Enfrentamento à pandemia impulsiona reeleição de prefeitos no ABC Paulista

Gestores que priorizaram investimentos em saúde venceram já no 1º turno em Santo André, São Bernardo e São Caetano

São Paulo

O investimento na área da saúde ao longo do primeiro mandato teve reflexos no enfrentamento da pandemia de Covid-19 e também nas urnas para prefeitos da região do ABCD Paulista que conseguiram a reeleição já no primeiro turno.

O cientista político da Escola de Administração de Empresas da FGV-SP Eduardo Grin destaca que nas últimas eleições, mesmo antes da pandemia, a saúde já figurava como um dos temas prioritários para os eleitores e ganhou ainda mais relevância nessa corrida eleitoral.

“Além do impacto real da pandemia, também [pesava] no imaginário do eleitor o fato de que o tema ganhou notoriedade por qualquer ângulo que se queira nos meios de comunicação. Isso tudo, inevitavelmente, produz no eleitor um direcionador do voto”, diz.

Grin acrescenta que os acertos no enfrentamento da Covid-19 nas cidades foram consequência de investimentos feitos antes da crise em saúde básica, que são caros e demandam tempo para surtirem efeito.

“A Covid é mais consequência em certo sentido do que causa. Investimento em saúde é investimento em prevenção, não é investimento de curto prazo ou emergencial, mas de governo”, afirma, citando São Bernardo do Campo como exemplo de uma cidade em que a área foi priorizada pela gestão de Orlando Morando (PSDB).

Reeleito com 67,28% dos votos válidos, o tucano disse à Folha em setembro que a inauguração de dois novos hospitais na cidade neste ano —um construído e o outro reformado— foram a “pérola” de seu primeiro mandato.

De 2017 a 2020, a prefeitura diz que executou mais de R$ 3,8 bilhões na área e que isso representa aumento de 19% em relação aos quatro anos anteriores. Outro hospital, que operava com 40% da capacidade, passou a funcionar com capacidade plena, tornando-se referência em cirurgias cardíacas infantis no estado, segundo a administração.

A prefeitura afirma que em quatro anos o número de leitos na rede pública aumentou 71%, passando de 607 no início da gestão para 1.037 ao final de quatro anos. No mesmo período, a cidade dobrou o número de médicos, passando de 1.485 para 3.018 profissionais, 5 para cada 1.000 habitantes na cidade com população estimada de mais de 844 mil moradores.

Dos 118 equipamentos da rede de saúde, 14 deles inaugurados na gestão do tucano, como uma nova unidade básica de saúde, três centros de atenção psicossocial e uma unidade de pronto-atendimento.

A atenção básica conta com 34 unidades básicas de saúde, três centros de especialidades odontológicas e um consultório de rua. A prefeitura informa que desde 2019 o horário das unidades básicas foi ampliado para até 22h, por meio do programa Saúde na Hora.

Em maio, a cidade figurava como segunda menos vulnerável à Covid-19, num índice elaborado pelo Instituto Votorantim. Até esta terça-feira (17), São Bernardo registrava 998 óbitos e mais de 32 mil casos de Covid-19.

Grin lembra que o desfinanciamento do SUS ocorrido ao longo dos últimos oito anos pressiona os gestores locais por políticas na saúde, mas que ações em outras áreas também trouxeram visibilidade.

É o caso de Santo André, também no ABC Paulista. Na cidade de quase 700 mil habitantes, Paulo Serra (PSDB) venceu com tranquilidade no primeiro turno, com 76,88% dos votos válidos.

Em quatro anos, a prefeitura executou mais de R$ 2,4 bilhões em saúde, aumento de 20% em comparação aos quatro anos da gestão anterior, segundo dados informados pela prefeitura.

Nesse período, a gestão tucana destaca a modernização de 22 equipamentos de saúde, aumento de 53% dos leitos da rede pública, atualmente mais de 1.200, e de 36% no de médicos, com mais de 4.800 profissionais.

