Descrição de chapéu Eleições 2020 STF

Ciro diz que Moro e Huck não têm legitimidade para ocupar Presidência, mas que 2022 ainda está distante

Ex-presidenciável chamou ex-ministro de fascista e afirmou que a diferença de Doria é ter experiência

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São Paulo

O ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT) reagiu nesta segunda-feira (9) à possibilidade de união entre o ex-juiz Sergio Moro, o apresentador Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), para a formação de uma candidatura que representaria a centro-direita na eleição presidencial de 2022.

Ciro esteve em São Paulo para declarar presencialmente apoio ao candidato a prefeito Márcio França (PSB), que está com 13% no Datafolha e tenta na reta final conseguir uma vaga no segundo turno. O PDT faz parte da coligação e ocupa a posição de vice, com o sindicalista Antonio Neto.

9.11.2020 - O candidato a prefeito Márcio França (PSB) em evento de campanha com o ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT), na Barra Funda, em São Paulo
Márcio França (PSB) em evento de campanha com o aliado Ciro Gomes (PDT), na Barra Funda, nesta segunda-feira (9) - Fernanda Luz/Divulgação

"A fraude que campeia no Brasil não cede espaço. No dia em que Doria, Huck e Moro forem de centro, eu sou de ultraesquerda, o que eu nunca fui", afirmou Ciro a jornalistas na saída do evento de campanha, em um galpão na Barra Funda (zona oeste).

O ex-ministro, que ficou em terceiro lugar na eleição de 2018, vencida por Jair Bolsonaro (sem partido), disse que nem Moro nem Huck tem legitimidade para ocupar a Presidência por serem inexperientes em cargos públicos. Sobre Doria, falou que o tucano ao menos tem um histórico de gestão.

Como revelou a Folha, a articulação de uma frente ampla contra a reeleição de Bolsonaro foi tratada por Moro e Huck em uma conversa em outubro. Doria também faz parte dos diálogos e recebeu o ex-ministro da Justiça e ex-juiz da Operação Lava Jato em setembro.

Pré-candidato à corrida de 2022, o ex-ministro disse aos apoiadores que debater o pleito nacional é prematuro e que muita coisa pode acontecer até lá, mas declarou estar pronto para enfrentar uma candidatura articulada pelos três, que ele chamou de "bolsonaristas de primeira hora".

"Moro vendeu a toga em troca de um cargo e é um cara da extrema direita. O Moro se veste como os fascistas italianos da década de 30. O Moro é fascista", afirmou Ciro à imprensa.

Aludindo ao fato de Moro ter ido para o governo Bolsonaro após ter condenado o ex-presidente Lula (PT), ele disse: "Isso é uma lesão ética que transforma o Moro para mim num grande malandro, num corrupto que durante o governo Bolsonaro tudo o que pôde fazer fez para acobertar os filhos ladrões do Bolsonaro".

"O Luciano Huck é um apresentador de televisão. Ok, é uma tarefa das mais dignas. Isso o prepara para enfrentar a maior crise social e econômica do Brasil? Isso o habilita a ser [presidente]? Só a irresponsabilidade de algumas pessoas da elite brasileira é que permite a gente acreditar nisso", disse o pedetista.

Embora se declare adversário político de Doria, Ciro afirmou que o governador tem legitimidade para a disputa porque "já entrou aí na luta".

"Foi um prefeito que mentiu para o povo, ele disse muitas vezes que não deixaria [a prefeitura] e largou. Foi eleito governador, está fazendo um governo muito ruim. Mas tem legitimidade, pode chegar e dizer: eu não sou um apresentador de televisão que nunca administrou nada."

Indagado pelos jornalistas sobre o encontro que teve em setembro com o ex-presidente Lula, Ciro disse que os dois —que vinham com a relação estremecida desde a eleição de 2018 e trocaram críticas nos últimos tempos— tiveram "uma conversa muito franca, muito franca mesmo".

"Usando uma expressão popular, lavamos a roupa suja pra valer. Sob o ponto de vista das compreensões da questão brasileira, para trás e para a frente, continuamos como estávamos antes de conversar. Mas a mim me agrada a ideia de que a gente faça política conversando", afirmou o pedetista.

