Descrição de chapéu Eleições 2020

Russomanno se alinha de ponta a ponta ao bolsonarismo, de ministros à pandemia

Candidato a prefeito de SP apoiado pelo presidente reforçou discurso anti-Doria e acenou à militância

São Paulo

Em esforço para se alinhar ao padrinho Jair Bolsonaro (sem partido), o candidato Celso Russomanno (Republicanos) reforçou nos últimos dias a adesão a bandeiras do bolsonarismo e fez adaptações na campanha à Prefeitura de São Paulo para tentar manter a dianteira nas pesquisas.

O deputado federal e apresentador de TV, que recebeu o apoio do titular do Planalto há pouco mais de um mês, passou a defender que a vacinação contra o coronavírus não seja obrigatória, minimizou a pandemia e a ditadura militar e, ao estilo do padrinho, adotou tom mais briguento nas redes sociais.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se encontra com o candidato Celso Russomanno (Republicanos), no dia 5 de outubro, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se encontra com o candidato Celso Russomanno (Republicanos), no dia 5 de outubro, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo - Renato S. Cerqueira - 5.out.2020/Futura Press

Na parte prática da campanha, Russomanno —que alcança 27% das intenções de voto, segundo o Datafolha— abriu as portas para emissários do governo como o secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fabio Wajngarten, e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Os dois se reuniram com o candidato na segunda-feira (19). Oficialmente, discutiram propostas como a despoluição do rio Pinheiros. Nos bastidores, contudo, a informação é a de que Wajngarten e Salles têm ajudado o aliado nas estratégias contra o candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB).

O pano de fundo é a guerra travada entre Bolsonaro e o governador João Doria (PSDB), que apoia Covas e foi declarado inimigo do presidente por causa de suas pretensões de disputar o governo federal em 2022.

A busca de aproximação com o bolsonarismo na capital coincide com o momento em que se tornou pública a insatisfação do Planalto com aspectos da candidatura, como mostrou a Folha.

Auxiliares do governo se queixaram da desorganização da campanha e da relação do Republicanos com Doria —o partido possui cargos na máquina tucana, compõe a base do governador na Assembleia Legislativa e deu 5 dos seus 6 votos a favor do polêmico projeto de reforma do governo.

Russomanno, por sua vez, tem frisado o máximo possível que é "amigo particular do presidente desde 1995" e que isso favorecerá a capital, caso ele seja eleito.

Vem daí, por exemplo, a promessa de que a União renegociará a dívida da cidade para dar fôlego ao caixa e permitir o pagamento do "auxílio paulistano", um complemento do futuro programa Renda Cidadã.

Para alguns dos aliados do deputado, a coincidência retórica com Bolsonaro não é oportunista, apenas reflete a afinidade de pensamento entre dois amigos de longa data.

Nesta quarta-feira (21), Russomanno voltou a mostrar afinação com o padrinho e criticou a obrigatoriedade da vacina para controle da Covid-19, defendida por Doria.

"Doria não pode obrigar as pessoas a tomar vacina. Mandaram fechar o comércio, quebraram a cidade, quebraram o estado. Agora querem obrigar a vacinação", afirmou, acrescentando que cogitar uso de força policial é algo descabido.

Ainda a respeito da pandemia, Russomanno colocou em xeque o nível de contágio da doença entre a população de rua e os moradores da periferia, ao dizer que era esperado um número maior de mortes.

O deputado afirma que não é negacionista e que respeita a ciência, mas emulou o presidente ao pedir explicações a cientistas sobre por que, segundo ele, o vírus não matou tanto quanto se alardeava no início.

Ele chegou a sugerir que a falta de banho de moradores de rua poderia ser uma explicação para a imunidade, tese contestada por especialistas, que reforçam a importância da higiene.

A frase foi comparada a outra dita por Bolsonaro em março: "O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali. Ele sai, mergulha e não acontece nada com ele".

Em outro aceno a eleitores do presidente, Russomanno atendeu ao pedido do youtuber bolsonarista Fernando Lisboa e agendou para esta quarta participação em live no canal do influenciador, o Vlog do Lisboa.

O youtuber foi alvo de operação da Polícia Federal em junho deste ano na investigação sobre atos antidemocráticos conduzida pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Em seus vídeos, Lisboa já defendeu o fechamento da corte e do Congresso Nacional.

