Descrição de chapéu Eleições 2020

Em queda, Russomanno amplia elo com bolsonaristas para driblar vazio partidário

Campanha quer exibir Bolsonaro no horário eleitoral e conta com aliados do Planalto na ponte com eleitores

São Paulo

A duas semanas do primeiro turno e em queda nas pesquisas, Celso Russomanno (Republicanos) quer compensar a ausência do próprio partido em sua campanha apostando em uma aproximação com bolsonaristas e em reparar estragos causados por adversários.

Aliados do deputado federal e candidato à Prefeitura de São Paulo reclamam de falta de estrutura e de recursos por parte do Republicanos –a coordenação da campanha é feita, na prática, pelo marqueteiro Elsinho Mouco, que trabalhou com o ex-presidente Michel Temer (MDB).

O presidente Jair Bolsonaro e o candidato à Prefeitura de São Paulo Celso Russomanno (Republicanos) durante encontro no aeroporto nesta sexta-feira (30)
O presidente Jair Bolsonaro e o candidato à Prefeitura de São Paulo Celso Russomanno (Republicanos) durante encontro no aeroporto nesta sexta-feira (30) - Divulgação/Campanha Russomanno

Diante do vazio partidário, Russomanno abriu espaço para que apoiadores fiéis das bandeiras do governo federal, como o empresário Otávio Fakhoury, ajam na ponte com eleitores bolsonaristas, buscando cristalizar o voto da direita conservadora.

O empresário também doou R$ 55 mil à campanha. "Meu papel é o mesmo da eleição [presidencial] de 2018: aproximá-lo de empresários e dos movimentos sociais", diz Fakhoury, investigado nos dois inquéritos do STF (Supremo Tribunal Federal) que atingem apoiadores do presidente.

Fakhoury reconhece que antes via com cautela o candidato ungido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). "Eu não conhecia e vim a conhecê-lo recentemente. Ele tem alinhamento conosco. E é o único do lado de cá [direita] com chance de ganhar do Bruno [Covas]."

Além do empresário, o secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fábio Wajngarten, é outra ponte entre a campanha e o Planalto.

Em outra frente, Mouco investe na figura de Bolsonaro. Está marcada para esta segunda-feira (2) uma gravação de Russomanno com o presidente para ser exibida no horário eleitoral. O compromisso foi acertado em encontro entre os dois na sexta-feira (30), em São Paulo.

Nos próximos dias, a campanha pretende ainda estancar a queda nas pesquisas neutralizando os rivais. Na opinião de Mouco, são os oponentes, e não a rejeição a Bolsonaro (da ordem de 46% na capital), que puxam seu candidato para baixo.

A estratégia de centrar a artilharia em “Bruno Doria”, o prefeito Bruno Covas (PSDB) e o governador João Doria (PSDB), e também em Guilherme Boulos (PSOL), que ameaça a ida de Russomanno para o segundo turno contra o postulante à reeleição, será reforçada.

A campanha vai subir o tom contra os adversários. Segundo um membro da equipe, Russomanno vai reagir a ataques, e a fase "paz e amor" acabou.

O horário eleitoral será dedicado no fim de semana a desconstruir a relação de Boulos com a operadora de caixa de supermercado filmada por Russomanno em seu programa de TV e que se diz humilhada pelo deputado.

Além das peças que já estão em circulação contra Boulos, associando-o à invasão de casas e ao ex-presidente Lula (PT), novas montagens irão buscar a mensagem de que o candidato do PSOL usou a moça para conseguir votos.

Mouco avalia que o apoio da operadora de caixa a Boulos, impulsionado na internet, atingiu muitos eleitores e provocou um estrago. Outra falha que o marqueteiro busca remendar é a repercussão negativa da insinuação de Russomanno, feita na quarta (28), de que Covas pode não terminar um novo mandato por questões de saúde.

O prefeito trata um câncer, mas tem a doença sob controle. A explicação de Russomanno para o episódio deve ir ao ar nas redes sociais.