Em relação ao coronavírus, a prefeitura destaca que mais de 95 mil pessoas na cidade já foram testadas, tendas de conscientização passaram a atuar nas feiras livres, pessoas de grupos de maior risco estão recebendo a visita de agentes comunitários de saúde, e um aplicativo e número de telefone foram criados para sanar dúvidas.

Na área social, a prefeitura lançou um programa para produção de 300 mil máscaras que estão sendo distribuídas à população. Também houve doação de cestas básicas para trabalhadores informais e kits com alimento e material de limpeza entregues desde abril para alunos da rede municipal.

Santo André registrava 658 óbitos e quase 22 mil casos de Covid-19 até terça-feira.

Em São Caetando do Sul, o tucano José Auricchio Júnior também foi reeleito para o quarto mandato na cidade com 45,28% dos votos. Ele teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral, por captação e gastos ilícitos em 2016, mas foi beneficiado por uma decisão de março do TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo), que suspendeu os efeitos até manifestação do Tribunal Superior Eleitoral.

Com população estimada em quase 162 mil habitantes, segundo o IBGE, e cerca de 35 mil pessoas com mais de 60 anos pelos dados do Seade, a cidade registrava até terça-feira 251 óbitos e 4,634 casos.

Para lidar com o cenário, a prefeitura investiu em testagem num sistema em drive thru e domiciliar, além de criar um sistema 24h de orientação médica por telefone. A gestão local também tornou obrigatório o uso de máscaras, distribuiu cestas básicas e realizou projetos de apoio psicológico para a equipe de saúde e também para moradores por telefone.

Desde 10 de outubro, 76% da população de São Paulo está na fase verde do Plano São Paulo, que prevê a reabertura controlada de quase todas as atividades. A atualização do status, previsto para segunda-feira (16) foi adiado para o dia 30 de novembro por atraso na divulgação de dados.

Até terça-feira, os 39 municípios da região metropolitana somavam 26.309 mil mortes e mais de 633 mil casos.

Profissionais de saúde colegam amostra do dedo de uma pessoa pela janela de um carro
Profissionais da saúde de São Caetano do Sul fazem testagem e medem temperatura em drive-thru e bloqueios de trânsito - Eric Romero - 02.Jul.2020/Prefeitura de São Caetano do Sul

Com o risco de uma nova onda da pandemia, o presidente do Cosems (Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo), Geraldo Reple Sobrinho, que é médico e secretário de saúde de São Bernardo, diz que os secretários, prefeitos e governadores têm pressionado o Ministério da Saúde para manter leitos.

“A desativação de leitos tem que ser muito cautelosa, porque o que estamos vendo na Europa e hospitais privados é que já está começando a subir o número de internações”, afirma Reple.

Para 2021, ele diz que um desafio para os prefeitos será lidar com a demanda reprimida ao longo da quarentena e o impacto causado para pacientes que adiaram exames de prevenção.

“Vamos ter que correr atrás desse tempo que ficou parado. Por exemplo, câncer. O número de mamografias caiu bastante e de papanicolau também. Os pacientes estão chegando já num quadro um pouco mais avançado do que chegavam."

Grin lembra que as prefeituras estarão numa situação ainda mais complicada a partir de 2021, com a queda na arrecadação do ISS e perspectiva do aumento da inadimplência no pagamento do IPTU diante do desemprego crescente. Ao mesmo tempo, a demanda por serviços públicos deve crescer ainda mais.

“Num cenário de penúria fiscal e crescente demanda por serviços públicos, as cidades vão precisar intensificar a cooperação intermunicipal, com consórcios de políticas públicas, sobretudo os que chamamos de multifinalitários, que não são específicos de uma área”, afirma.

O pesquisador finaliza dizendo que o investimento em políticas públicas, o cuidado com a população no contexto de soluções coletivas e consorciadas podem surtir efeito positivo junto ao eleitorado.

“Os prefeitos que conseguirem entender essas possibilidades tenderão talvez a colher frutos positivos junto à população."

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