Grande SP testa discurso de renovação com 28 prefeitos candidatos à reeleição

Prefeitos estreantes enfrentam ex-gestores com obras que não saíram do papel e reclamações na saúde em meio à pandemia

Kátia Flora Laiza Lopes Thalita Monte Santo Paulo Talarico
São Bernardo do Campo, Mauá, Guarulhos e Osasco | Agência Mural

Em 2016, a campanha do prefeito Rogério Lins (Podemos) em Osasco tinha como lema “Renova Osasco”. A de Orlando Morando (PSDB) pegou caminho parecido com a ideia de uma “São Bernardo de novas oportunidades”. Na cidade vizinha, “Mauá, Mauá, muda já” era a proposta de Átila Jacomussi (PSB).

Foi com a promessa de trazer algo novo que boa parte dos atuais prefeitos da Grande São Paulo foram eleitos há quatro anos. Hoje, esses candidatos buscam a reeleição e tentam provar que esse "novo" funcionou em meio à pandemia da Covid-19.

Dos 39 prefeitos e prefeitas da região metropolitana, 28 disputam a reeleição —71%, percentual superior aos 44% de gestores no país que tentam se reeleger, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Dos 28, 22 governaram as cidades pela primeira vez nos últimos anos.

É o caso de Gustavo Henric Costa, o Guti (ex-PSB e hoje no PSD), um dos mais jovens prefeitos da região metropolitana, com 35 anos. A vitória dele em Guarulhos encerrou um período de 16 anos de gestões do PT na cidade.

A gestão foi marcada pela relação conflituosa com movimentos culturais, como quando Guti mandou tirar fotos de um espaço público por considerar haver menções políticas e foi acusado de censura.

“Foi uma gestão de pouco investimento no setor cultural e muita negligência com os artistas”, afirma o produtor cultural Franklin Jones, 39. Ele diz que a promessa de apoio à ocupação de praças públicas, que visava estimular apresentações artísticas independentes, não avançou.

Recentemente, coletivos culturais de Guarulhos iniciaram o movimento “Sem arte a praça não tem graça”, no qual cobram da prefeitura a entrega do antigo prédio da Câmara Municipal, para se tornar um centro cultural, conforme o Plano Municipal de Cultura aprovado neste ano.

Quem está ocupando a área térrea do edifício, desde 14 de setembro, é a GCM (Guarda Civil Municipal). Segundo a Secretaria de Cultura, o edifício apresenta problemas em sua estrutura desde uma reforma feita na gestão passada.

“Uma das alternativas que encontramos para fazer a revitalização da praça e de fato dar o uso correto dela foi a vinda da GCM para a ocupação do prédio”, afirma o secretário de Cultura, Vitor Souza.

“Este mandato é marcado por grandes conquistas, tais como o fim do rodízio de água”, tem propagado o prefeito. A gestão diz ter colocado as contas em dia e entregue 100 obras. Segundo o TCE (Tribunal de Contas do Estado), no entanto, 13 obras municipais estão paradas ou atrasadas.

No ABC Paulista, Orlando Morando prometeu finalizar as obras paradas da gestão anterior em São Bernardo do Campo. O município promete neste ano relembrar a polarização entre PT e PSDB, com a candidatura do ex-prefeito petista Luiz Marinho.

Após quatro anos, moradores lembram que persistem problemas na área da saúde, por exemplo. A cidade foi a segunda com mais casos de Covid-19 na região metropolitana: 26,1 mil confirmados e 969 mortes, segundo dados atualizados nesta quinta-feira (22).

Bairros da periferia de São Bernardo, como o Montanhão, foram os mais afetados.

O estudante de direito Adriano de Oliveira Souza, 34, precisou acompanhar um amigo que perdeu um familiar vítima da Covid-19, dentro do Hospital de Urgência, e percebeu que algumas alas estavam com faixas de impedimento, em obras. Ele diz que o problema é recorrente desde antes da pandemia.

"A consulta chega a demorar até três meses. Minha vizinha sofreu uma fratura no braço e não conseguiu atendimento com médico ortopedista para tratamento", diz. "As obras feitas foram na região central, as periferias ficaram esquecidas."