"Sou legalista. Enquanto não existe condenação, não tem problema nenhum", disse o candidato horas antes da live. "Se ele está sendo investigado, as investigações devem continuar. Não estou endossando [atos antidemocráticos], estou fazendo live com uma quantidade imensa de pessoas, não é só ele."

Na live, que durou cerca de uma hora, Russomanno seguiu a cartilha do bolsonarismo —fez críticas a Doria, falou contra a indústria de multas, se disse cristão e vítima de fake news, além de minimizar a pandemia, que já matou mais de 155 mil. "A tal da Covid-19 dizimou todo mundo? Não dizimou ninguém."

Sobre o risco de rompimento com Bolsonaro, ele afirmou que "amizade verdadeira não tem traição", mas falsa tem. "Podem ficar tranquilos, não tem acordo: amigo que é amigo morre junto, mas não trai", disse.

​Na convenção que o lançou candidato, em 16 de setembro, Russomanno já havia indicado consonância com Bolsonaro, ao defender o mote "Deus, pátria e família" como norte da campanha e ao discursar a favor das escolas militares, caras ao presidente. Ele fala em instalar uma em São Paulo.

A postura tem se assemelhado cada vez mais à do presidente também nos embates com jornalistas. Na entrevista concedida à Folha na semana passada, o deputado se recusou a responder a perguntas sobre temas delicados e manteve a decisão mesmo após insistências.

Russomanno repete Bolsonaro também ao descartar a presença em debates no primeiro turno —ele diz que irá a todos os confrontos do segundo turno. Com o presidente, na campanha de 2018, a ausência foi justificada pela facada que ele sofreu durante ato em Juiz de Fora (MG).

Grupos conservadores que dão sustentação ao presidente em São Paulo têm se organizado para fazer chegar a Russomanno dicas e reclamações sobre seu comportamento. Uma queixa era sobre a ausência de respostas mais incisivas, como as de Bolsonaro.

Militantes também fizeram pressão para que o candidato abraçasse pautas como a defesa da não obrigatoriedade da vacina e subisse o tom nas críticas a Doria. Um próximo passo é tentar marcar reuniões entre o parlamentar e movimentos de direita.

A avaliação geral dos apoiadores mais fiéis do presidente é a de que o postulante não tem o passado conservador desejado, mas receberá o voto deles porque foi o nome escolhido por Bolsonaro e porque não simpatizam com nenhum dos outros candidatos a prefeito.

"Russomanno não está se bolsonarizando, é o contrário: está havendo a identificação desses bolsonaristas com a linguagem natural do Celso, que é pró-Bolsonaro", diz o marqueteiro da campanha, Elsinho Mouco.

"É natural que ele venha ao encontro do manual bolsonarista. É um processo natural, até pela maior convivência que eles têm agora", completa o publicitário.

Mouco diz ainda que a estratégia em curso tem o objetivo de aumentar a popularidade do candidato em uma fatia do eleitorado considerada mais propensa a apoiá-lo.

"Em 2012 e 2016, Celso fez campanha falando para todos. Em 2020, optamos por trabalhar com o eleitor que já é dele no primeiro turno, que coincide com o público de Bolsonaro, das classes C, D e E."

A pouco mais de três semanas do primeiro turno, aliados de Russomanno também sentiram necessidade de reforçar a articulação política. Para tentar engajar deputados estaduais do Republicanos, do PTB e do PSL, houve uma reunião dos parlamentares com o candidato na noite desta quarta.

O encontro foi organizado pelo deputado estadual Campos Machado (PTB). O vice de Russomanno, Marcos da Costa, é do PTB, partido de Roberto Jefferson, aliado de Bolsonaro.

Segundo membros da campanha, a reclamação do Planalto a respeito de paralisia e falta de engajamento está, agora, equalizada. Na reunião, os deputados estaduais se comprometeram a entrar de cabeça na campanha, mobilizando seus eleitores e fazendo agendas eleitorais em seus redutos.

