Descrição de chapéu sombra eleitoral

'Sobrevivente' de delação, prefeito de Cuiabá tenta reeleição e quer eleger filho em cidade vizinha

Emanuel Pinheiro, flagrado em vídeo em que colocava dinheiro no paletó, superou CPI e forma maior chapa

São Paulo

O prefeito de capital mais duramente atingido pela onda de delações surgida em tempos de Lava Jato e de operações congêneres resistiu no cargo, se lança agora à reeleição entre os favoritos e ainda tenta emplacar o filho no comando de uma cidade vizinha.

O emedebista Emanuel Pinheiro, 55, que governa Cuiabá (MT), ganhou destaque no noticiário nacional em 2017 ao aparecer em um vídeo embolsando maços de dinheiro entregues pelo ex-chefe de gabinete da governadoria do estado, Sílvio Corrêa.

"Pega as notas de cem pra mim", dizia o prefeito na gravação, feita em 2013, quando ainda era deputado estadual. Um dos maços de dinheiro que ele tentava colocar no paletó cai no chão em trecho do vídeo.

Vídeo que mostra o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, colocando dinheiro no paletó na época em que era deputado
Vídeo que mostra o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, colocando dinheiro no paletó na época em que era deputado - Reprodução

As imagens faziam parte do acordo de delação de Corrêa e do ex-governador pelo MDB Silval Barbosa e pareciam um golpe de misericórdia na carreira do emedebista, então com apenas nove meses de mandato na prefeitura.

Blindado por vereadores aliados, porém, resistiu a uma CPI. Também conseguiu a rejeição de pedidos de afastamento feitos pelo ex-procurador-geral Rodrigo Janot (negado pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal) e pelo Ministério Público do Estado —que não teve aval na Justiça local.

Sua justificativa ao longo destes anos foi a de que o dinheiro vivo recebido não era de propina, mas sim o pagamento de uma dívida que o delator tinha com o irmão, Marco Polo Pinheiro, em decorrência da contratação lícita de uma pesquisa eleitoral.

A explicação não convenceu o Ministério Público Federal, que enfim o denunciou em setembro deste ano sob acusação de corrupção passiva e associação criminosa.

Os procuradores afirmam que Emanuel Pinheiro, assim como outros dois gravados, recebia suborno de R$ 50 mil mensais para votar com o governo de Barbosa na Assembleia.

"Enquanto [Pinheiro] guarda o dinheiro, ainda brinca com a frase: 'Ê, Silvio'... talvez fazendo menção a um conhecido comunicador e empresário da rede de televisão que repetia a frase em seus programas dominicais: 'Quem quer dinheiro?'", escreveu o Ministério Público na acusação.

Segundo a Procuradoria, o dinheiro da propina vinha da arrecadação mantida pelo grupo do ex-governador com obras para a Copa do Mundo de 2014 e do plano MT Integrado, de rodovias.

O projeto do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) de Cuiabá feito para o Mundial, que consumiu R$ 1 bilhão e teve a construção abandonada, se tornou um símbolo do problemático pacote de obras daqueles anos.

Situações como essa provocaram investigações policiais que nos últimos anos assolaram a política de Mato Grosso, como a Operação Ararath, que, assim como a Lava Jato, também desencadeou uma sequência de delações que levou a novas frentes de apuração.

Silval Barbosa passou quase dois anos preso em virtude da operação estadual batizada de Sodoma, que apurava propina em contratos públicos, e virou delator em 2017.

A Operação Sodoma, que chegou a ser apelidada de "Lava Jato pantaneira", deu projeção à juíza Selma Arruda, que deixaria a toga para se eleger senadora pelo PSL, em 2018. Ela, porém, acabou cassada pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico e caixa dois.

Um dos capítulos mais recentes da agitação política local foi a delação do ex-presidente da Assembleia José Riva, que por anos foi um dos políticos mais influentes do estado. Nela, Pinheiro também é acusado de receber propina em seus tempos de deputado.

Para o prefeito, a permanência no cargo não ocorreu sem grandes desgastes. Em setembro de 2017, foi alvo de buscas ordenadas pelo ministro Fux em decorrência da delação do ex-governador.

Ainda naquela época, o emedebista assinou um decreto orçamentário suplementando em R$ 6,7 milhões os recursos da Câmara Municipal. Ele negou relação entre a medida e a crise provocada pela divulgação do vídeo da colaboração do antigo correligionário.

