Barroso minimiza falha que atrasou resultado, muda versão e liga pane no TSE à falta de testes na pandemia

Presidente da corte aponta articulação de milícia digital para desacreditar sistema eleitoral e não garante que 2º turno será livre de falhas

Brasília

O ministro Luís Roberto Barroso, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), apresentou nesta segunda-feira (16) nova versão sobre os atrasos na divulgação do resultado das eleições municipais, minimizou os problemas e não garantiu que o segundo turno, no próximo dia 29, será livre de falhas.

A votação de domingo (15) foi marcada por panes técnicas, que incluíram instabilidades em aplicativo do TSE e uma demora inédita para que se soubesse a totalização de votos das urnas eletrônicas.

Nesta segunda, Barroso afirmou que a demora na entrega de equipamentos por parte da empresa Oracle, em razão da pandemia da Covid-19, impediu a realização de testes prévios no sistema.

O presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, visita projeto que busca novas tecnologias para o sistema eleitoral em um colégio militar de Valparaíso (GO) - Pedro Ladeira - 15.nov.2020/Folhapress

Os equipamentos, segundo ele, deveriam ser entregues em março, mas chegaram somente em agosto.

No domingo, Barroso havia afirmado que uma falha em um dos núcleos do super computador que processa a totalização dos votos havia resultado no atraso da divulgação dos resultados.

Em relação às tentativas de ataque ao sistema do TSE, o ministro apontou a existência de articulação de milícias digitais, que teriam atuado de forma a desacreditar todo o sistema eleitoral brasileiro.

“A vida tem um componente de aleatoriedade que nem sempre é possível prever”, afirmou o ministro, quando questionado se a situação já estaria normalizada a tempo para o segundo turno das eleições.

Barroso então afirmou que os problemas serão sanados e que tem confiança na sua equipe que gerencia os sistemas de informação. Também que disse ter “fé que não ocorrerá” novos problemas.

O ministro também voltou a afirmar que um atraso de duas horas não configura uma situação de grande gravidade.

“Tem país esperando há 14 dias a divulgação final do resultado [das eleições]”, afirmou, em clara referência aos EUA.

O contrato que teve atraso é de R$ 26 milhões, válido por 48 meses, e foi assinado em março, mas os equipamentos foram entregues apenas em agosto por conta da pandemia do novo coronavírus.

"Essa demora impediu que nele se realizassem os testes prévios com reprodução do exato ambiente das eleições. Aí origem do problema, e a pandemia ademais trouxe dificuldade de interação humana, o que acarretou complexidade a todo o processo", disse.

Os técnicos do tribunal explicaram que seriam necessários cinco testes para que o sistema estivesse apto a receber um grande volume de informações, no período eleitoral. No entanto, novamente por conta da Covid-19, testes remotos foram aplicados.

Além disso, três dos testes foram feitos em equipamentos antigos, portanto o sistema de inteligência artificial das novas máquinas não estavam preparados para a tarefa de receber os dados eleitorais.

O contrato com a Oracle prevê sanções por atrasos nos serviços e entrega de equipamentos. Barroso, no entanto, afirmou que não seria o caso de exigir reparações, uma vez que o atraso foi resultado da situação de excepcionalidade da pandemia.

Procurada pela Folha, a Oracle não se manifestou até a publicação desta reportagem.

A Oracle do Brasil disse à Folha que não faria comentária adicional ao realizado nesta segunda pelo presidente do TSE.

Apesar de ter dito no domingo que o problema havia sido resultado da falha em um dos núcleos de processadores do supercomputador que processa a totalização dos votos, Barroso negou que tenha mudado a versão oficial.

Argumentou que a primeira causa divulgada tinha sido informada a ele pelos técnicos, que posteriormente descobriram as novas causas do problema em “análises subsequentes”. "É uma atualização de nossa compreensão do que aconteceu", afirmou o ministro.

"Não mudei a versão sobre os fatos. Ontem, a TI [departamento de Tecnologia da Informação do Tribunal], quando dei entrevista, tinha diagnóstico que o problema era uma falha no processador, o que efetivamente ocorreu. As análises subsequentes demonstraram que, embora o problema tivesse ocorrido, a causa real era a outra", completou.

O ministro ainda afirmou que havia confiado nas informações que foram fornecidas pelos técnicos. “Estudei Direito”, disse.

Em relação às tentativas de ataques de hackers contra o sistema do tribunal, Barroso disse que há suspeitas de que alguns desses grupos sejam investigados pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

"Milícias digitais entraram imediatamente em ação tentando desacreditar o sistema. Há suspeita de articulação de grupos extremistas que se empenham em desacreditar as instituições, clamam pela volta da ditadura e muitos deles são investigados pelo STF", afirmou.

O ministro foi questionado na entrevista se essas milícias digitais estavam ligadas a grupos políticos. "Não diria ligado a grupos políticos, mas evidentemente que suspeita-se de motivação política na operação", respondeu.

Os ataques contra o sistema do TSE partiram dos Estados Unidos, Brasil e Nova Zelândia. Barroso explicou que eles se deram com uma intensidade de 436 mil conexões por segundo.

O ministro, no entanto, voltou a reforçar que não foram bem sucedidos e não tiveram relação nenhuma com as falhas nos equipamentos, que acarretaram no atraso da divulgação dos resultados.

Barroso completou que solicitou ao delegado-geral da Polícia Federal a investigação dos atos. Além da tentativa de invadir o sistema, houve a divulgação de dados de servidores e ex-ministros do TSE.

Os dados, no entanto, eram antigos, referentes ao período entre 2001 e 2010. O ministro afirmou que a divulgação dessas informações exatamente no dia da eleição fazia parte da estratégia para tirar a credibilidade do sistema.

O TSE também descartou nesta segunda-feira reverter a mudança promovida ainda em 2018, na qual a totalização dos votos passou a ser feita pelo tribunal e não pelos TREs (Tribunais Regionais Eleitorais). Na noite de domingo, Barroso havia informado inicialmente que não era “simpático” à alteração, mas horas depois ressaltou que ela havia sido sugerida pela inteligência da PF e que também teria tomado a mesma decisão.

Segundo estimativas do tribunal, voltar ao modelo antigo de centralizar a totalização dos votos para os tribunais regionais custaria R$ 100 milhões. O valor seria da instalação de 54 servidores de rede ( dois para cara um dos 27 tribunais regionais), mais o custo de manutenção das máquinas e de enviar os dados para o TSE.

Além disso, não haveria tempo hábil de comprar todos os equipamentos a tempo do segundo turno. O tribunal estima uma economia de R$ 25 milhões com a centralização de dados no tribunal.

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