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Pontos de contato entre Russomanno e Bolsonaro

Vacina
A exemplo de Bolsonaro, Russomanno vem afirmando desde segunda-feira (19) ser contra a obrigatoriedade da vacinação contra o novo coronavírus. "Mandaram fechar o comércio, quebraram a cidade, quebraram o estado. Agora querem obrigar a vacinação", disse nesta quarta-feira (21). "Vou fazer uma campanha orientando as pessoas para a vacinação. Agora, obrigá-las a tomar vacina com força policial, isso é descabido, é só para quem não conhece direito e está falando bobagem"

Pandemia
O candidato também tem minimizado os efeitos da pandemia e defendido propostas que não encontram consenso na ciência, como o chamado isolamento vertical. Ele é favorável à retomada de atividades e ao retorno às aulas, com precauções. Embora diga respeitar os cientistas, afirmou que é preciso explicar por que moradores de rua não foram tão afetados pela doença e fez uma relação entre esse cenário e a ausência de banho

Base radical
Até então distante da militância mais fervorosa do bolsonarismo, Russomanno incluiu em sua agenda de campanha nesta quarta-feira (21) uma live com um youtuber que já defendeu o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal) e do Congresso. Fernando Lisboa, do canal Vlog do Lisboa, foi alvo da operação contra atos antidemocráticos ordenada pelo STF. O candidato também deve se encontrar com líderes de movimentos conservadores

Debates
Embora assessores rechacem a comparação, Russomanno adotou como regra a ausência em debates com outros candidatos à prefeitura, a exemplo do que ocorreu com Bolsonaro durante a campanha de 2018, na qual sofreu uma facada. O deputado tem usado como argumento as regras dos embates, que vê como prejudiciais a ele, e o fato de emissoras quererem restringir o convite aos postulantes mais bem colocados em pesquisas, o que diz ser antidemocrático

Imprensa
O deputado, que também é jornalista, tem evitado a repetição de embates com repórteres como os que aconteceram em suas tentativas anteriores de chegar à prefeitura, em 2012 e 2016. Nos últimos dias, no entanto, subiu o tom ao ser pressionado no SBT e também em uma entrevista coletiva nesta quarta-feira (21), diante de questões sobre um processo judicial. Na entrevista que concedeu à Folha na sexta (16), recusou-se a responder a várias perguntas

Escola militar
Russomanno também abraçou uma das bandeiras de Bolsonaro, que é a abertura de escolas cívico-militares nos municípios. Ao lançar sua candidatura, em 16 de setembro, afirmou que "São Paulo vai ter o maior e melhor colégio militar" caso ele seja eleito prefeito. "Das escolas militares saem bons brasileiros e patriotas", completou. O parlamentar diz que contará com o apoio do governo federal para trazer o modelo para a capital

Ditadura
O candidato segue a linha de Bolsonaro na opinião sobre a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Russomanno diz que o que houve, para ele, foi um "governo militar". O presidente da República também nega a existência de um regime ditatorial no país. "Nós vivemos um governo militar aqui, sem dúvida nenhuma. [...] Isso não faz parte da minha vida porque eu era garotinho nessa época", afirmou Russomanno no último dia 14

Deus, pátria e família
Russomanno fez eco a um dos pilares da campanha de Bolsonaro em 2018, indicando apego a valores tradicionais já no lançamento de sua candidatura, em 16 de setembro. "Temos os mesmos valores, ao longo de muitos e muitos anos. Nossos valores são voltados para Deus, pátria e família", discursou na ocasião. No dia 1º deste mês, durante um evento do governo, o presidente incentivou seus apoiadores a votarem em candidatos que empunhem o lema como bandeira e tenham "Deus no coração"

Tretas no Twitter
Distante da rede social desde junho de 2019, o candidato a prefeito retomou a conta para promover sua campanha e também para atacar adversários e críticos. Já mandou respostas para a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) e a candidata a prefeita Joice Hasselmann (PSL-SP). Nesta quarta-feira (21), o alvo foi o rival Guilherme Boulos (PSOL). Russomanno o acusou de "se esconder atrás dos sem-teto e usá-los para suas politicagens" e "usar seguidores para espalhar" mentiras

Ataques a Doria
Embora tenha apoiado a eleição do governador João Doria (PSDB) em 2018, Russomanno hoje faz críticas ao governador, citando o fato de ele ter abandonado a prefeitura com 15 meses de mandato e atacando o tucano pela condução da crise do coronavírus. Ele diz, contudo, que não leva a briga para o lado pessoal. O Republicanos, seu partido, compõe a base do governo estadual na Assembleia e tem cargos na administração. Já Bolsonaro vê Doria como inimigo e se movimenta para brecar as aspirações eleitorais dele

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