"Na verdade, Russomanno está preocupado com a tradição tucana de deixar o posto de prefeito, como aconteceu com José Serra e Doria", diz Mouco. "Covas vai querer ser governador, por isso vai renunciar. Russomanno vai dizer que a saúde do prefeito vai bem e torce por ele nesse sentido."

Russomanno também tem se aproximado de movimentos de direita que endossam Bolsonaro e fazem oposição ao governador Doria. O tucano mira o governo federal em 2022 e, portanto, é considerado inimigo pelo Planalto.

Em reunião entre aliados de Bolsonaro e a equipe de Russomanno há cerca de uma semana, os bolsonaristas demonstraram insatisfação com a falta de combatividade do candidato, com a condução das redes sociais e com o posicionamento a favor da vacina da empresa chinesa Sinovac, desde que comprovada sua eficácia.

Desde então, Russomanno fez concessões a essa ala radical de bolsonaristas. Além de intensificar críticas aos demais candidatos, passou a atacar a imprensa nas redes sociais e a se dizer vítima de fake news, participou de lives de canais de direita e gravou um vídeo de agradecimento aos movimentos de direita.

“Eu sei da importância e do trabalho desenvolvido pelos movimentos da [avenida] Paulista desde 2015. Compartilhamos dos mesmos valores, conservadores, da família e de defesa da liberdade", disse aos grupos, reforçando o pedido de ajuda e assegurando que não os decepcionará.

Se nos bastidores os bolsonaristas conquistam terreno, a presença da imagem de Bolsonaro na propaganda da campanha teve altos e baixos nos últimos dias.

Depois do sumiço do padrinho na TV e em jingles no início da semana, o presidente e o candidato buscaram dar sinais, na quinta (29) e na sexta, de que a aliança segue firme, com a live em que Bolsonaro demonstrou apoio ao deputado e com o encontro no aeroporto de Congonhas.

A equipe de Russomanno afirma que ele já está associado ao presidente e que nem todas as peças precisam lançar mão da figura de Bolsonaro. Aliados de ambas as partes, porém, veem a distância como cautela do candidato, em busca de frear a queda nas pesquisas, e também do presidente, que não quer dividir o desgaste de uma eventual derrota.

A última semana marcou ainda a entrada com mais ênfase de vereadores do Republicanos na campanha de Russomanno com agendas conjuntas. O embarque tardio dos aliados virou motivo de cobrança no partido.

Deputados estaduais do partido também passaram a mobilizar suas bases em prol de Russomanno após serem convocados para uma reunião no último dia 21, que teve a presença de nomes do PTB e do PSL.

Os próprios deputados do Republicanos, que compõem a base de Doria, admitiram que estava difícil colocar a campanha na rua até que o ajuste fiscal proposto pelo governador fosse aprovado, porque seriam cobrados a votar contra.

No último dia 25, o presidente municipal do Republicanos, Marcos de Alcântara, maior entusiasta da candidatura de Russomanno no partido, morreu de câncer, o que ampliou o vácuo na legenda.

Com a internação de Alcântara em setembro, o presidente nacional da legenda, deputado federal Marcos Pereira (SP), havia se comprometido a acompanhar a candidatura. Ele argumenta ter fornecido recursos e equipe, mas há reclamações sobre estar focado na agenda em Brasília.

Pereira enfrenta cobranças por mais recursos do fundo eleitoral, verba pública que Russomanno havia dito que não usaria. A campanha recebeu até agora R$ 870 mil, ante R$ 11 milhões de Covas, R$ 6 milhões de Joice Hasselmann (PSL), R$ 5 milhões de Jilmar Tatto (PT) e R$ 2,7 milhões de Boulos.

Adversários de Russomanno levantam teses distintas sobre a postura do Republicanos —alguns veem sinal de aliança velada com Doria, enquanto outros apostam que Pereira não tem interesse em patrocinar um novo líder em São Paulo, área de seu domínio.

Diante de uma inação no Republicanos, o PTB do candidato a vice, Marcos da Costa, toca uma agenda paralela, com compromissos focados em mulheres, idosos e caminhoneiros.

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