Ele vive há oito anos no bairro Cooperativa, perto da UBS (Unidade Básica de Saúde) Jardim Nazareth.

A gestão Morando diz que dobrou o número de médicos na rede municipal de 1.485 profissionais em 2017 para 3.018 neste ano. Ainda segundo a prefeitura, a UBS Jardim Nazareth é composta por seis médicos e outros três estão em processo de contratação.

Outro tema que marcou a gestão do tucano foram os processos de remoção realizados em algumas regiões da cidade. No bairro Vera Cruz, famílias que moravam há anos no local tiveram as casas removidas em agosto, em plena pandemia.

A prefeitura diz que a reintegração de posse foi realizada em terreno particular pela Polícia Militar e que os moradores do terreno receberam atendimento social prévio. “As famílias que ocupavam o imóvel de forma irregular foram notificadas no início do ano e todas já haviam deixado o local no momento da ação."

No caso de Mauá, a gestão que pregou renovação foi marcada por casos polêmicos sob o comando de Átila Jacomussi. Na pandemia, a situação se agravou.

Para instalar os 30 leitos hospitalares do Hospital de Campanha da cidade, a empresa contratada recebeu o valor mensal de R$ 221,9 mil. O município vizinho, Santo André, gastou R$ 157,5 mil em uma estrutura para 120 leitos.

Essa diferença levou o Ministério Público de São Paulo a apontar suspeita de superfaturamento e irregularidades na contratação da organização social que geriu o hospital. O Hospital de Campanha de Mauá funcionou por quatro meses, sendo desativado em agosto, o que gerou críticas entre os moradores da cidade.

Thaina Marçal, 24, precisou utilizar o hospital cerca de 15 dias antes da desativação. Ela acompanhou o marido, que tinha sintomas de Covid-19, para tentar realizar um teste no local.

“Tinha cerca de 40 pessoas do lado de fora em uma fila e mais pessoas em uma tenda. Um funcionário falou que não era certeza que iríamos conseguir fazer o teste, pois os sintomas não eram graves”, relata a moradora.

Eles optaram por fazer um teste pago na farmácia, que confirmou o diagnóstico positivo para Covid-19. “Fiquei indignada, pois tinha gente muito mal na fila de espera”, diz Thaina.

Segundo o relatório da Covid-19 no portal da transparência do município, Mauá recebeu dos governos estadual e federal cerca de R$ 18 milhões para combate ao coronavírus. Deste montante, mais de R$ 10 milhões foram gastos e ainda restam R$ 7,3 milhões.

A reportagem questionou a Prefeitura de Mauá sobre as ações que serão feitas com o saldo restante, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Para além dos problemas na saúde, a população enfrentou uma instabilidade política desde os primeiros dias da gestão Jacomussi. Eleito pela primeira vez, ele ficou afastado do cargo por 11 meses, sendo duas vezes preso por suspeita de corrupção e cassado pela Câmara Municipal. Conseguiu por meio da Justiça voltar ao cargo.

Ele tem usado o argumento de ter sido perseguido. “Sofri e chorei calado, passei pelo deserto duas vezes. A justiça de Deus estava comigo e a dos homens a caminho”, escreveu em rede social.

Durante o afastamento, o município ficou sob a administração da vice-prefeita, Alaíde Damo (MDB). A família Damo, que inclui ainda o ex-prefeito Leonel, rompeu com Jacomussi e lançou Vanessa (MDB), deputada estadual e filha de Alaíde, na disputa pela prefeitura.

Em Osasco, o começo do mandato do prefeito Rogério Lins (Podemos) também foi marcado por uma operação policial. Lins era vereador e foi um dos citados na Operação Caça-Fantasmas, que chegou a prender 14 vereadores em 2016. Ele teve ordem de prisão decretada pouco depois da vitória contra o ex-prefeito Jorge Lapas (PDT).

A suspeita era de que parlamentares tinham funcionários-fantasmas no Legislativo. Lins estava nos Estados Unidos quando houve o pedido de prisão. Voltou para o Brasil perto do Réveillon, foi preso, mas conseguiu decisão da Justiça para ficar em liberdade e assumiu 48 horas depois de sair da prisão. O prefeito negou irregularidades e, depois que assumiu, o processo entrou em segredo de Justiça.

