Enchentes e lixo desafiam candidatos em Osasco, o segundo maior PIB de SP

Eleição em cidade de 700 mil habitantes da Grande São Paulo tem ex e atual prefeito entre sete candidatos

Vista aérea de um córrego poluido por baixo de uma avenida. Ao lado do córrego, várias casas

Córrego braço morto do Rio Tietê, na Avenida Cruzeiro do Sul, no Jardim Rochdalle, em Osasco. O bairro é o mais afetado pelas enchentes na cidade Bruno Santos/Folhapress

Osasco (SP)

Com o segundo maior PIB do estado e da região metropolitana, atrás apenas da capital, e o sexto nacional, Osasco terá uma disputa eleitoral em meio a problemas estruturais ainda sem solução na cidade de quase 700 mil habitantes, como a destinação do lixo e os recorrentes casos de enchente.

Sete candidatos, entre eles o atual prefeito, Rogério Lins (Pode), 42, o ex-prefeito Emídio de Souza (PT), 61, que governou a cidade por dois mandatos, e o ex-presidente da Câmara local, o vereador Elissandro Lindoso (Republicanos), 43, disputam o pleito.

Entre os postulantes ao cargo, há apenas uma mulher. Simony dos Anjos (PSOL), 34, moradora do Jardim Veloso, na periferia da cidade, integra a Bancada Evangélica Popular, que reúne evangélicos com propostas progressistas e que querem mostrar uma nova representação do grupo religioso.

As bandeiras trazidas pela candidata, como incentivo da participação popular por meio de conselhos, se assemelham à pauta de Emídio.

Nome já conhecido pela população, o deputado estadual petista governou a cidade de 2005 a 2012 e fez seu sucessor, Jorge Lapas, que, em 2016, trocou o PT pelo PDT e não conseguiu se reeleger.

Atual prefeito, Lins tem a maior alianças de partidos da cidade, com outras 14 siglas, entre elas PSDB, DEM e MDB.

Ele diz que um dos feitos da sua gestão foi ter melhorado a educação. A cidade subiu de 5,9, em 2015, para 6,3 no Ideb (Índice de Desenvolvimento na educação básica) em 2019. Construir moradias e recuperar a economia após a pandemia estão entre as prioridades, diz o prefeito.

Nos últimos quatro anos, segundo as declarações de patrimônio feitas por Lins à Justiça Eleitoral, o político passou de uma soma de bens de pouco mais de R$ 253 mil (R$ 282 mil, em valores corrigidos), para R$ 1,2 milhão.

O prefeito diz que o crescimento do seu patrimônio teve como origem atividades empresariais dele e da sua esposa, declaradas à Receita Federal. “Tinha um imóvel em financiamento e todo ele está declarado no meu Imposto de Renda. Minha esposa e eu também temos atividades no setor empresarial”, diz.

Os candidatos prometem soluções para duas questões caras ao município: o lixo e as enchentes, recorrentes em áreas próximas ao rio Tietê. No Jardim Rochdale, na região norte, onde vivem mais de 28 mil pessoas, o problema é enfrentado desde a emancipação de Osasco de São Paulo, em 1962.

O problema também afeta os bairros Jardim Mutinga, Quitaúna e o centro de Osasco, que juntos com o Rochdale somam mais de 60 mil habitantes, segundo dados do Censo de 2010.

A geógrafa e professora do departamento de saúde pública da USP Helena Ribeiro explica que, por estar próxima ao rio, a região sofre com o refluxo quando há grande volume de chuva, e que o processo se agravou com o processo de ocupação, impermeabilização do solo e falta de áreas verdes.

“A cidade cresceu, ficou mais rica, mas investiu pouco em meio ambiente e áreas ambientais. Por conta disso, você tem um aumento do calor, que cai na forma da tempestade”, diz.

Para tentar evitar perdas, os moradores passaram a construir sobrados, de dois andares ou mais, formando paredões nas ruas e vielas do bairro.

A maioria das construções foi feita de forma irregular, conta o integrante da Associação Fonte de Vida, da igreja evangélica, Isaac Pereira, 39, que presta assistência às famílias do local.

“De dezembro a março é o período em que a gente fica mais apreensivo aqui. O volume de chuva que chega aqui invade as casas e tudo que tiver por perto”, diz ele, que tem apenas o título de posse da casa onde mora com a mãe e irmãos.

Um homem olhando para um rio poluído cercado de casas inacabadas
Isaac Melo, 39, trabalha na Associação Associação Fonte de Vida, que presta assistência às famílias do Jardim Rochdale, em Osasco - Bruno Santos/ Folhapress

Às margens do poluído córrego do braço do morto do rio Tietê, os sobrados inacabados da chamada área livre se avolumam a perder de vista. Ao lado da Avenida Cruzeiro do Sul, está o da dona de casa Vera Lúcia, 55, que vive no local há 15 anos.

“Não tem como você não perder alguma coisa aqui, porque quando chove, alaga mesmo, além de não poder sair e ter que ficar dentro de casa”, diz.

Ela ergueu o segundo andar da casa após ter perdido móveis e eletrodomésticos inúmeras vezes, uma rotina que a filha e neta de cinco anos enfrentam na parte de baixo.

Ao final de um trecho, casas de palafita tomam a paisagem que termina aos pés do piscinão do Rochdale, uma obra da gestão de Emídio (PT) para evitar enchentes. O local está completamente tomado pela vegetação e cercado de entulho.

