Diferença entre resultados de pesquisa e de eleição não implica fraude

Presidente do PTB, Roberto Jefferson engana ao questionar votação em Porto Alegre

São Paulo

É enganoso o tuíte do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) sugerindo ser falsa pesquisa eleitoral em Porto Alegre ao comparar o percentual apontado pelo estudo com o resultado das urnas. O atual presidente petebista escreve ainda, na rede social, que “algo tem que ser feito contra pesquisas fake”, mas a análise prévia sobre intenção de votos é válida e registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), passando por todos os ritos legais.

O resultado da votação ficou realmente fora da margem de erro do levantamento feito pelo Ibope e divulgado em 14 de novembro, um dia antes do pleito. No entanto, como verificou o Comprova, essa variação é sempre uma possibilidade e não prova que houve erro, tampouco intenção de fraude, segundo Marcelo Tokarski, sócio-diretor do FSB Pesquisas, e Paulo Peres, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

“Não necessariamente porque houve uma discrepância significa que houve erro na pesquisa", afirma Tokarski. "Ainda mais hoje, com as redes sociais. A população muda muito rapidamente de opinião.”

Além disso, o cenário projetado pelo Ibope desde 5 de outubro, data da primeira pesquisa tornada pública, se confirmou: decisão no segundo turno entre Manuela D’Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB). Este último apresentava intenção de votos crescente nos últimos levantamentos do Instituto.

O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, está sentado em uma cadeira (ele aparece na foto do peito para cima) e gesticula com o dedo indicador da mão esquerda. Ele usa camisa e paletó, sem gravata. O fundo é uma parede branca
O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson - Mateus Bonomi - 16.jan.2018/Folhapress

A renúncia de um candidato poucos dias antes da votação é outro fator que pode ter alterado o cenário. Bem como a questão de Porto Alegre ter a maior taxa de abstenção entre municípios com mais de 200 mil eleitores —um a cada três votantes não compareceu às urnas.

Apesar de não serem comuns, discrepâncias assim podem ocorrer. Não apenas em outras cidades, mas em outros países. É o caso da eleição de 2016 nos Estados Unidos.

Jefferson também menciona o DataFolha, mas o instituto não realiza pesquisas na capital gaúcha. Pelo Twitter, ele afirmou que “uma pesquisa assim, na véspera, não pode ser considerada séria”. Também disse que os membros do Comprova, “em vez de se preocuparem em comprovar a pesquisa, atacam quem critica”. Só depois respondeu ao contato direto da reportagem, acrescentando que a pesquisa não pode ser considerada séria: “não por ser divulgada na véspera, mas por produzir números tão discrepantes“.

Posteriormente, o tuíte que originou esta verificação foi deletado.

Verificação

O Projeto Comprova está em sua terceira fase, em que verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às eleições municipais, às políticas públicas do governo federal e à pandemia.

Ao comparar uma pesquisa devidamente registrada e dentro dos procedimentos legais com o resultado da votação e sugerir que “algo tem que ser feito contra pesquisas fake”, Roberto Jefferson estimula desconfiança na democracia brasileira. Ao levantar dúvidas sem apresentar provas, ele dá seguimento à agenda do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de duvidar do resultado das urnas.

Até 20 de novembro, o tuíte com conteúdo verificado aqui tinha mais de 2,7 interações (entre curtidas, comentários e republicações). Posteriormente, a postagem foi deletada.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano; ou que é retirado de seu contexto original e usado em outro, de modo que seu significado sofra alterações.

A investigação desse conteúdo foi feita por Poder360 e GZH e publicada na segunda-feira (23) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por Folha, UOL, Correio, Estadão, BandNews, Niara, Jornal do Commercio, NSC, Bereia, Piauí e A Gazeta.

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