Descrição de chapéu Eleições 2020

Em ascensão no Rio, Martha Rocha é alvo de ataques por caixa 2 e elo com bicheiros

Candidata do PDT à prefeitura, delegada diz que não será intimidada diante dessas acusações

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Rio de Janeiro

Desde que encostou em Marcelo Crivella (Republicanos) no segundo lugar na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro, a deputada estadual Martha Rocha (PDT) tem sido alvo de ataques na propaganda eleitoral na TV e nas redes sociais.

Na última pesquisa Datafolha, divulgada no dia 22 de outubro, Martha aparece empatada com Crivella com 13% das intenções de voto. O ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) lidera, com 28%.

O crescimento da delegada aposentada ameaça a candidatura de Paes em um eventual segundo turno disputado pelos dois. Segundo essa projeção, Martha tem 45% das intenções, contra 41% do ex-prefeito.

Por isso mesmo, Paes, que já havia centrado fogo na deputada durante o único debate na TV, veiculou na última semana duas propagandas que questionam a honestidade de Martha.

Já Crivella e o procurador-geral do município, Marcelo Silva Moreira Marques, têm repassado material contra a pedetista por mensagens de WhatsApp.

Em um cartaz enviado pelo prefeito, a imagem da delegada é associada à do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), junto à mensagem "Martha e Ciro juntos para dominar o Rio e estraçalhar Bolsonaro em 2022". Na mesma peça, há a afirmação falsa de que a deputada é oficialmente conveniada ao Partido Comunista Chinês.

Outro vídeo distribuído por Crivella contesta a promessa da pedetista de fazer diferente. Após a pergunta "será mesmo, Martha Rocha?", aparecem imagens da candidata ao lado do ex-governador Sérgio Cabral (MDB) —ela foi chefe da Polícia Civil em sua gestão.

Também é citada a delação de Carlos Miranda, operador de Cabral, segundo a qual Martha teria recebido R$ 300 mil via caixa dois. O vídeo encerra com mais uma pergunta: "Não viu nada. Não fez nada. E agora vai fazer diferente?".

Nas propagandas de Paes, um dos fatos utilizados para criticar a deputada, também lembrado nas redes sociais, foi seu afastamento em 1996 por suspeita de envolvimento em um esquema de propina na Polícia Civil patrocinado por bicheiros.

Naquele ano, o chefe da corporação, delegado Hélio Luz, retirou Martha do cargo depois que Ana Cristina Moreira, mulher do contraventor Castor de Andrade, citou a delegada em depoimento à corregedoria da Polícia Civil.

O então chefe de gabinete de Martha, Inaldo Júlio Santana, havia sido preso dois anos antes, sob acusação de intermediar o pagamento da propina. Notícias da época dão conta de que a delegada e Inaldo eram namorados, o que ela não contestou.

A investigação concluiu que Martha não participou do esquema. Na última terça-feira (27), depois que o tema voltou à tona durante a campanha, o delegado aposentado Hélio Luz divulgou uma carta na qual afirma ser “má-fé trazer-se a público uma notícia antiga qualquer, como se não tivesse havido a devida solução da matéria”.

Luz diz que Martha foi devidamente investigada e que sua participação no esquema foi excluída.

“A senhora, na verdade, foi vítima de falsas acusações e mentiras decorrentes da misoginia existente desde aquela época e, parece, até hoje”, escreveu.

A propaganda eleitoral de Paes também fez uso de notícia sobre a delação premiada do operador de Cabral, Carlos Miranda, que em 2018 afirmou que Martha recebeu R$ 300 mil em caixa dois para sua campanha de 2014. Na colaboração, o próprio ex-prefeito também foi citado como recebedor dos repasses.

“Martha Rocha foi chefe de polícia do Cabral e não prendeu nenhum figurão corrupto da polícia ou da política. Dá pra acreditar quando Martha Rocha fala em ética e honestidade?”, questiona o locutor na peça de Paes. Nas imagens, não fica claro para o eleitor que a propaganda foi produzida pela campanha do ex-prefeito.

Em sabatina da Folha em parceira com o UOL, Martha afirmou que Paes não teve sequer a coragem de exibir sua foto no vídeo e que não será intimidada por ele.

“Não será um candidato que faz um artifício eleitoral para não ter a possibilidade de identificar que sua campanha está fazendo isso [veiculando a propaganda] que vai me intimidar, me aborrecer. Eu também não sou feita de açúcar”, disse.

Martha alcançou a chefia da Polícia Civil em 2011, durante a gestão de Cabral. Seu relacionamento com o ex-governador tem sido questionado pelos adversários e nas redes.

“A delegada era chefe de polícia do Cabral no meio daquela farra toda, lembra? Mas naquela época do bem bom faltou coragem. Não viu nada. Não fez nada. Corajosa…”, diz o locutor em uma peça eleitoral do deputado federal Luiz Lima (PSL), também candidato à prefeitura.

Na última semana, Martha recorreu às redes sociais para rebater duas acusações. A primeira, a de que teria tido envolvimento com bicheiros. A segunda, de que teria sido responsável pela prisão do morador de rua Rafael Braga durante as manifestações de 2013.

O caso de Rafael, emblemático, foi utilizado por manifestantes para exemplificar os excessos das forças policiais durante os protestos. Ele foi preso sob a acusação de portar material inflamável –segundo informações veiculadas à época, Rafael levava uma água sanitária e um desinfetante.

Para descolar Martha do rótulo de “delegada de esquerda”, eleitores deste campo ideológico têm dito nas redes sociais que foi a deputada quem autorizou a prisão do morador de rua. Ela foi responsável por encaminhá-lo à Delegacia de Polícia Judiciária.

“O delegado e o inspetor realizaram a apreciação dos fatos e assinaram o auto da prisão em flagrante. Os delegados e suas equipes têm autonomia funcional e, como chefe da polícia, não era minha atribuição investigar o caso ou interferir no trabalho deles”, escreveu Martha no Twitter.

A deputada também tem sido questionada pelo fato de, em 2015, ter votado a favor da nomeação de Domingos Brazão para o TCE (Tribunal de Contas do Estado). Dois anos depois, Brazão foi afastado e preso em operação que investigava a exigência de propina para liberação de contratos com o governo estadual.

Em 2019, a Procuradoria-Geral da República o acusou de fraudar as investigações a respeito do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Quando Martha votou a seu favor, Brazão já havia sido citado na CPI das Milícias e sido acusado de exploração eleitoreira de centros sociais.

Na sabatina Folha/UOL, a deputada afirmou que em 2015 ainda não havia condenação contra ele. “Olhando os dois candidatos, entendi que poderia dar meu voto. Quero ter a tranquilidade e a humildade de dizer que hoje não daria.”

Também na entrevista, Martha disse que assumiu a chefia da Polícia Civil a convite do secretário da Segurança Pública José Mariano Beltrame, e que sua indicação não passou por Cabral.

Afirmou, ainda, que na ocasião já havia ocupado todos os cargos de relevância na corporação por mérito e que, em sua gestão, a polícia fez um importante enfrentamento à milícia, ao tráfico e ao jogo do bicho.

“Não tenho preocupação com seis horas da manhã, com noticiário, com Japonês da Federal, porque em toda a minha trajetória eu tenho muito orgulho do que eu fiz.”

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.