Segundo Lins, atual prefeito, anualmente em outubro é feita a limpeza dos piscinões da cidade. A prefeitura diz que executa serviços de limpeza, manutenção e zeladoria, além de conscientizar a população para que despeje o lixo no lugar apropriado.

Perto dali, a paisagem muda na região da obra da primeira fase de canalização do braço morto onde houve desapropriação da área próxima ao córrego, construção de uma praça e calçamento da via, ainda não concluída.

Ela é uma das três obras de gestões anteriores para resolver o problema das enchentes ainda não finalizadas, segundo o (Tribunal de Contas do Estado) de São Paulo.

Emídio diz que aprovou recursos para a realização do pacote de obras pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e que em dois anos de governo concluiu parte da obra. Segundo ele, isso fez com que o problema em parte do bairro fosse resolvido.

“A parte que fiz foi em 2009 e 2010. Estamos em 2020 e não se encaminhou mais nada. Absolutamente nada. Ali não tem segredo: é continuar a obra que foi interrompida, depois nos governos seguintes”, diz.

Além da canalização, o projeto também prevê um parque linear ao longo do córrego e a construção de moradias para as famílias afetadas.

A geógrafa e professora Helena Ribeiro destaca que a canalização aumenta o fluxo do rio. Com a criação de áreas verdes é possível reduzir a velocidade do escoamento da água e impedir que ela vá para a casa das pessoas.

O plantio de árvores, a limpeza das ruas, bueiros e piscinões fazem parte das ações de curto prazo para mitigar as enchentes.

A prefeitura diz que o atraso nas obras foi gerado pela demora nos repasses do governo federal e questões judiciais.

Outro problema enfrentado pela população de Osasco é o despejo de lixo. A gestão de Emídio firmou uma parceria público privada para ampliar o aterro sanitário, uma obra que, anos depois, foi parar na Justiça.

Com o processo de ocupação irregular do entorno, no Jardim Açucará, moradores que não aceitaram a ordem de remoção acionando o Judiciário. Lins afirma que a obra está em andamento, mas que não é possível dizer quando a expansão será concluída.

Emídio diz que pretende investir numa usina de compostagem e, assim como Simony, que negociará com os moradores locais para buscar a melhor solução para o aterro.

Já Lindoso quer mandar todo o resíduo de Osasco para outras cidades. Todos defendem a coleta seletiva, ações de reciclagem e educação ambiental.

Outra obra parada na cidade é a da nova sede da prefeitura. Ela seria bancada pela iniciativa privada, em acordo feito na gestão petista de Emídio. Entretanto, foi paralisada e se tornou um esqueleto próximo à estação de trem que pode ser visto de longe por quem chega à cidade.

A prefeitura afirma que houve um rompimento de contrato de forma consensual, sem perda para os cofres públicos. A área está em processo de leilão, mas os candidatos ainda têm planos para o prédio.

Lindoso quer transformar o lugar num novo hospital, transferindo a prefeitura e a câmara para o lugar onde funciona o equipamento de saúde atualmente. Emídio quer retomar a parceria com as empresas e finalizar a obra sem recursos públicos.

Vista do aterro cercado por casas pobres
O aterro sanitário de Osasco, cercado por moradias irregulares - Bruno Santos/ Folhapress

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Obras de combate a enchentes não concluídas

Urbanização do Jardim Rochdale

  • Ação: serviços de infraestrutura, pavimentação, drenagem e construção de obras de artes especiais
  • Contratada: Consórcio Constran Eit Rochdale
  • Valor de contrato: R$ 109.491.487,92
  • Valor pago: R$ 37.841.315,71
  • Prazo de entrega inicial: 31/01/2017
  • Status: atrasada
  • O que diz a prefeitura: houve atraso na liberação de recursos pelo Ministério do Desenvolvimento Regional, mas a obra avançou e está na sua 40ª medição, feita com adiantamento de recursos do fundo de habitação

Canalização do Córrego Rico

  • Contratada: Construtora LJA LTDA
  • Valor de contrato: R$ 9.506.286,92
  • Valor pago: R$ 6.718.531,26
  • Prazo inicial de entrega: 08/08/2010
  • Data da paralisação: 19/12/2018
  • Status: paralisada
  • O que diz a prefeitura: a obra está praticamente concluída, mas houve um problema jurídico em relação ao contrato de 2018. Não foi possível solucionar a questão junto ao tribunal de contas e em 2020 outro processo licitatório para a obra foi aberto. Além disso, houve atraso constante na liberação de recursos pelo Ministério do Desenvolvimento Regional

Urbanização do Jardim Santa Rita

  • Ação: remanejamento da população afetada por enchentes para conjuntos habitacionais na própria área, construção de uma equipamento público e um centro comunitário
  • Contratada: Consórcio FSB/Soebe/Hidrostudio
  • Valor de contrato: R$ 59.200.000,00
  • Valor pago: R$ 30.814.921,52
  • Prazo incial de entrega: 19/01/2016
  • Status: atrasada
  • O que diz a prefeitura: a obra não está paralisada e os atrasos foram decorrentes de disputas judiciais em razão das inúmeras desapropriações e regularização das matrículas necessárias para avançarmos nas 2º e 3º fase do projeto.

Fonte: TCE-SP e Prefeitura de Osasco

Prédio inacabado da nova Prefeitura e Câmara de Osasco
Prédio inacabado da nova Prefeitura e Câmara de Osasco - Bruno Santos/ Folhapress
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