Nas falas desta segunda, recheadas de referências à vitória do democrata Joe Biden na eleição nos Estados Unidos, Ciro discursou contra o que considera um ambiente de ódio e divisão política no Brasil e afirmou que a eleição de França em São Paulo daria um sinal de fuga dos extremos.

Para ele, o cenário da eleição municipal em várias cidades brasileiras mostra que a população se cansou do clima de polarização e busca alternativas para os problemas cotidianos e, principalmente, o agravamento da crise econômica a partir de 2021.

"Parece que o bolsonarismo boçal e o lulopetismo corrompido vão levar uma grande surra no Brasil inteiro", disse. "Isso quer dizer que o eleitorado brasileiro, por esmagadora maioria, como segunda razão para o seu voto nas grandes cidades, está banindo esses dois extremos."

Ao lado de França, Ciro afirmou que a vitória eleitoral inclui fazer concessões, indicou que uma transição no país exige líderes moderados e minimizou o fato de o aliado ter se somado ao PSDB no estado, como vice do então governador Geraldo Alckmin e articulador político da campanha de Doria em 2016.

"Para ganhar eleição, você precisa descer um pouquinho do discurso, ceder um pouquinho da paixão, da emoção, para botar a inteligência, o estratégico a serviço", teorizou Ciro, mencionando o progressista Bernie Sanders, que abriu mão da candidatura nos EUA para "derrotar um mal maior", Donald Trump.

"O Márcio tem uma história. Nunca foi um líder de uma esquerda radical, mas nunca andou com a direita sob o ponto de vista orgânico, de agenda. Quando ele faz uma aliança com o PSDB aqui para ser o vice, é uma aliança, entre diferentes. E se comportou. Nunca traiu o campo onde ele atua", disse o pedetista.

"O Márcio está vendo aqui em São Paulo que ou a gente tira um pedacinho desse eleitorado tucano, desse eleitorado mais conservador, ou a gente simplesmente entrega [a prefeitura] para eles de novo."

Na sabatina Folha/UOL, na terça-feira (3), França disse se considerar progressista, rebatendo um argumento usado pelo rival Guilherme Boulos (PSOL), com quem está em empate técnico nas pesquisas. Para atacar o ex-governador, Boulos o associa à direita e ao PSDB.

Na mesma entrevista, o ex-governador afirmou que aceita de bom grado o voto de quem apoiou Bolsonaro, mas não tem "nenhuma relação de afinidade, nenhum vínculo partidário" com o titular do Planalto.

Ciro disse nesta segunda que França acertou ao fazer uma campanha desconectada de um aliado no plano nacional, com a eleição de 2022 no pano de fundo, ou um padrinho político.

O candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), omitiu Doria de suas propagandas, mas os adversários martelaram a informação de que eles são aliados e que Covas só está no cargo porque herdou a cadeira com a renúncia de Doria para concorrer ao governo do estado.

Celso Russomanno (Republicanos), hoje numericamente em segundo lugar no Datafolha, escora sua campanha no apoio de Bolsonaro, que aparece ao lado dele no horário eleitoral e tem pedido votos para o deputado e apresentador de TV em suas lives em redes sociais.

"Acho que o Márcio está coberto de razão. A disputa é para a prefeitura", disse Ciro, que em diversos momentos atacou a inexperiência de Russomanno em cargos no Executivo.

"Tem que discutir se a prefeitura daqui está acertando a mão. E, se não está, que tipo de mudança São Paulo vai fazer? É em nome de um 'speaker' de TV, de um animador de auditório [Russomanno]? Ou é preciso muita experiência, segurança, capacidade de diálogo, boas propostas, capacidade de dar a mão ao adversário?"

Em uma sequência de elogios ao candidato do PSB, o pedetista afirmou que os paulistanos devem escolher "mudar sem pular no escuro" e que "não é hora de estagiário, de ódio, de sectarismo político".

O PDT está coligado com o PSB em outras cidades do país, como o Rio de Janeiro, onde a deputada estadual Martha Rocha (PDT) está brigando por um lugar no segundo turno.

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