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Eleições 2020

Boulos encarna o velho normal da disputa entre PSDB e esquerda em SP

Desempenho de Covas é sinal de alerta para Doria, mas Bolsonaro é o grande derrotado na cidade

São Paulo

O primeiro turno em São Paulo frustrou as expectativas de quem esperava uma prévia do embate previsto entre Jair Bolsonaro e João Doria no pleito de 2022, mas diz muito sobre os movimentos sísmicos da política nacional.

Os candidatos Bruno Covas e Guilherme Boulos após votarem em São Paulo neste domingo
Os candidatos Bruno Covas e Guilherme Boulos após votarem em São Paulo neste domingo - Marcelo Justo e Danileo Verpa/Folhapress

O bom desempenho de Guilherme Boulos (PSOL) mostra vigor do campo de esquerda na capital paulista, de resto uma constante desde 1988 interrompida apenas com a debacle de Fernando Haddad (PT), na esteira do impeachment da petista Dilma Rousseff, em 2016.

Há 32 anos, a atual vice de Boulos, Luiza Erundina, se tornava a primeira mulher e a primeira filiada do PT eleita na cidade.

Naquele momento, antagonizava com o malufismo, força dominante na política paulista durante a ascensão do PSDB, a partir do sucesso do Plano Real em 1994.

Com o tempo, o tucanato, já reinando no governo estadual, substituiu Paulo Maluf e seus seguidores na capital, alternando o poder com os petistas —com um interregno de Gilberto Kassab (hoje no PSD), que de todo modo podia ser computado na conta tucana naquele momento.

Há quatro anos se iniciava a onda conservadora que acabou por colocar Jair Bolsonaro na Presidência. O desgaste do PT no poder federal teve um preço alto na capital.

Como a narrativa indica, a má notícia fica para o partido de Luiz Inácio Lula da Silva, que nesta eleição municipal virou linha auxiliar da sigla radical saída de sua costela em 2004.

Guilherme Boulos encarnou, portanto, o velho normal das eleições paulistanas.

Mesmo o PSB, que com Márcio França nada tem de uma sigla esquerdista em São Paulo, se deu melhor que o PT. Provavelmente inelegível em 2022, o ex-presidente terá de refazer contas para entender a recolocação da esquerda no jogo.

Otimistas falarão em união de Lula, Ciro Gomes (PDT) e agora o PSOL, mas tais esperanças não encontrou apoio no histórico dessas forças. Todos os não-petistas desconfiam das intenções hegemonistas do ex-presidente.

De toda forma, um sinal sobre como isso irá se desenrolar poderá ser aferido na qualidade do apoio que deverá ser dado pelo PT ao PSOL no segundo turno paulista: como aliado submisso à estratégia do candidato ou tentando engolir Boulos e, no caso de uma vitória, a composição de seu eventual governo.

O Rio, que em 2016 viveu a realidade hoje da esquerda paulistana, traz um conto cautelar. Lá, o nome de Marcelo Freixo emergiu em 2016, mas não organizou o setor.

O resultado foi a retomada de espaço pelo PT, só para ambos os partidos ficarem fora do segundo turno neste ano.

É preciso colocar um grão de sal, aliás, na euforia que toma o campo que gosta de se autointitular progressista.

Parece claro que o eleitorado jovem impulsionou Boulos, mas o voto conservador ainda é majoritário na capital, e neste ano pode ter sido algo tolhido pelo coronavírus.

O prefeito Bruno Covas (PSDB) tinha 46% da intenção de votos daqueles com mais de 60 anos, presumivelmente mais propensos a não votar por medo da Covid-19, por serem de grupos de risco.

Ainda assim, o desempenho no primeiro turno Covas é um sinal de alerta para Doria. O PSDB previa o prefeito com pelo menos 40% dos votos no primeiro turno, quando não repetindo a arrancada de quando era vice do atual governador em 2016.

Doria foi quem arquitetou a aliança em torno do seu ex-vice na prefeitura, unindo DEM, MDB e outras sete siglas, visando montar arcabouço de uma frente de centro-direita para disputar com Bolsonaro em 2022.

O arranjo passa por várias etapas, como a entrega da vaga de vice ao MDB e a sucessão da presidência da Câmara dos Deputados, na mão de Rodrigo Maia (DEM-RJ), um aliado desconfiado de Doria e, em público, incentivador da candidatura do global Luciano Huck em 2022.

Covas, que não fala a mesma língua que Doria, evitou trazer o governador para a campanha, rejeição dele na capital. Aliados do governador falavam, na noite de domingo (15), que um segundo turno difícil poderá amaciar um pouco o prefeito.

Mais, ele agora terá de provar a teoria de seus estrategistas, Boulos seria o adversário ideal na rodada final.

Eles temiam abertamente a ida de França ao segundo turno, que na visão tucana poderia agregar votos à direita e à esquerda. Não anteviam a votação de Boulos.

O caminho provável será a retomada do antipetismo, agora transmutado em versão PSOL, como Covas já insinuou em debates. A votação de uma figura de direita da internet, Mamãe Falei (Patriota), mostra que há peixes a serem fisgados nesse canto do lago.

Por outro lado, a rejeição à política tradicional espraiou-se juntamente com a onda bolsonarista de 2018, que mirava muito o partido que foi poder federal de 2003 a 2016, o PT.

Assim, talvez o foco antiesquerdista, ainda mais quando o candidato é Covas, que se vê como de centro-esquerda, talvez não cole. O prefeito se vê mais como um antibolsonarista e, desde que herdou a cadeira de Doria em 2018, aproximou-se de elementos à esquerda em seu governo.

Quem perdeu inapelavelmente foi o presidente, que viu a derrocada de seu candidato, Celso Russomanno (Republicanos) e um segundo turno com dois opositores seus na cidade.

O deputado federal perdeu ainda pior do que nas derrotas de 2012 e 2016, com uma desidratação que acompanhou o apoio dado pelo presidente à sua aventura.

Bastava olhar a rejeição a Russomanno e a seu patrono na capital, idênticos 50% segundo o Datafolha, para ver o tamanho da dificuldade projetada à frente.

Isso agora se projeta para Bolsonaro, que buscava enfraquecer Doria com uma derrota em São Paulo. Ela pode até acontecer, mas ironicamente se isso ocorrer, não será pelas mãos de um bolsonarista.

Covas gosta de dizer que não há vinculação de resultados entre pleitos, citando o desastre de Geraldo Alckmin em 2018, quatro anos depois de ser consagrado no estado e dois após a maior vitória tucana na capital.

É uma meia verdade, dado que as forças que elegeram Doria e Covas em 2016 engordaram na onda bolsonarista de 2018, aliás surfada pelo próprio governador.

Quem estava deslocado há dois anos era Alckmin, talvez um candidato ideal na onda centrista que se formou neste ano, sob o impacto da pandemia e do fastio com a turbulência que emana da Brasília de Bolsonaro.

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