Em março deste ano, sofreu um revés no Judiciário com a abertura de ação penal na qual é acusado de peculato, também na época em que era deputado estadual.

Nesse caso, a denúncia é de desvio de dinheiro das verbas indenizatórias, junto com outros deputados estaduais, por meio de empresas de fachada em valores que chegam a R$ 600 mil, somando os vários gabinetes.

O teste de resistência final ocorreu no último dia 29 quando os vereadores governistas conseguiram derrubar por 15 votos a 8 o relatório final da chamada "CPI do Paletó", que pedia o afastamento de Pinheiro, agora prestes a concluir o mandato e candidato à reeleição.

A comissão havia sido instaurada ainda em 2017. Acabou paralisada por discussões na Justiça sobre sua composição e seu desfecho se arrastou pela maior parte da legislatura. Ele não compareceu para depor aos vereadores.

Não deve haver impeditivo jurídico para ele se manter na disputa, como a ficha-suja, por exemplo. Pinheiro formou a maior coligação, com vice do PV, e apoio de mais nove partidos. Obteve o dobro do tempo de TV do segundo candidato com mais espaço.

Ao mesmo tempo em que dirigiu sua campanha à reeleição, Emanuel Pinheiro também participou da articulação, em que contrariou o próprio partido, da candidatura do filho à Prefeitura de Várzea Grande, cidade vizinha e a segunda mais populosa do estado, só atrás da capital.

Lançado pelo PTB, Emanuelzinho, como é conhecido, vai disputar contra o partido do pai. O filho tem 25 anos e hoje é deputado federal.

Questionado a respeito, diz que nada tem a ver com a candidatura do PTB, mas que não iria "podar o sonho" do filho.

Essa circunstância gerou um fato inusitado na semana retrasada. Adversário do prefeito, o governador Mauro Mendes, do DEM, foi a Várzea Grande apoiar em ato o candidato do MDB, Kalil Baracat.

No evento, recordou a cena do vídeo da delação, em frase que deve dar a tônica da eleição municipal. "Não vai tirar do paletó aqui nada nessa cidade. Tem que ter respeito por Várzea Grande", disse Mendes.

Os candidatos Emanuel Pinheiro e Emanuel Pinheiro Neto reunidos no ano passado
Os candidatos Emanuel Pinheiro e Emanuel Pinheiro Neto reunidos no ano passado - Reprodução Facebook

Em Cuiabá, a oposição resgatou para o pleito Roberto França, prefeito de 1997 a 2004 pelo PSDB e PPS, que não disputava eleições desde aquela época. Ele apresentava um programa de TV antes da campanha.

França, 72, concorre pelo partido Patriota, com o apoio do DEM e do governador.

Seguindo a tendência de surgimento de candidatos com carreira no Judiciário, a cidade também tem na campanha um ex-juiz, Julier Silva, do PT.

Um dos principais opositores na Câmara, o hoje vereador Abilio Brunini, 36, se lançou à prefeitura pelo Podemos e, em seu horário eleitoral na TV, diz que lutou "contra a turma do paletó" e exibe um ator representando Pinheiro contando um maço de dinheiro.

Abilio lidera a disputa municipal com 26%, de acordo com pesquisa Ibope divulgada na última sexta (16), mas divide a primeira posição com Pinheiro, que tem 20%, e França (19%) devido à margem de erro de quatro pontos percentuais, para mais ou para menos. Gisela Simona (PROS) tem 11% e Julier Silva, 3%.

Concorrem também Aécio Rodrigues (PSL), Paulo Grando (Novo) e Gilberto Lopes Filho (PSOL).

A eleição municipal pode sofrer influência ainda do pleito estadual para a escolha de um senador para ocupar a vaga de Selma Arruda. A votação ocorrerá no mesmo dia, 15 de novembro.

Procurado pela Folha, o prefeito informou, por meio de sua assessoria, que não iria se manifestar a respeito do teor da reportagem.

Em setembro, ele disse que os adversários integram um "comitê da maldade" desde o primeiro dia do mandato e chamou a CPI de balela. Afirmou, em relação ao vídeo, que pediu desculpas à população pelas imagens e que era "a pessoa errada na hora errada".

"Vou usar todos os argumentos e as provas que tenho para mostrar, para provar, a minha inocência em todo esse mar de lama que foi anunciado com a delação do ex-governador. Agora, sim, quebrou-se o sigilo [da delação] e poderei falar mais à vontade. Antes eu não podia falar, poderia gerar prova contra mim mesmo."

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