Com um discurso marcado pela fala de "renovação", Lins começou seu mandato com PT e PSDB em sua base, partidos que governaram a cidade nas últimas décadas.

O PT deixou a base aliada ainda no primeiro ano da gestão Lins. Ex-prefeito de Osasco e hoje deputado estadual, o petista Emidio de Souza é um dos principais candidatos desta eleição.

Lins diz que entregou 85% das metas do plano de governo. Tem como trunfo ter criado um bilhete único, bandeira não cumprida pelos ex-prefeitos —apesar disso o benefício é limitado e não garante integração com os trens da CPTM.

Assim como os demais candidatos à reeleição, o prefeito tem propagandeado uma boa atuação no combate à Covid-19, o que é questionado por adversários.

A taxa proporcional de vítimas é maior do que a capital paulista —118 por 100 mil habitantes contra 109 em São Paulo. Apesar disso, Lins tem enfatizado que 17 mil pessoas se curaram da doença.

Por outro lado, problemas que se arrastam desde as gestões passadas não foram solucionados. O prefeito entregou um projeto de moradia no Conjunto Miguel Costa onde os moradores não podem entrar de carro, após impasse com a CPTM e o Exército, vizinho do local.

Uma nova saída para aliviar o trânsito na zona norte de Osasco, com uma terceira ponte sobre o rio Tietê, também ficou no papel. Há ainda obras atrasadas de combate às enchentes, um dos principais temas que preocupam a cidade.

“As enchentes estão acontecendo do mesmo jeito”, diz o comerciante Edivaldo da Luz Alves, 55. Na última terça-feira (20), as ruas do centro de Osasco voltaram a ficar alagadas.

Os 22 prefeitos estreantes candidatos à reeleição na Grande SP

  • Bruno Covas (PSDB) - São Paulo
  • Gustavo Henric, o Guti (PSD) - Guarulhos
  • Orlando Morando (PSDB) - São Bernardo do Campo
  • Paulo Serra (PSDB) - Santo André
  • Rogério Lins (Podemos) - Osasco
  • Marcus Melo (PSDB) - Mogi das Cruzes
  • Átila Jacomussi (PSB) - Mauá
  • Marcos Neves (PSDB) - Carapicuíba
  • Rodrigo Ashiuchi (PL) - Suzano
  • Ney Santos (Republicanos) - Embu das Artes
  • Rogério Franco (PSD) - Cotia
  • Igor Soares (Podemos) - Itapevi
  • Renata Sene (Republicanos) - Francisco Morato
  • Gian Lopes (Republicanos) - Poá
  • Paulo Barufi (PTB) - Jandira
  • Gersinho Romero (PSD) - Caieiras
  • Danilo Joan (PSD) - Cajamar
  • Fábia Porto (Republicanos) - Santa Isabel
  • Josué Ramos (PL) - Vargem Grande Paulista
  • Ayres Scorsatto (PL) - Juquitiba
  • Walter Tajiri (PTB) - Biritiba Mirim
  • Vanderlon Gomes (PL) - Salesópolis

Renovação vs. continuidade nos slogans das coligações

Carapicuíba

Marcos Neves (PSDB)
2016 - Um novo rumo para Carapicuíba
2020 - Carapicuíba no caminho certo

Guarulhos

Gustavo Henric, o Guti (PSD)
2016 - De Guarulhos por Guarulhos
2020 - Guarulhos do Bem

Itapevi

Igor Soares (Podemos)
2016 - Coragem pra mudar
2020 - Todos por Itapevi

São Bernardo do Campo

Orlando Morando (PSDB)
2016 - São Bernardo de novas oportunidades
2020 - Força e competência para cuidar da nossa gente

Santo André

Paulo Serra (PSDB)
2016 - Projeto forte, mudança certa
2020 - Futuro seguro para nossa Santo André

Osasco

Rogério Lins (Podemos)
2016 - Renova Osasco
2020 - Osasco cada vez mais nossa

Mauá

Átila Jacomussi (PSB)
2016 - Mauá, Mauá Muda já
2020 - Gente que faz

Suzano

Rodrigo Ashiuchi (PL)
2016 - Experiência e responsabilidade para mudar do jeito certo
2020 - Suzano não pode parar

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.