também acenou ao eleitorado evangélico, com referências como "parece que cheguei ao céu" e "multiplicamos o pão e o peixe".

Em uma resposta sobre a situação financeira do município, Paes buscou deixar claro que, caso eleito, manterá o diálogo com Bolsonaro. "Eu vou me dar bem com o governo federal, com o governo estadual", disse.

O ex-prefeito usou o espaço para atacar a administração de Crivella, criticando a situação da saúde, do BRT e o desemprego. Buscou, ainda, manter a imagem de um bom gestor, que conhece os problemas da cidade.

"A gente sabe que não era tudo perfeito, mas na nossa gestão as coisas eram muito melhores, porque a gente conhece os problemas e sabe como administrar", afirmou.

O principal embate da noite ocorreu entre Paes e a delegada Martha Rocha (PDT), deputada estadual, também bem cotada para uma vaga no segundo turno.

Martha disse que o ex-prefeito deixou um rombo de R$ 320 bilhões em 2016, e o criticou por não ter aproveitado melhor os investimentos recebidos com a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

"O senhor endividou a prefeitura, não concluiu obras. Era seu dever deixar essa cidade como referência na educação e saúde pública", afirmou.

Paes respondeu que a deputada não havia estudado corretamente as contas da prefeitura, e insinuou que a candidata poderia não "entender direito" o que ele estava dizendo.

Martha rebateu: "Esse seu jeito debochado e desrespeitoso, malandro de ser, o carioca não aguenta mais não".

A deputada utilizou, ainda, duas frases prontas contra Paes ao longo da discussão: "Seu filme não vale a pena ver de novo" e "Existe vida além de Eduardo Paes".

O ex-prefeito lembrou que os R$ 320 bilhões de rombo alegados pela candidata representam dez vezes a receita anual da prefeitura. "Isso não é zombar, não quis ofendê-la, mas é importante conhecer os números."

Outro embate ocorreu entre o deputado federal Luiz Lima (PSL), que iniciou o debate afirmando que foi convidado por Bolsonaro a se tornar parlamentar, e o prefeito Marcelo Crivella, com quem disputa o voto bolsonarista.

Lima questionou o prefeito sobre a ausência de recursos para pagar o servidor e sobre a criação de 400 cargos comissionados em sua administração. Ele também citou o esquema de cerceamento ao trabalho da imprensa na porta de hospitais, revelado pela TV Globo.

Crivella respondeu que, se o parlamentar havia sido eleito com Bolsonaro, seu conselho é que ele se afastasse da Rede Globo. "Queria que você dissesse 'Globo lixo!'. Ela que dá essas informações [citadas por Lima]".

No início de setembro, Paes foi alvo de buscas e apreensões em sua casa após se tornar réu sob acusação de caixa dois na campanha eleitoral de 2012. No mesmo mês, Crivella também foi atingido por uma operação de busca e apreensão, no contexto de inquérito envolvendo suposto esquema de cobrança de propina na Riotur, empresa do município.

Ambos os fatos não foram abordados no debate. Também não houve referência ao processo de impeachment e às acusações de corrupção enfrentadas pelo governador Wilson Witzel (PSC).

O tema da corrupção, por sinal, foi tangenciado apenas ao final, quando Crivella disse que não foi no seu governo "que o secretário de Obras pegou 75 anos de prisão", em referência ao ex-secretário de Paes, Alexandre Pinto, que confessou ter recebido propina.

Em sua fala de encerramento, o ex-prefeito retomou crítica de Martha Rocha e completou: "Tenho certeza que há vida depois de Eduardo Paes, mas o problema é que a vida que surgiu depois foi Crivella na prefeitura e Witzel no governo".

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