Drible em polarização e ações a classes populares ajudam a explicar 'fenômeno' Kalil em BH

Pesquisas na capital mineira apontam liderança de Kalil e chance de reeleição em primeiro turno

Belo Horizonte

Aos 73, Demerval José da Silva diz que não irá votar neste ano por receio da pandemia do novo coronavírus. Mas, se votasse, seu candidato seria o mesmo de toda a sua família: o atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que construiu um posto de saúde perto de sua casa, promessa arrastada por outros governantes.

Ainda indecisa, Denise, 61, que pediu para não ter o sobrenome publicado, rejeita o nome de Kalil. “Falta de opção até aqui, mas ele, não”, diz ela. “Há duas enchentes que ele fala que é culpa dele e não faz nada”. A última temporada de chuvas no início do ano, que atingiu marca histórica, deixou 14 mortos em BH.

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12.10.2020 - Alexandre Kalil recebe apoio de representantes da cultura junina. (Foto: Divulgação / Coligação Coragem e Trabalho) - Divulgação / Coligação Corag

Apesar de uma gestão sem grandes obras em Belo Horizonte, uma posição que dribla a polarização e ações voltadas a classes populares parecem ter garantido ao prefeito o favoritismo e a larga vantagem apontada pelas pesquisas a um mês das eleições, segundo especialistas ouvidos pela Folha.

De acordo com levantamento do Ibope, realizado entre os dias 13 e 15 de outubro, 11% dos eleitores em BH se dizem muito satisfeitos com a vida que levam e 66%, satisfeitos.

​Kalil lidera as intenções de voto com 60%; seu adversário mais próximo, o deputado estadual João Vítor Xavier (Cidadania), tem 7%, segundo Datafolha dos dias 20 e 21. A pesquisa mostrou também que 70% aprovam o desempenho do prefeito em relação às ações de combate à pandemia do coronavírus.

Há quatro anos, com o slogan “chega de político” e 20 segundos de televisão, o ex-cartola de futebol venceu em segundo turno com 53% dos votos. Agora, com outros 14 candidatos no páreo, ele pode ter o fator reeleição a seu favor —uma tendência nas eleições mais recentes em BH.

“Tem menos espaço para outros nomes aparecerem. A pergunta principal é: eu quero que esse gestor continue ou não? E é claro que a figura dele acaba virando central”, diz o professor do departamento de ciências políticas da UFMG e diretor da consultoria Quaest, Felipe Nunes.

Nunes aponta que, num momento de crise econômica, grandes obras não parecem ter sido vistas como prioridade pela maior parte dos eleitores. A troca da frota de ônibus e os movimentos de Kalil para segurar aumento das tarifas, aceno a classes mais pobres, mostram que o eleitorado focou em ações para manter a cidade funcionando.

Questões polêmicas, como a dívida de Kalil com a própria prefeitura por IPTU, que passa de R$ 200 mil e segue em aberto, também não parecem ter gerado desgaste à imagem dele.

“Quem não tem dívida?”, diz a atendente de um bar no Mercado Central, Patrícia Costa, que pretende votar no atual prefeito.

Do outro lado do corredor, Pedro Torres, dono do ponto, discorda. “Se ele cobra, ele tem que dar exemplo”. Crítico ao fechamento do comércio por meses, durante a pandemia, ele diz que votará no deputado estadual João Vítor Xavier. “Para ver se muda”.

Mesmo eleito na onda de outsiders da política, como o governador de São Paulo e ex-prefeito João Doria (PSDB), Kalil evitou surfar na polarização política. O perfil de alguém que parece falar o que pensa, com a cara séria mesmo no santinho da campanha, parece ter lhe garantido simpatia à esquerda e à direita.

“Frente ao que está aí, no governo federal, esse retrocesso político-religioso, ele faz o que tem que fazer. Não dá opinião na vida privada”, diz a professora Ana Paula da Costa Assunção, 45, lembrando falas do prefeito em defesa da população LGBT.

Os vendedores Matheus Almeida, 28, e Déia Sabrina, 45, dois eleitores de Jair Bolsonaro (sem partido), também dizem que seus votos são de Kalil. “Outro no lugar dele pode ser pior”, justifica ela.

“De alguma maneira, Kalil consegue estabelecer um equilíbrio precário num conjunto de áreas, num país em que essas áreas deixaram de conversar na última década”, avalia Leonardo Avritzer, professor de ciência política da UFMG.

“Ele consegue juntar elementos da antipolítica, encarnada num perfil falastrão, com uma prática de administração quase estereótipo do político mineiro, de fazer grandes coalizões, entre espectros políticos muito diferentes”, afirma Cristiano Rodrigues, também da UFMG.

A coligação de Kalil cresceu de três partidos em 2016 —PHS, então seu partido, Rede e PV— para oito nesta eleição: MDB, DC, PP, PV, Rede, Avante, PDT e o PSD dele e do vice.

Apesar de eventos pontuais, como a discussão frente à greve de mais de 50 dias de professoras da educação infantil em 2018, que teve apoio de vereadores como a agora candidata Áurea Carolina (PSOL), em geral, Kalil não enfrentou oposição à sua gestão.

Com os servidores públicos, sem atrasar ou parcelar salários, Kalil conseguiu manter uma relação, em geral, sem grandes atritos, segundo o presidente do Sindibel (sindicato que representa a maior parte do funcionalismo, incluindo a Guarda Municipal), Israel Arimar de Moura.

“Ele foi bastante pragmático na gestão. A gente vê muita crise política, questão de costumes, ideologia, mas em Belo Horizonte o prefeito falou ‘vamos governar’ e foi mais pelo centro”, diz ele.

Kalil vê a liderança nas pesquisas como resultado do governo e diz que sua posição política não mudou nos últimos quatro anos. Questionado pela Folha sobre se acha que tem chances de ser reeleito já no primeiro turno, o ex-presidente do Atlético-MG se esquivou. “Eu venho do futebol. Futebol tem dois tempos”.

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